OPINIÃO
09/09/2020 15:00 -03 | Atualizado 09/09/2020 15:00 -03

Os desafios da educação em um cenário de pandemia

Acesso limitado a tecnologia, déficit de aprendizagem e evasão escolar são alguns dos problemas acentuados pelo isolamento social imposto pelo coronavírus.

Pilar Olivares / Reuters
Professora de escola pública do Rio de Janeiro cria "kit abraço" para cumprimentar aluno em comunidade em Padre Miguel durante pandemia.

Certamente podemos dizer que 2020 é um ano desafiador. Nunca pensamos tanto em estratégias e soluções para dar continuidade à nossa rotina em meio aos desafios impostos pela pandemia do coronavírus. No entanto, no Brasil, vivemos essa situação de maneira diferente em cada região, o que somente reforça uma verdade que já sabíamos, mas que nunca se fez tão presente: somos uma nação profundamente desigual. 

Enquanto o mundo se volta à espera de uma vacina — no momento a única esperança que nos restou —, temos que entender que a solução para erradicar o vírus vai muito mais além, já que ele afetou várias esferas da nossa sociedade, como a econômica, social, política e educacional. Por anos, ainda veremos os efeitos colaterais dessa crise presentes nesses setores e, querendo ou não, os desafios só estão começando.

Nunca a desigualdade educacional, tema sensível no País, ficou tão evidente como agora. Enquanto muitas escolas particulares permanecem com o conteúdo de aulas por meio de plataformas online, os alunos da maioria das instituições públicas encontram-se sem qualquer condição de manter o ano letivo.

As dificuldades são imensas, desde a falta de tecnologias que suportem o ensino à distância, o acesso a equipamentos, como computadores, além do baixo preparo e condições para que educadores possam transpor o ensino de sala de aula para a realidade digital.

Somos um dos país muito conectado: segundo dados do Relatório de Transformação Digital produzido pelo BrazilLAB, brasileiros de 16 a 64 anos passam, em média, 9 horas navegando na internet. Ainda assim, a desigualdade se faz presente: um levantamento do Unicef aponta que pelo menos 4,8 milhões de crianças e adolescentes em todo o Brasil não têm acesso à internet em casa, enquanto outros milhões têm acesso precário ou com falta de equipamento. Uma triste realidade que nos distancia ainda mais de uma educação por meio da tecnologia.

Se antes para fazer uma pergunta ao professor precisava apenas levantar a mão, agora é preciso abrir um computador ou smartphone, ativar a câmera e o microfone. Uma série de recursos que são essenciais para uma situação emergencial, mas que não está à disposição de todos.

A soma de um cenário pandêmico mais o distanciamento social e a falta de ferramentas tecnológicas resultou em 81,9% dos alunos da educação básica que deixaram de frequentar as instituições de ensino no País. São cerca de 39 milhões de pessoas.

No mundo, esse total soma 64,5% dos estudantes, o que, em números absolutos, representa mais de 1,2 bilhão de pessoas, segundo dados da Unesco. Além disso, o percentual de alunos desmotivados, de acordo com a percepção de pais ou responsáveis, passou de 46% em maio para 51% em julho, de acordo com o Datafolha.

Os números são assustadores e nos mostram o tamanho da missão que ainda teremos daqui para frente. Nossos desafios educacionais, que já eram gigantescos, caso não façamos nada, tendem a se tornar ainda mais graves. 

Reuters Photographer / reuters
Professor de inglês de escola particular de Porto Alegre ministra aula com auxílio de diversos recursos tecnológicos durante pandemia.

Volta às aulas

Como se não bastasse o distanciamento social imposto para frear o avanço do vírus, agora a volta às aulas começa a trazer inúmeros questionamentos e dividir opiniões de pais, professores e especialistas. Afinal, sabemos que crianças não cumprem à risca as regras de proteção e terão dificuldade em permanecer com máscaras, por exemplo.

