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14/10/2019 08:30 -03 | Atualizado 14/10/2019 12:31 -03

Eduardo Bolsonaro: Não dá para ser radical a ponto de andar só com quem converge 100% com você

Em entrevista ao HuffPost, deputado diz que pode preservar boa relação tanto com Donald Trump quanto com Steve Bannon, hoje adversários. E assegura sua indicação para a embaixada nos EUA para 'breve'.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Eduardo Bolsonaro foi o astro da Conferência de Ação Política Conservadora, em São Paulo.

Enquanto batalha para chegar à Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, o filho 03 do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, busca um equilíbrio entre os “mestres” e “mentores”, aliados e aqueles que agora são rivais de pessoas importantes. Mas afirma: não acha “frutífero” andar apenas “com as pessoas que só convergem 100% com você ou que só têm as mesmas amizades”. 

Em entrevista exclusiva ao HuffPost concedida neste fim de semana, o deputado pelo PSL de São Paulo falou um pouco sobre o que pensa de Steve Bannon, o ex-estrategista que o presidente dos EUA, Donald Trump, colocou para correr da Casa Branca após desentendimentos não apenas com o próprio mandatário, mas com sua filha Ivanka e o genro, Jared Kushner. 

“Você acaba se aproximando dos seus semelhantes. Com Steve Bannon não é diferente. Eu acredito que é uma pessoa muito influente e que eu... Por vezes, a gente troca umas ideias, e eu tenho a minha admiração.”

Essa relação dele com o ex-estrategista do presidente dos EUA, Donald Trump, é um entre os temas em alta em que Eduardo Bolsonaro está inserido no momento.

Para se cacifar ao posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos — a mensagem com sua indicação, aliás, ele garante que sai “em breve” —, o 03 usa a influência que tem na Casa Branca como trunfo. Acontece que Trump não só demitiu Bannon em 2017, como cortou relações com ele. O filho de Jair Bolsonaro disse que isso não é obstáculo. 

“Eu não vejo a minha aproximação, tanto com o [Donald] Trump, quanto com o [Steve] Bannon atrapalhar qualquer tipo de relação que eu tenha com um ou com o outro”, afirmou. 

E ainda brincou: “Eu aproximei o Filipe [Martins, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República] do [Steve] Bannon”, riu. E depois ainda sorrindo: “Nós nos aproximamos os três”. 

Após meses de insistência, o deputado que teve a maior votação do País no Legislativo, com os 1,8 milhões de votos conquistados de carona no sucesso de seu pai em 2018, topou falar com o HuffPost, mas brevemente, em pé, na porta do auditório do hotel Transamérica, na zona sul de São Paulo, onde ele era astro da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC). Para evitar filmagens ou gravações da entrevista - afinal, o filho do presidente é disputado para fotos, vídeos e selfies - assessores e seguranças serviram como escudo. 

Apressado, não respondeu a todas as perguntas. Após a quarta, inclusive, um de seus assessores alertou à reportagem que deveria finalizar: “Só mais duas”, avisou. Na última mesmo, as palavras foram ditas já voltando para o evento. Embora o HuffPost tenha tentado ir atrás para mais algumas perguntas - como falar sobre o caso Queiroz, envolvendo seu irmão Flávio Bolsonaro, ou a OCDE, que enfraqueceu indiretamente sua candidatura à Embaixada nos EUA, e até mesmo um pouco mais sobre sua relação com o presidente norteamericano Donald Trump -, foi impedido pelo mesmo assessor que já havia insistido para encerrar os questionamentos. 

Se você for radical ao ponto de só andar com as pessoas que só convergem 100% com você ou que só têm as mesmas amizades, acho que isso não é frutífero. Eu não vejo a minhas aproximação, tanto com o Trump, quanto com o Bannon atrapalhar qualquer tipo de relação que eu tenha com um ou com o outro.

Embora pela manhã daquele sábado Eduardo tenha afirmado a uma plateia efusiva que não tem como se sentir ofendido por dizerem que tem um mentor como aquele, referindo-se ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, quando ele finalizou sua fala na CPAC, horas mais tarde, o 03 deu a entender que se sente “desqualificado” com esse tipo de comparação. ”É que quando sai na imprensa, ainda mais a imprensa que vende sequência de críticas infundadas ao governo, essa questão do mentor ela é pejorativa, é querendo me desqualificar”. 

