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24/09/2019 05:00 -03

Na ONU, Eduardo tentará emplacar Trump em evento conservador no Brasil

Principal objetivo do 03 é articular a presença do presidente americano em conferência da direita, em outubro.

The Washington Post via Getty Images
Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo deixam Casa Branca após conversa com Donald Trump no fim de agosto.

Menos de um mês após retornar dos Estados Unidos, quando foi tratar das queimadas na Amazônia e das polêmicas que rodearam o caso ao longo de agosto, Eduardo Bolsonaro está novamente no país, desta vez, oficialmente, para acompanhar o pai, Jair, na ONU. A intenção principal do filho 03 do presidente, porém, é articular para o evento que comandará em outubro, em São Paulo — o CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora) — uma presença especial: o presidente norteamericano, Donald Trump. 

Para tentar garantir que o Trump prestigie o CPAC Brasil, Eduardo Bolsonaro quer apelar a todos os contatos que têm nos EUA: dos senadores republicanos aos quais foi apresentado em sua passagem por lá em novembro passado, ainda na transição, a contatos da extrema direita que acredita que podem lhe ser úteis no processo de convencimento do chefe da Casa Branca.

Duas questões podem interferir nos seus planos, contudo. A primeira é de agenda. Há, nos bastidores, uma costura para que Donald Trump faça uma visita oficial ao Brasil em dezembro, o que já inviabilizaria uma viagem anterior, em outubro. 

A outra, essa sim talvez determinante, é ideológica. Mesmo que tenha sido apresentado a senadores republicanos, e até elogiado por Donald Trump quando o pai anunciou a intenção de indicá-lo à embaixada do Brasil nos EUA, Eduardo aproximou-se de uma ala que não conta com simpatia desses núcleos: o escritor Olavo de Carvalho e o ex-estrategista político Steve Bannon.

Relação com Steve Bannon

Foi o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Filipe Martins, quem intermediou a relação entre Eduardo e Bannon. O pupilo olavista organizou o primeiro encontro dos dois em novembro de 2018. Na ocasião, o ex-estrategista de Trump fez questão de recepcionar o filho do recém-eleito presidente do Brasil e lhe oferecer dois jantares com investidores — um em Washington e outro em Nova York. 

Conforme pessoas que conhecem políticos republicanos e conversaram com o HuffPost, a adesão tão clara dos Bolsonaro ao discurso olavista e ao de Steve Bannon, que hoje voltou a atuar no mercado financeiro, não foi vista com bons olhos nos Estados Unidos.

Sem muito tempo nessa passagem pelos EUA — a terceira este ano que faz na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara — , Eduardo teve um encontro com o ex-estrategista de Trump na noite desta segunda-feira (24). 

Em seu Twitter, o filho de Jair Bolsonaro disse que o assunto foi Amazônia e o uso político dela para ataques a seu pai. Porém, informações de fontes ao HuffPost dão conta de que eles também trataram de atração de investimentos estrangeiros ao Brasil e, especialmente, da condução do deputado federal à Embaixada brasileira em Washington. Bannon é um dos grandes entusiastas no nome. 

Acontece que Bannon trabalhou com Trump até 2017, quando foi demitido da Casa Branca. Em 2018, deixou o site de direita ao qual havia se juntado em 2012, Breitbart, que dá espaço a teorias conspiratórias e atrai grupos ultranacionalistas, após tecer críticas ao mandatário estadunidense. 

“É importante que ele [Eduardo] tenha cuidado com essa relação e lembre sempre que o Trump não gosta [mais] do Bannon. Que a direita que o Olavo representa não é republicana”, avaliou ao HuffPost uma fonte com trânsito entre políticos dos Estados Unidos. 

Para alguns, essa relação com Bannon pode interferir no “bom trânsito” que Eduardo Bolsonaro acredita ter na Casa Branca, em especial após ter sido recebido pelo presidente Donald Trump em agosto, quando esteve no país acompanhado do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

“Vale sempre lembrar que, como chamam o Jair Bolsonaro de Trump Júnior, o temperamento do presidente dos Estados Unidos não é diferente do presidente brasileiro. Ou seja, qualquer rusga pessoal pode interferir na forma como a pessoa é tratada e vista dentro do governo”, completou uma fonte palaciana. 

Divulgação/Facebook
Em junho, Bolsonaros estiveram com Donald Trump em Osaka, no Japão, durante cúpula do G20.

Conservadores em São Paulo

Pela primeira vez no Brasil, o CPAC é conhecido nos EUA como o maior encontro de conservadores do planetaA programação por aqui tem confirmados nomes próximos ao líder americano, como Mercedes Schlapp. Ela atuou como diretora de comunicações estratégicas da Casa Branca entre setembro de 2017 e julho deste ano, a partir de quando começou a trabalhar na campanha de reeleição de Trump. 

Há também no cronograma o nome de Matthew Aaron “Matt” Schlapp, ativista político que preside a União Conservadora Americana, colaborador da Fox News, e marido de Mercedes.

Quem já acompanhou edições anteriores nos Estados Unidos e está de olho na preparação para daqui a duas semanas — o evento ocorrerá em 11 e 12 de outubro em São Paulo —, contudo, se diz espantado com o formato adotado e opina que foi “desvirtuado”. “É uma conferência mobilizadora dos movimentos conservadores, de todos as matizes, com bancas em uma grande área comum e conferências de políticos conservadores. Aqui virou um evento governista”, avaliou um experiente nome do cenário político.

Entre as figuras que reconhecidamente defendem o governo Bolsonaro, estão o ativista Bene Barbosa, da ONG Movimento Viva Brasil, Dom Bertrand, intitulado príncipe de Orléans e Bragança, que lidera o movimento pela restauração da monarquia no País.

Haverá ainda a participação da deputada estadual do PSL de Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo, que ficou famosa por incentivar denúncias contra professores “doutrinadores”. 

Bolsonaro na ONU

O presidente chegou a Nova York nesta segunda (23) para uma breve agenda que se encerra já na quarta (24). Como de praxe, o Brasil fará o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta manhã. 

É grande a expectativa sobre o que Jair Bolsonaro falará na frente dos outros 192 chefes de Estado membros da organização. Sabe-se que a soberania da Amazônia será o ponto central de sua fala, que deve conter ainda críticas à Venezuela e à Cuba.

Com 20 minutos disponíveis, o presidente não deve utilizar todo o tempo, seguindo a linha que tem adotado desde o início de seu mandato em ocasiões de grande porte, como a posse, quando falou por cerca de 10 minutos, ou no Fórum Econômico Mundial, em que se pronunciou por 6 dos 45 minutos reservados para ele.

Recém-operado para correção de hérnia abdominal, Bolsonaro encurtou sua passagem pelo país. Inicialmente, pretendia ficar de domingo (22) a quarta (25). 

Embora liberado pela equipe médica para a viagem, houve orientação para que a agenda fosse encurtada. O presidente cancelou três encontros bilaterais - Peru, Ucrânia e África do Sul - com países com os quais o Brasil tem interesses comerciais. O mandatário também fará refeições no hotel. Os compromissos da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também não constam na agenda presidencial. 

Donald Trump não confirmou uma reunião privada com Bolsonaro, como o brasileiro anunciou na sexta (20) que ocorreria. Nesta terça (24), após seu discurso na ONU, está previsto na agenda do presidente brasileiro um encontro com o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump. 

Além de Eduardo e Michelle, estão na comitiva presidencial o chanceler Ernesto Araújo, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS). Ainda o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins, o porta-voz, Otávio Rêgo Barros, e o chefe da Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto, Fabio Wajngarten.