LGBT
28/04/2019 00:00 -03

O que uma educação sexual e inclusiva ensinaria sobre o que é ser LGBT

Prestamos um desserviço a todos quando deixamos crianças LGBT de fora da educação sexual na escola.

Illustration by Isabella Carapella for HuffPost
As discussões de educação sexual sobre saúde sexual e sexo seguro precisam ser adaptadas para levar em conta os teens gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Quando pais e educadores falam sobre a necessidade de ter não só educação sexual nas escolas, mas fazê-la de uma forma mais inclusiva, não estão pedindo muito: querem planos de aula que tratem dafluidez de gênero, de anatomia sexual ― que não deixem de fora os adolescentes intersexo ― e que tratem de menstruação em termos reais, visando a desfazer estigmas, e que estas aulas sejam dadas não apenas às meninas, mas também aos meninos.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pela organização sem fins lucrativos GLSEN revelou que menos de 1 em cada 10 estudantes LGBTQ+ disse ter tido aulas de educação sexual que incluíam sua identidade sexual.

E há mais: nos Estados Unidos, graças às chamadas leis “no promo homo”, ou à “não promoção da homossexualidade”, vários estados proíbem aulas de educação sexual que possam supostamente “promover” a homossexualidade. Vale destacar que entidades em vários estados estão lutando na Justiça para mudar essa situação.

Como o assunto é debatido no Brasil

Atualmente, no Brasil, não existe uma legislação que determine como, quando e em que contexto cada escola deve tratar a questão da educação sexual, mas existem normas e orientações do Ministério da Educação em que a sexualidade é vista como um tema que deve ser abordado de forma transversal na formação escolar. Mas essas regras não são aplicadas na prática.

No ano passado, o MEC homologou a BNCC (Base Nacional Curricular Comum) da educação infantil e do ensino fundamental, que deve ser implementada nas escolas até 2020. No texto, a educação sexual aparece somente no oitavo ano, na disciplina de ciências, sob o aspecto da reprodução humana e da prevenção de DSTs e gravidez na adolescência.

Segundo o MEC, o documento traz o que cada criança deve aprender em cada etapa de ensino, mas não veta nada que queira ser aplicado adicionalmente. A elaboração do currículo é de autonomia das redes.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada recentemente, 54% dos brasileiros concordam que educação sexual deve ser debatida em sala de aula, enquanto 44% discordam e 1% não opinou sobre o tema.

O resultado vai na contramão do que movimentos como “Escola sem Partido” defendem ― de que a educação sexual na escola promove uma erotização precoce das crianças ―, já que a maioria dos brasileiros apoia que o tema seja debatidos nas escolas do País.

A realidade é que uma educação sexual que abranja a comunidade LGBTQ+ beneficia todos os alunos, não apenas aqueles que se identificam como parte dessa comunidade, e pode ser um elemento crucial para a melhoria dos resultados de saúde da população em geral. A seguir, educadores sexuais e ativistas norte-americanos compartilham o que estudantes aprenderiam nas aulas de educação sexual em toda a América se o currículo fosse diferente.

1. O desenvolvimento da identidade de gênero das crianças começa quando elas são pequenas (por isso também deveríamos começar a falar mais cedo sobre transgêneros e questões de identidade).

Por que começar a discutir questões de sexo e identidade de gênero quando nossos filhos chegam na adolescência? O desenvolvimento da identidade de gênero começa por volta dos 3 anos de idade, segundo a educadora sexual Aida Manduley, de Boston. Ignorar uma questão tão complexa quanto o gênero deixará as crianças na ignorância e potencialmente muito confusas.

“Mesmo com crianças menores, uma educação sexual inclusiva deve abranger informações sobre identidade e expressão de gênero, além de discussões sobre como pode ser a transição, em termos sociais e médicos”, disse ao HuffPost US. “Por exemplo, os currículos de saúde sexual muitas vezes citam os hormônios, mas raramente falam de como eles podem ser administrados se você é criança e se identifica como transgênero.”

Munidas dessas informações precoces sobre a fluidez de gênero, as crianças terão mais facilidade de serem fiéis a si mesmas quando crescerem. A informação tem até o potencial de salvar algumas vidas, disse Manduley.

“Em vista do índice mais alto de suicídio de adolescente transgêneros, especialmente dos que sofrem bullying, esse tipo de informação pode reforçar estratégias comprovadas de prevenção de suicídio.”

2. A menstruação é natural e afeta a vida de todos nós, não apenas de quem se identifica como menina.

Emilija Manevska via Getty Images
Para educadores sexuais, os meninos precisam ser incluídos na discussão sobre a menstruação.

Para Galia Godel, educadora sexual de Filadélfia, está mais do que na hora de acabarmos com essa prática de falar sobre menstruação apenas com meninas.

“É uma questão de inclusão”, explicou. “Alunos transgêneros ou não-binários não serão forçados a optar entre sair do armário, ficar em uma sala com pessoas de outro gênero ou deixar de ouvir uma aula sobre seu corpo.”

Sendo assim, ensinando a todos os alunos sobre o ciclo menstrual ao mesmo tempo, isso vai tirar o estigma que cerca a menstruação, uma parte natural da vida de quem possui útero.

“Podemos derrubar a vergonha que está no entorno deste tabu (...). Chega de piadinhas de homens que se negam a comprar absorventes para suas namoradas. Chega de parlamentares que não entendem do assunto.” 

