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21/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 21/08/2019 02:49 -03

Eleições presidenciais nos EUA são entrave para indicação de Eduardo para embaixada

Sem Trump reeleito, Bolsonaro perde principal argumento para indicação do filho, que é a proximidade com a família do presidente norte-americano.

Adriano Machado / Reuters
Aliado de Eduardo Bolsonaro defende que o parlamentar, como embaixador, "teria, de fato, um acesso a políticos republicanos de nenhum outro indicado conseguiria".

Ao falar sobre a indicação de Eduardo para a embaixada nos Estados Unidos, uma das primeiras justificativas nas quais o pai, o presidente Jair Bolsonaro, apoia-se é na relação nutrida pelo filho com a família do mandatário norte-americano, Donald Trump. Mas sem o republicano no poder, há a avaliação de  que se tornaria inviável a permanência de Eduardo no cargo. Segundo interlocutores do deputado federal ouvidos pelo HuffPost, ele perderia completamente a influência conquistada pela proximidade pessoal com os Trump. 

“Na atual conjuntura dos Estados Unidos, ele teria, de fato, um acesso a políticos republicanos que nenhum outro indicado conseguiria. O que pode ajudar em alguns momentos, como votações, reuniões, coisas menos grandiosas que acordos comerciais”, disse ao HuffPost um nome próximo a Eduardo, que conhece a realidade da política externa. 

De fato, o filho, ao qual Bolsonaro chama de 03, é próximo de dois dos herdeiros do presidente dos EUA - nenhum deles trabalha na Casa Branca - e já foi elogiado pelo próprio Trump. “Conheço o filho dele [Jair Bolsonaro], e eu considero que o filho dele é extraordinário, um jovem brilhante, incrível. Estou muito feliz pela indicação [para a embaixada em Washington]”, afirmou Trump em julho. Para ele, a escolha do pai pelo filho não é considerada ser nepotismo. 

E se Donald Trump, que sustenta a argumentação de Bolsonaro para a indicação, e cujo mandato termina no ano que vem, não se reeleger? Como fica a situação do provável recém-chegado a Washington, que é declaradamente defensor do republicano, em um governo democrata? E para o Brasil, há consequências de um embaixador brasileiro sem influência na gestão norte-americana? 

O HuffPost conversou com pessoas próximas ao Palácio do Planalto, a Eduardo Bolsonaro, com interlocutores próximos à Casa Branca em Washington, e também com quem é contrário à indicação, numa tentativa de avaliar o cenário com Eduardo embaixador em um pós-2020 sem Donald Trump no comando dos Estados Unidos. 

A reportagem encontrou duas posições unânimes: os confetes de agora podem se transformar em cascas de bananas para o Brasil. E em um cenário de vitória do partido Democrata e derrocada da Donald Trump, provavelmente o País precisará mandar outro eleito para Washington. 

“Cabe ao embaixador conseguir informações privilegiadas junto ao governo do outro país. Com um governo democrata, Eduardo perde força e motivo de existir”, destacou uma das fontes consultadas pela reportagem. 

Um ex-funcionário do governo dos EUA especializado em assuntos da América Latina concorda com o raciocínio. Ele acrescenta que uma vitória da oposição a Trump reduziria qualquer influência que Eduardo Bolsonaro já tenha ou venha a construir se confirmado embaixador. “Se houver uma mudança na eleição [norteamericana], ele [Eduardo] estará sem sorte, embora provavelmente irá embora de qualquer maneira”, disse ao HuffPost. 

Além da relação política, há ainda um fator de personalidade do filho de Bolsonaro. Um aliado do deputado disse ao HuffPost que o próprio não iria desejar permanecer no cargo em uma circunstância dessa. 

Há de se considerar, porém, que o deputado federal mais votado do País em 2018, com 1,8 milhões de votos batendo um recorde nacional, não retoma o mandato na Câmara. Também não poderá concorrer a nenhum cargo eletivo até 2024 caso, de fato, decida renunciar de sua vaga no Congresso para assumir a embaixada, se receber aval do Senado.

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Eduardo é próximo de dois dos herdeiros do presidente dos EUA - nenhum deles trabalha na Casa Branca.

Oportunidade de negócios? 

Formalmente, Bolsonaro argumenta que a indicação de Eduardo para a embaixada tem capacidade de atrair mais investimentos para o Brasil.  