Além disso, mesmo com as inovações tecnológicas e as plataformas que proporcionam ensino à distância, o ambiente escolar é de total importância para o desenvolvimento das crianças e adolescentes. No entanto, a volta às aulas em meio a pandemia ainda é preocupante.

E não há evidências científicas que atestem a segurança de uma volta às aulas. Um estudo de sorologia realizado pela Prefeitura de São Paulo, por exemplo, mostrou que 7 em cada 10 crianças não apresentam sintomas da covid-19, ou seja, sendo assintomáticas, podem manter o vírus em circulação e levar para os familiares e até mesmo para os professores.

Pelo mundo, a reabertura das escolas tem sido difícil. Na Coreia do Sul, um dos países que tiveram sucesso no combate ao coronavírus, após a reabertura, mais de 200 escolas tiveram de ser fechadas novamente depois que novos focos da covid-19 foram registrados em Seul. Atualmente, o governo tem realizado inspeções nas escolas e testado os alunos.

Os horários de almoço e recreios são separados por escalas entre as diferentes séries e somente os alunos do ensino médio foram autorizados a frequentar as aulas todos os dias. Para os demais estudantes, a ida ao colégio acontece uma ou duas vezes por semana.

Na Itália, ainda há um estudo de medidas para que aulas retornem de maneira segura. A ideia é que as escolas reabram em setembro. Já na Georgia, nos EUA, mais de 800 alunos e funcionários tiveram de ser colocados em quarentena apenas uma semana após a reabertura das instituições de ensino. As experiências internacionais mostram, portanto, que não há ainda uma estratégia totalmente segura que possibilite o retorno de crianças e adolescentes às salas de aula. 

Mesmo com uma série de medidas de proteção sanitária, como distanciamento social, uso de máscara e barreiras de proteção, não foi possível conter o avanço do vírus e poupar a saúde de meninos e meninas. No Brasil, onde as salas de aulas são compostas por 40 alunos, com o retorno podemos ter uma segunda onda de contaminação, já que ainda estamos em uma curva alta de números de infectados. 

Eric Gaillard / reuters
Crianças e pré-adolescentes de Nice, na França, voltam às aulas neste início de setembro usando máscaras e adotando medidas de distanciamento social.

A escola não será como antes

Estamos acompanhando as experiências de outras nações nesse enfrentamento e sabemos que ainda há um longo caminho pela frente até vencermos essa batalha. Mas uma coisa já é certa: as salas de aula não serão mais as mesmas quando tudo isso passar. Não será possível tratar esse momento de isolamento como um período de férias e voltar de onde paramos. Será preciso ter estratégias para rever o conteúdo perdido, acompanhar de perto as crianças e adolescentes que ficaram longe dos estudos e podem ter problemas com a aprendizagem. 

Repensar o calendário escolar, a carga horária e mesclar aulas presenciais com aulas online serão medidas que devem ser consideradas pelas instituições de ensino. E os governos, sobretudo, terão um papel fundamental na liderança desse esforço para reduzir o déficit de aprendizado gerado pelos longos meses distantes da escola.

Será preciso uma atenção ainda mais especial aos grupos mais vulneráveis que, sobretudo pela falta de recursos tecnológicos, não puderam seguir sua rotina de estudos e aprendizado.  

A evasão escolar será outro desafio que o poder público terá que combater, já que era um problema existente antes mesmo da crise, mas que vem se agravando e pode chegar a uma situação ainda mais séria.

Por fim, o retorno escolar precisa ser realizado de maneira segura tanto para os alunos quanto para os educadores. Por isso, cabe ao poder público trazer um planejamento sanitário adequado, acompanhar o estado de saúde das crianças e adolescentes, disponibilizar itens básicos de higiene, como álcool em gel, sabão e máscaras, para que as redes de ensino consigam implementar políticas à altura dos desafios que terão.

Sem dúvida, manter os equipamentos de ensino em funcionamento será uma grande missão, mas as respostas que dermos agora podem trazer impactos positivos para a educação no futuro. Afinal, queremos sair dessa melhor do que entramos. É preciso agir com base em evidências e com muita cautela para que isso seja possível. 

*Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.