OPINIÃO
12/10/2019 11:37 -03 | Atualizado 12/10/2019 11:37 -03

'El Camino' pode não ser um dos filmes mais marcantes do ano, mas vale pela nostalgia

Produção derivada de "Breaking Bad" é voltada para os fãs mais hardcore da série.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu El Camino e não quer estragar nenhuma surpresa da trama, não leia este texto agora. Volte apenas depois de assistir.

Desde que Pete Ham, vocalista da banda galesa Badfinger cantou as primeiras palavras de Baby Blue “Guess I got what I deserved” (eu acho que tive o que merecia) com Walter White (Bryan Cranston) estatelado no chão com os olhos vidrados, morto, uma legião de fãs de Breaking Bad ficava órfã.

E é exatamente para esses fãs (somente para eles mesmo) que, seis anos depois, Vince Gilligan, o criador de uma das séries mais queridas e cultuadas dos últimos tempos, decidiu dar mais um gostinho de White e seu pupilo Jesse Pinkman (Aaron Paul).

Porém, diferentemente do que muita gente esperava, a dupla de protagonistas de Breaking Bad não reapareceu em Better Call Saul, spin-off de BB escrito e dirigido pelo próprio Gilligan — mas em um produto (e formato) novo: um filme.

El Camino, produção da Netflix que estreou no catálogo da plataforma de streaming nesta sexta-feira (11), é o que chamam por aí de “fan service”. Um filhote da cultura das Comic Cons. Aquele conteúdo extra que funciona apenas para fazer um afago na cabeça do fãs mais “raiz”. Aquele que lembra de cor e salteado nomes dos personagens mais obscuros e vive discutindo teorias e mais teorias em fóruns na internet. 

No entanto, o filme serve também para sepultar de vez muitas dessas teorias que envolviam o destino de alguns personagens de peso da trama.

Aliás, usar a terminologia “filme” para descrever El Camino pode não ser a mais correta. A produção parece muito mais um episódio estendido de uma série do que um filme propriamente dito. Isso porque sua trama depende de um bom conhecimento prévio por parte do espectador. Tanto que faz uso de um artifício comum em séries, aquele recap tipo “anteriormente em...” (previously on...). 

Isso sem falar do fator previsibilidade. A trama de uma série tem a necessidade de se conectar com todo um trajeto construído por anos, muitas vezes engessando a conclusão. Algo que acontece em El Camino. Da primeira à última cena sabemos o que Jesse quer e para onde ele vai. Há boas pedras no caminho? Claro. Mas nada que surpreenda muito em relação ao destino do personagem.

A propósito, “destino” é a palavra-chave da razão de viver de El Camino. Seu grande propósito é mostrar aos fãs o que teria acontecido a Jesse Pinkman e por meio dessa jornada promover reencontros. Estão lá Badger (Matt Jones), Skinny Pete (Charles Baker), Old Joe (Larry Hankin) e até personagens que morreram na série, que retornam em flashbacks. Sim quem você está pensando aparece em uma cena dessas — ou seja, ele está definitivamente morto. 

Mas o destaque mesmo vai para a atuação de Aaron Paul. Certamente a melhor de sua carreira. É evidente que a passagem dos anos o amadureceu como ator, e ele emprega toda essa experiência adquirida nesse Jesse mais desiludido. 

Dito tudo isso, mesmo que El Camino não seja lá um “filme” dos mais marcantes, a sensação de nostalgia ao rever personagens queridos de Breaking Bad funcionam como beber uma caneca de chocolate quente em um dia frio. Esquenta a alma e alegra o coração. Ah, e serve também para deixar ainda mais claro que Walter White é um gigantesco fdp.