3. Os adolescentes LGBTQ+ podem correr risco maior que seus pares de engravidar ou contrair DSTs.

Uma verdade que não é nada divertida: o índice de DSTs nos Estados Unidos é o mais alto do mundo industrializado. O problema se deve em parte ao currículo de educação sexual atual, que não explora mitos e verdades sobre como doenças são sexualmente transmitidas.

Precisamos nos conscientizar de como a comunidade LGBT é vulnerável: os jovens enfrentam riscos que são intensificados por sua saúde sexual, incluindo índices mais altos de DSTs e risco aumentado de gravidez precoce.

Uma discussão realista sobre doenças sexualmente transmissíveis destacaria a importância dos contraceptivos, enfatizaria que qualquer pessoa pode contrair HIV/aids e que, contrariamente à ideia popular, mas equivocada, lésbicas podem contrair DSTs como todo mundo.

Para a educadora sexual Wazina Zondon, de Londres, “uma educação sexual realmente inclusiva deve discutir as DSTs como algo absolutamente normal e corriqueiro. Deve incluir a discussão da vaginose bacteriana, do papilomavírus humano (HPV), da candidíase, que não afeta apenas pessoas que tenham vulva, e deve cobrir medicamentos preventivos como a profilaxia pré-exposição (PrEP)”.

“Não podemos deixar pessoas LGBT fora da equação da prevenção”, pontuou.

4. O sexo é muito mais do que apenas o sexo heterossexual básico de pênis na vagina.

Carol Yepes via Getty Images
Sexo é muito mais expansivo do que penetração entre pênis e vagina.

O sexo é como um cardápio de uma doçaria: inclui opções infinitas, algumas das quais você pode ter interesse em experimentar, outras que não o atraem e ainda outras que você talvez queira experimentar no futuro.

Para Godel, descrever o sexo como uma atividade única – a relação sexual tradicional entre pênis e vagina entre 2 adultos heterossexuais que consentem o ato – já deixou de ser aceitável ou convincente.

É crucial informar que existem inúmeras maneiras de fazer sexo e que nenhuma delas “pertence” exclusivamente a uma sexualidade em particular.

“Sexo oral, sexo anal, estimulação com os dedos – todas essas são maneiras válidas de sentir prazer e intimidade com um parceiro. Até a masturbação mútua pode contar como sexo, se você quiser”, disse Godel.

Falar de todas as opções – o cardápio sexual completo, por assim dizer – é uma boa maneira de mostrar aos jovens que não é preciso partir para a relação sexual completa se eles ainda não estão preparados para isso.

“Quando ensinamos os muitos modos de interação prazerosa entre nossos corpos, isso permite a cada pessoa decidir se ela fica à vontade com isso ou aquilo, sem se sentir restrita ou obrigada a ter relações sexuais.”

5. Nossa sexualidade é fluida ao longo a vida. Não é preciso se prender demais aos rótulos.

Drew Angerer via Getty Images
Os jovens precisam saber que não são obrigados a escolher uma identidade específica de gênero e continuar com ela para sempre.

Uma educação sexual completa pegaria a escala de Kinsey e a projetaria para o século 21. Sim, nossa orientação sexual existe em um espectro. Mas, além disso, é uma coisa fluida ao longo da vida. Vivemos na era da política de identidade. Por isso mesmo, é fácil ficarmos fixados nos rótulos que nos atribuímos: cisgênero ou hétero, genderqueer e não binário, androssexual etc.

Mas muitos de nós continuamos a explorar e possivelmente mudar aspectos de nossa sexualidade ao longo da vida, disse o educador sexual Francisco Ramirez, co-fundador do aplicativo de celular Okay So, que coloca jovens em contato com uma comunidade de especialistas sexuais.

“Somos humanos. Nós nos transformamos. Evoluímos. Isso faz parte de nossa natureza. Nunca devemos nos sentir pressionados a assumir um rótulo se não sentirmos que ele nos retrata corretamente”, disse Ramirez. “Precisamos ensinar adolescentes a levar o tempo que precisarem ou quiserem para sentir o que estão sentindo agora e explorarem em segurança o que querem.”

Segundo o especialista, precisamos lembrá-los que os jovens não precisam de uma “prova” concreta de sua identidade sexual ou de gênero.

“Se você sabe que é assexual ou genderqueer, por exemplo, não precisa ter feito nada com ninguém para ter certeza disso”, disse Ramirez.

6. É crucial falar aberta e honestamente sobre as partes do corpo e o que é considerado “normal”.

Vamos encarar a realidade: somos dolorosamente ignorantes do que acontece “lá embaixo”. Não fosse assim, não veríamos inúmeros artigos sobre o clítoris e como localizá-lo. Na realidade, segundo Manduley, uma das perguntas mais frequentemente feitas aos educadores sexuais é sobre anatomia sexual: “Sou normal?”, perguntam as pessoas.

Fica claro que todos os seres humanos poderiam ser beneficiados com algumas aulas sobre diferenças de desenvolvimento sexual e anatômico (incluindo informações sobre intersexo).

“Partindo disso aprenderíamos sobre a anatomia do prazer e teríamos um quadro mais completo da capacidade erógena do corpo, que inclui os mamilos e o ânus”, disse Manduley.

“O modo como a anatomia é ensinada hoje tende a enfocar a reprodução e às vezes a saúde”. Mesmo que não incluirmos o prazer na discussão, algo como a saúde anal, por exemplo, “é uma parte crítica da saúde sexual, mas costuma ficar de fora dos currículos e discussões sobre o assunto”, disse.

Uma versão resumida deste artigo diria o seguinte: conhecimento é poder para adolescentes, especialmente o conhecimento sobre saúde sexual e prazer.

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