A resposta veio no contexto de outro integrante do governo também colocado rotineiramente como seu mentor: o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Filipe Martins

Na sexta (11), Eduardo ridicularizou o jornalista Guga Chacra ao mostrar no telão, enquanto falava na abertura da CPAC, a sequência de posts que trocou com ele quando o jornalista chama Martins de mentor do deputado. Falou, sob aplausos de uma plateia de direita: “Você acha que eu vou responder sério pra ele? Ele se sentiu… O que a gente faz? Meme. Você acha que eu vou responder para ele que eu me formei na federal do Rio de Janeiro, sou advogado, fiz concurso da Polícia Federal, morei na fronteira com a Bolívia, estou terminando a pós-graduação no Mises Institute, de economia?”. 

À reportagem, Eduardo também destacou feitos do governo de seu pai e disse que “o Brasil está saindo de um País socialista, que visava destruir a cultura judaico-cristã, e está indo agora para um País de fato cristão, que preserva de fato esses valores, que compõem a maioria dos brasileiros”.

Desde 1890, o Brasil é um Estado laico e, de acordo com a Constituição,“é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”. 

Leia aqui a íntegra da entrevista:

Foto: Comunicação CPAC
Deputado Eduardo Bolsonaro no palco da CPAC.

HuffPost: Chegamos a 10 meses de governo Bolsonaro. Que nota o senhor dá para o governo do seu pai até o momento? Que pontos o senhor destacaria? 

Eduardo Bolsonaro: A gente estancou a sangria da corrupção quando o presidente não permite mais que partidos políticos indiquem diretores e presidentes de estatais, os ministérios também foram indicações técnicas. Então, só aí, você já dá um ganho sensacional. Foram alguns milhares de cargos comissionados cortados, além disso, o governo reduziu em 22% o número de homicídios. Antes, no Brasil, estavam discutindo ideologia de gênero. Agora, estamos discutindo escolas cívico-militares, que dão disciplina, que é o que a molecada precisa para aprender e melhorar na escola. Não é discutir sexo e nem se a maconha é ou não legal [para] você fazer uso recreativo dela. Então a molecada quer e precisa de ordem e disciplina. Então é um novo Brasil que está sendo apresentado. E tem muito mais.

Na parte econômica tem o PPI, que é o pacote de privatizações. Tem a reforma da Previdência, que está prestes a ser aprovada no Senado. Já está sendo discutida a reforma tributária. Então o Brasil está saindo de um país socialista, que visava a destruir a cultura judaico-cristã, e está indo agora para um país de fato cristão, que preserva de fato os valores judaico-cristãos, que compõem a maioria dos brasileiros, e para um Estado bem menor, onde a gente possa exigir menos tributos dos cidadãos, e onde exista menor corrupção. 

Passando ao PSL, o senhor ontem chamou o vice-presidente do partido, Antonio de Rueda de pacificador. Mas o presidente da legenda, Luciano Bivar, que foi o pivô da crise com o presidente Jair Bolsonaro, estava na programação da CPAC e foi cortado. O senhor também mandou recados ontem, na coletiva com a imprensa, dizendo que o Brasil não tem um partido conservador. São sinais divergentes? Afinal, há uma crise? O partido está mesmo pacificado? 

Ele [Bivar] não foi cortado. Ele que não quis participar. O partido está tranquilo. Todo mundo ali dentro é Bolsonaro. Tem alguns que têm uma visão mais política, e alguns que têm uma visão um pouco mais ideológica. Na verdade isso tudo deveria ser tratado internamente. Como veio a público, então são apresentadas as feridas. Mas essas feridas também existem na esquerda. É que a esquerda é mais organizada e não permite que isso aí venha a conhecimento da sociedade, todas essas discussões e esses debates. Então é natural de uma democracia. A gente está se alinhando, está conversando. Inclusive a CPAC serve para isto: pra gente saber quem nós somos, a nossa identidade, o que queremos e como queremos alcançar esses objetivos. Eu vejo tudo bem tranquilo e eu acredito que o Rueda segue sendo um pacificador nessa história, que conversa com todos os deputados, tentando trazer uma solução pacífica.

E o presidente Jair Bolsonaro, ele fica no PSL? 

Olha, isso é uma pergunta que tem que ser feita para o presidente. Por mim, sim.  

Aqui estão todos os robôs, todos os WhatsApps, todos os caixas 2 e tudo o mais que a gente há de usar está: as pessoas. Pergunta quanto cada um aqui recebe. Não recebem nada. Fazem de coração. Então, na verdade, é um movimento espontâneo. Não é milícia virtual nem rede articulada.

