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12/09/2019 15:35 -03

Eduardo Bolsonaro usa TV Brasil para se promover para embaixada nos EUA

Em entrevista "pedida pelo deputado" na estatal, filho do presidente aproveitou o espaço de 25 minutos para fazer propaganda do governo do pai, que chamou de "nosso".

Yuri Gripas / Reuters

“Acreditar no Brasil. Problemas nós temos até dentro de casa. Quem diria que não ocorreriam dentro de um governo. Mas ali, certamente, nós podemos errar, mas vai ser sempre pensando no melhor para nós. E eu acredito que a gente tenha acertado muito mais do que errado. Convido você a assistir não só a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), mas também se engajar nas nossas redes sociais, onde a gente coloca adiante algumas dessas pautas positivas que às vezes são esquecidas pela, digamos, grande imprensa nacional.”

Foi assim que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) encerrou sua participação no programa Impressões, da TV Brasil, que foi ao ar na terça-feira (10). Segundo fontes ouvidas pelo HuffPost, a participação do filho do presidente Jair Bolsonaro foi confirmada na programação em cima da hora e se tratou de um “pedido dele”. 

De acordo com um aliado, o 03, como o pai o chama, “decidiu que está na hora de falar sobre sua condução à embaixada do Brasil nos Estados Unidos”, mas só o fará a quem ele acredita que não vai “deturpar sua versão do fato”. 

Eduardo chegou à empresa na terça à tarde e aproveitou para conhecer a estatal ao lado do presidente do órgão, general Luiz Pereira Gomes. 

O tom de propaganda ocupou toda a entrevista, na qual não houve perguntas constrangedoras ou que colocassem o filho do presidente em situação delicada. Não se questionou, por exemplo, sobre as negociações implementadas pessoalmente por seu pai para viabilizar seu nome para a embaixada. 

Como mostrou o HuffPost, o presidente entrou pessoalmente na jogada e tem oferecido cargos em órgãos que, somados, têm orçamento superior a R$ 2,5 bilhões para este ano. 

A atitude de Eduardo Bolsonaro foi criticada pela oposição. O deputado Marcelo Calero (Cidadania-RJ) comparou o que chamou de “ousadia” com a época do governo petista.

Eduardo embaixador 

Ainda sem ter a indicação formalizada com a publicação no DOU (Diário Oficial da União) e o envio de uma mensagem presidencial ao Senado, Eduardo disse que sua sabatina na Comissão de Relações Exteriores da Casa, primeiro passo após a oficialização, deve ocorrer entre o fim de outubro e o início de novembro. 

Questionado sobre por quê é um bom nome para ocupar o posto mais cobiçado da diplomacia brasileira, respondeu: “Já conto com o apoio do presidente da maior potência econômica e militar do mundo, que, inclusive, nos recebeu sem a presença do nosso presidente. Esse é um nível de relação que eu pelo menos, com 35 anos, nunca vi acontecer no Brasil”.

Eduardo se referiu à sua visita aos Estados Unidos em agosto acompanhado do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, quando foi recebido pelo mandatário norteamericano, Donald Trump, na Casa Branca. A viagem serviu, oficialmente, para tratar das queimadas na região da Floresta Amazônica e das afirmações do presidente da França, Emmanuel Macron, que levou o assunto à reunião do G7. 

“O que ocorreu foi o Macron querendo tirar proveito de uma situação que é corriqueira, que são essas queimadas no período de seca. Problemas existem, têm que ser combatidos sim, contem conosco. Agora… Não pode elevar o tom e enganchar o seu discurso para servir de subsídio para a internacionalização da Amazônia. Isso aí não só o Brasil não vai aceitar, como os Estados Unidos também não vão aceitar. Isso o Trump nos disse na reunião”, disse o filho do presidente, reforçando o discurso usado por Jair Bolsonaro. 

Também questionado sobre o motivo da demora para oficializar sua indicação, ele afirmou que ainda quer percorrer alguns gabinetes e falar com mais senadores. ”Às vezes até algum senador que não esteja inclinado a votar a meu favor, mas fazer um gesto de humildade, ir lá, falar com ele”, completou. 

Frisou ainda que sua sabatina será pública: “Vai ser uma oportunidade incrível que eu vou ter para provar que não sou apenas o filho do presidente. Sou um advogado, policial federal, com experiência no exterior.”

E, por fim, ironizou um parecer da Consultoria do Senado, que considera sua indicação nepotismo. “Quando um deputado pede uma consultoria, pode pressionar para o técnico dar um parecer da maneira como o deputado ou o senador quer e acho que esse foi um desses casos excepcionais.” Após esse entendimento, a Advocacia da Casa formulou um outro documento na qual descarta a tese anterior e diz que a escolha de Bolsonaro por seu filho 03 não vai de encontro às normas legais.

Como está o placar

Pelos corredores do Senado, entre os parlamentares, há uma avaliação de que a situação tem “melhorado para ele nas últimas semanas”. “O governo não negocia a reforma da Previdência. Negocia embaixada para o Eduardo”, afirmou uma senadora ao HuffPost nesta quinta-feira (12). 

Contudo, para se tornar embaixador, Eduardo precisa do aval de maioria simples de senadores, ou seja, da maioria dos presentes no plenário no momento da votação. De acordo com levantamentos informais, 30 estariam dispostos irreversivelmente a votar contra o filho do presidente apesar de todo o esforço empreendido pelo governo e esses, claro, farão questão que comparecer à votação. 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), tem sido um aliado de última hora nessa empreitada, mas avalia-se que, com a necessidade de colocar 61 senadores no plenário para garantir uma vitória de Eduardo Bolsonaro nessa batalha, ainda é arriscado dizer que a embaixada nos EUA está garantida. 

Por outro lado, por se tratar de um escrutínio secreto, a família Bolsonaro, que vem negociando cargos, ao contrário do que defendia na campanha - o que classificava como “velha política - aposta nisso para virar o jogo a seu favor. É geralmente nesse tipo de votação que ocorrer as tão corriqueiras “traições”.