MULHERES
07/05/2020 18:30 -03 | Atualizado 17/05/2020 18:23 -03

Meu maior desafio é cuidar e amar uma criança negra num país racista

O 6º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da historiadora e professora Sherol dos Santos, moradora de Porto Alegre (RS), que enfrenta junto ao filho de 10 anos uma ferida ancestral: o racismo.

Divulgação/Arquivo Pessoal
A historiadora Sherol dos Santos com o filho, Téo, em Salvador (BA).

Eu sou Sherol, historiadora, professora e mãe do Teodoro.

Esse meu último título é o que mais amo ostentar. Teodoro acabou de completar 10 anos, é uma criança inteligente e amorosa. Posso dizer que foi meio “fácil” ser mãe dele até aqui. Ou não...

Bem, quando penso mais nisso, sou obrigada a admitir que não tem tarefa fácil na maternidade. E se penso nos desafios que enfrentamos, entro em contradição: tem sido bem difícil ser mãe!!! Eu sou uma mulher negra criando um guri negro num dos países mais racistas do mundo.

Eis o tamanho do meu desafio e da minha dor. Vou ilustrar contando uma história real:

Era fevereiro de 2017, um domingo meio nublado, mas mesmo assim o combinado era levar meu pequeno Teodoro para curtir um bloco de carnaval de rua aqui em Porto Alegre.

A fantasia foi escolhida e comprada com antecedência, até a maldita espuma foi prometida. Com o pirata devidamente vestido e armado de sua espada, partimos. Depois de algumas horas de circuito e um pouco de chuva, resolvemos ir pra casa. Eu moro próximo, voltamos a pé. São pouco mais que 18h, está começando a escurecer.

Nos acompanha um amigo meu. Os dois resolvem apostar corrida numa calçada bem próxima de casa. Cena normal, corriqueira. Tudo correndo na tranquilidade.

Tranquilidade interrompida: uma mulher branca, aparentando uns 50 anos, está vindo na direção oposta na mesma calçada em que Teodoro está correndo alegremente. Quando ele passa pela mulher, ela toma um susto e ergue as duas mãos, e ato contínuo, numa velocidade que nem sei descrever, se vira pro meu amigo que corre pela margem da rua alguns passos atrás:

— Ai moço, me devolve meu celular! Eu pago! Mas me devolve meu celular

Preciso descrever meu amigo? Acho que a maioria já entendeu: negro, alto, cabelo com dreads quase nos ombros e sem camisa.

Nesse ponto eu me aproximo e rispidamente, quase subindo na dita pessoa:

— Ah tá! Qualquer preto correndo é ladrão, é???

Ela me ignora e segue pedindo para o “moço” o seu celular de volta. E ainda acrescenta a informação de que foi assaltada há pouco tempo na rua mais embaixo e que precisa do celular. E que pode pagar.

Nesse mesmo momento, o Teodoro para perigosamente próximo à esquina e diz: “Vamo Mãe!”. Ele dobra a rua, e meu amigo resolve retrucar a mulher:

— Olha, não sei de nada do teu celular! Te liga!

— Eu pago o que for! Só me devolve!

— Eu não peguei celular nenhum; a senhora tá loka! (sobe um pouco o tom, mas ainda sem gritar)

Perdi uma parte da “conversa” por que o Teodoro virou a esquina e corri para alcançar. Ele não correu muito, está parado me esperando. Me olha dentro dos olhos, como só ele sabe fazer, e dispara:

— Mãe, ela achou que eu e o Fulano era ladrão?

Doeu. Doeu muito ouvir isso. Ele com 6 anos! Seis anos e não pode ser visto correndo alegremente pela rua??!

— Sim, filho, ela achou.

Não tenho o direito de mentir pra ele — e mais, algo dentro dele já sabia a resposta.

— Mas a gente só tava brincando de correr, eu até tava ganhando!

Nesse momento meu amigo nos encontra. Resmungando algumas coisas com os cabelos soltos, escondendo um pouco o rosto e olhos no chão.

Eu me sinto ferida de morte.

— Vamos ali no Paulista (bar na esquina de casa) tomar uma cerveja — proponho um escape — E vou comprar a maior porção de batatas fritas que ele tiver pra ti, Téo, pode ser?

— Ôba, mãe!

Seguimos os próximos metros num silêncio ensurdecedor. Na minha cabeça tudo girando. Não sei o que dizer, não sei que fazer. No bar, enquanto o Téo se diverte com sua espada de pirata na calçada, o preto me olha e diz:

— Bah que véia loka! Eu até tô acostumado, mas a criança não tem nada a ver... É foda... O pior é que se me altero e aparece a polícia eu tomo uma ruim...

Comentamos o assunto, mas uma frase ressoa na minha cabeça martelando e doendo:

Eu até tô acostumado.

De repente a realidade me dá um soco na cara, bem no meio da cara: nossos pretos são brutalizados pelo sistema racista dia a dia, sem trégua. E desde MUITO cedo. Meu filho aos 6 anos (SEIS) é um ladrão em potencial só porque decidiu correr na rua.

Se me altero e aparece a polícia eu tomo uma ruim.

Muito cedo um homem preto tem que se conformar com uma injustiça. Não pode reclamar, tem que se “acostumar” com essas violências para se manter VIVO. Como proteger meu filho dessas violências?

E mais: como educar o Teodoro pra reagir a essas brutalidades sem que ele se torne também uma pessoa bruta?

Como ensinar a reagir sem correr risco de morte? Como educar uma criança possibilitando uma infância sendo que o mundo ao redor já vê ele como um potencial marginal?

Educar uma criança negra num país racista... Meu maior desafio é cuidar e amar uma criança negra permitindo que ele seja “apenas” criança. Esse é meu desafio diário.

Esse episódio ficou recolhido em algum recanto da memória do Téo, ele lembra vagamente e agradeço a Oxalá por isso.

Mas, infelizmente, em seus “longos” 10 anos de vida, já passamos por outras ocasiões em que tivemos que segurar na mão um do outro e enfrentar o racismo.

É uma ferida ancestral, mas preciso segurar a dor que me atravessa e conversar sobre racismo com ele. Juntos buscamos reforçar nosso amor, entender nosso passado, reverenciar nossas raízes e nos fortalecer. Em comunidade sobreviveremos.

Como já disse Emicida, “tudo, tudo, tudo que nós tem é nós”.

Sherol dos Santos é dona do 6º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela é mãe do Teodoro e Atinúké. Professora e mestre em História. Passista na Ala de Cabrochas na Imperadores do Samba e Academia de Samba Praiana, em Porto Alegre (RS).