Na sexta, o senhor ironizou o jornalista Guga Chacra, que falou sobre o assessor de assuntos internacionais da Presidência da República, Filipe Martins, e da influência dele sobre o senhor. Primeiro eu queria saber: o Filipe é um dos mentores do senhor? 

Filipe Martins é uma pessoa por quem eu tenho muita admiração, que sim, eu acompanho ele nas redes sociais, os artigos que ele escreve, é uma pessoa que eu tenho como muito inteligente, e certamente é um amigo que me ajuda sim nas questões internacionais, assim como é o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer isso. Sou humilde o suficiente para saber que eu não sei tudo e certamente tenho que aprender com os mestres.

Agora... Só abrir um parênteses. É que quando sai na imprensa, ainda mais a imprensa que vende sequência de críticas infundadas ao governo, essa questão do mentor, ela é pejorativa, é querendo me desqualificar. E na verdade eu sou uma pessoa que sempre está procurando uma qualificação, e até eu morrer, estarei com essa conduta. 

Agora eu queria falar sobre a reportagem da revista Crusoé que coloca o Filipe Martins no centro de um esquema virtual de mensagens que diz ser “exatamente como operava a militância virtual petista”. O que o senhor tem a dizer sobre a reportagem? 

Quando o jornal O Globo noticiou que Jair Bolsonaro queria levar o mar a Minas Gerais, alguém falou que era fake news? Quando a Veja deu o furo poucos dias atrás, dizendo que Bolsonaro estava fora do PSL, alguém falou que era fake news? Na verdade, o que existe é uma deliberada perseguição a qualquer um que não se alinhe a essa conduta desejada pela esquerda. Na verdade, não adianta eles ficarem com birra e querendo dizer que existe uma rede bolsonarista. Aqui [no CPAC] estão todos os robôs, todos os WhatsApps, todos os caixas 2 — e tudo o mais que a gente há de usar está aqui: as pessoas. Pergunta quanto cada um aqui recebe. Não recebem nada. Fazem de coração. Fazem porque são revoltados com ideologia de gênero. Fazem porque querem vestir seus filhos de rosa ou de azul como bem entenderem. Fazem porque são revoltados com as tentativas de nacionalização da Amazônia. Então, na verdade, é um movimento espontâneo. Eu não vejo como uma rede articulada e, mais uma vez, sempre taxam de algum apelidinho pejorativo. Nesse caso, milícia virtual. Não entenderam o que ocorreu em 2018. Não tem conexão com a população. Estão dobrando a aposta e vão cair do cavalo de novo. O Brasil vai ganhar essa guerra.

E o Steve Bannon? Foi o Filipe Martins que aproximou o senhor dele? 

Eu aproximei o Filipe do Bannon. 

Foi ao contrário então? O que se diz é que foi o Filipe que aproximou o senhor dele...

Nós três nos aproximamos juntos.  

E qual a influência e importância do Bannon para o senhor? 

O Bannon ganhou muita notoriedade na campanha de 2016 do Trump, ele participou na parte da publicidade e do marketing. Chegou a trabalhar um tempo dentro da Casa Branca. É uma pessoa que tem uma experiência invejável. Além de tudo, a gente tem uma visão muito similar de mundo, o que faz ocorrer uma convergência de ideias. Como a esquerda é organizada em nível mundial… O que eles gritam e fazem, por exemplo, aqui nas universidades brasileiras, são as mesmas condutas que têm nas universidades chilenas, americanas e europeias, acaba que nós somos uma reação natural a isso tudo. Você acaba se aproximando dos seus semelhantes. Com Steve Bannon não é diferente. Eu acredito que é uma pessoa muito influente e que eu... Por vezes, a gente troca umas ideias, e eu tenho a minha admiração. 

O senhor mencionou o Bannon na campanha do Donald Trump, mas ele foi demitido em 2017 e hoje o presidente o rejeita. O senhor não acha que isso pode, de alguma forma, afetar a boa relação que o senhor quer manter aberta com a Casa Branca e com o presidente norteamericano para caso venha a ser embaixador?

Eu não vejo dessa maneira. Se você for radical ao ponto de só andar com as pessoas que só convergem 100% com você ou que só têm as mesmas amizades, acho que isso não é frutífero. Eu não vejo a minha aproximação, tanto com o Trump, quanto com o Bannon, atrapalhar qualquer tipo de relação que eu tenha com um ou com o outro. Tranquilo. 

E quando chega a mensagem para a Embaixada no Senado? 

Em breve… Esperar passar a [reforma da] Previdência.