“Estou procurando o ‘primeiro mundo’ para explorar essas áreas em parceria e agregando valor. Por isso a minha aproximação com os Estados Unidos. Por isso, eu quero uma pessoa de confiança minha na embaixada dos EUA”, disse referindo-se à exploração de minérios em regiões indígenas, citando as reservas Ianomami e Raposa Serra do Sol.  

Na avaliação de uma fonte norte-americana que já trabalhou na Casa Branca, a estratégia de Bolsonaro faz sentido. “Francamente, meu palpite é que [Eduardo se tornar embaixador] aumentaria o acesso do Brasil, já que o governo [de Donald Trump] sugeriu que eles estão muito favoravelmente dispostos a ele [Eduardo Bolsonaro].”

Já no Brasil, a percepção não é nesse sentido, mesmo entre pessoas mais próximas do núcleo bolsonarista. É consenso que as relações facilitadas podem auxiliar em muita coisa, mas não a ponto de “estabelecer acordos comerciais”. 

“Um embaixador com o trânsito que o Eduardo terá é muito importante na medida em que pode passar a mão no telefone caso o Congresso norte-americano esteja votando, por exemplo, a taxação extra para algodão brasileiro, e falar com dois ou três senadores. Isso ninguém que fosse hoje para a embaixada teria”, afirmou um nome com conhecimento em relações internacionais, que tem acompanhado os movimentos de Eduardo Bolsonaro.  

A oposição trata a chamada “atração de empresas estrangeiras, abertura de mercado” e demais facilidades que Jair Bolsonaro afirma como garantidas na ida do filho para Washington como “subserviência”. “Não é possível um alinhamento automático. Isso significa subserviência e nem sempre estará de acordo com os interesses do Brasil”. 

Kevin Lamarque / Reuters
Trump sobre Eduardo: "Um jovem brilhante, incrível". 

Crivo do Senado

Eduardo, no entanto, ainda tem um longo caminho a percorrer. Sua indicação sequer foi formalizada. Na terça (20), uma declaração do pai foi encarada como um recuo pelos senadores, aos quais cabe a palavra final sobre quem será embaixador. Mesmo entre aliados, a análise é de que, ao dizer que não quer submeter o “filho ao fracasso”, Bolsonaro deu indícios de que, apesar de estar jogando todas as cartas de que dispõe - o que inclui oferta de cargos em órgãos cujos orçamentos, juntos, somam cerca de R$ 2,5 bi -, acha que a batalha está muito difícil e já aceita a derrota. 

A família, porém, não admite ter voltado atrás e segue no jogo pela aprovação de Eduardo. Nesta terça mesmo, horas após a fala do pai, Eduardo foi visto pelos corredores do Senado, por onde tem andado há algumas semanas, em busca de votos. O HuffPost também apurou que, em conversas no fim de semana, houve ofertas de mais cargos a mais senadores. Até o momento, confirmados, o Palácio do Planalto já conseguiu garantir seis votos em partidos em que considerava improvável. Apesar disso, nos bastidores, a equipe bolsonarista contabiliza cerca de 30 votos contrários ao filho do presidente no plenário. É preciso mínimo de 41 votos favoráveis dos 81 senadores.

Caso tudo siga o script desejado pelos Bolsonaro: Jair encaminha a mensagem presidencial, Eduardo é submetido à sabatina na Comissão de Relações Exteriores, e a maioria dos senadores presentes no momento da votação dá aval ao nome do deputado federal, ele se torna embaixador e segue para os EUA nas semanas seguintes. 

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Bolsonaro vai aos Estados Unidos em setembro pela terceira vez este ano. 

Comemoração

Pelo sim, pelo não, é cada vez mais clara a afinidade do presidente brasileiro pelos estadounidenses. Ele irá ao país pela terceira vez este ano em setembro. Dessa vez, para participar da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Vai aproveitar o compromisso institucional para turbinar a agenda política e já pensa em “dar uma passadinha em Washington para prestigiar o filho”, afirmou uma fonte palaciana. 

Embora sem confirmação, já se fala em um “evento” - o que não é comum - para celebrar a chegada de Eduardo à embaixada brasileira nos EUA. Afinal, não é do feitio nem de Jair Bolsonaro, nem de Donald Trump, seguir protocolos.