ENTRETENIMENTO
18/08/2019 03:00 -03

Edney Silvestre mistura ficção e realidade em thriller político no Rio de Janeiro de 1964

'O Último Dia da Inocência' conta a história de um jovem jornalista envolvido em um crime no dia de um emblemático comício do então presidente João Goulart.

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Um jornalista iniciante tão ambicioso quanto desesperado para ganhar fama e escapar da penúria em que vive em um dos momentos mais efervescentes (e instável) da história do Rio de Janeiro. Este é o protagonista do 5º romance de ficção do escritor, jornalista, dramaturgo e roteirista Edney Silvestre: O Último Dia da Inocência.

Ao aceitar a dica de um tarimbado fotógrafo, o jovem jornalista sem nome vai se enredando em uma trama onde nada é o que parece, ninguém é quem diz ser e crimes vêm sendo encobertos desde a ditadura de Getúlio Vargas. A trama se passa naquele fatídico 13 de março de 1964, uma sexta-feira 13, em que João Goulart, o Jango, vai fazer o comício que colocará seu recém-assumido cargo de Presidente da República em jogo.

“Toda profissão tem que começar em algum lugar. Aquele era uma merda, mas era tão bom quanto qualquer outro, se você não tem porta de entrada, nem quem o indique. Repórter de polícia é o degrau mais baixo na cadeia alimentar do jornalismo. Acima eu não tinha acesso. Abaixo não havia mais ninguém”, conta o narrador.

Enquanto todos os repórteres estão no centro do Rio para cobrir o discurso de Jango, o jovem órfão vindo do interior vai para o subúrbio, seguro de estar na trilha do grande furo jornalístico de sua vida. Sem imaginar a armadilha em que seria jogado.

Com uma narrativa vertiginosa e cheia de reviravoltas, O Último Dia da Inocência mistura ficção com personagens emblemáticos da história brasileira, como Juscelino Kubistchek, Tancredo Neves, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, o barão Stuckart, Jango e Maria Thereza Goulart, em uma trama policial cheia suspense e jogo político.

Entre festas de lançamento em diferentes cidades do Brasil, conversamos com Edney Silvestre sobre seu novo livro (editado pela Record), seu fascínio pela década de 1960, a perseguição que sofreu por conta de uma reportagem na época da ditadura militar, seus desafios como escritor, entre outros assuntos.

HuffPost: Por que o protagonista não tem nome? Ele é você?

Edney Silvestre: Não. Eu tentei dar um nome para ele. Eu tinha vontades contraditórias. Queria dar um nome a ele, mas achava que ele era muito ‘todo mundo’ para ter um nome. Poderia ser, sei lá, Bernardo, Aldo, Hugo, o nome que você quisesse. Conforme fui avançando, me dei conta de que ele não teria que ter nome. Pelo contrário. Ele fala na primeira pessoa como você falaria. Reage como você reagiria. Ele é nós. Você dá a ele o nome que você quiser.

Seus romances sempre têm um elemento histórico muito forte. Em O Último Dia da Inocência, por exemplo, há muitos personagens e situações reais. Imagino que você teve de pesquisar muito, mas o tempo que você usa com pesquisa chega a ser maior do que para escrever o livro em si?

Com certeza. Eu comecei a pesquisar especificamente este livros há uns quatro anos, mas eu descobri recentemente que muitas das informações usadas para escrever O Último Dia da Inocência vieram de uma pesquisa que eu fiz quando fui para a Suécia, para Vidas Provisórias [livro de 2013]. Aquela coisa dos jovens jornalistas. Entrevistei vários jornalistas exilados, deixei algumas coisas de fora e acabei usando em O Último Dia da Inocência. Como a coisa dos pneumáticos. Aquele tubos de ar comprimido em que você mandava textos, documentos, em cápsulas para pontos diferentes do prédio. Em uma dessas entrevistas para Vidas Provisórias, alguém me falou que isso existia na redação do jornal O Globo. Eu não peguei isso e achei fascinante. Só tinha visto no cinema. Achei um ótimo material que acabou entrando em O Último Dia da Inocência.

A década de 1960 está muito presente em seus livros. Por quê? 

Os 60 foram os meus anos de formação. Eu era o garoto virando adolescente, descobrindo o mundo, Anita Ekberg, primeira masturbação, aquelas coisas. Tem, sim, essa memória afetiva. A primeira vez que fui ao Rio, não lembro exatamente a minha idade, mas era muito criança, aquela imagem meio mágica do Rio permaneceu na minha cabeça. Aquela cidade extraordinária. E mesmo com todas as mazelas do Rio, ainda acho que é uma cidade extraordinária. A década de 1960 foi muito marcante para nós e para o mundo.

Eu quero passar para o leitor aquilo que eu senti escrevendo.

Algo muito marcante desse período foi o golpe militar. A ditadura tem um papel decisivo na sua trajetória, não é? Você chegou até a ser preso...

Fui preso sim, mas por engano.

Mas uma reportagem sua para O Cruzeiro não foi bem recebida pelos militares e você foi demitido, não é? Como foi isso? 

Sim. Peguei censura em redação. Essa história é estranha porque eu nem sei o que aconteceu direito. Fiz uma série de reportagens na Bahia e uma delas era sobre a falência de uma fábrica de charutos e cigarrilhas. Tinham umas revelações de interesses de companhias multinacionais, ao mesmo tempo, essa fábrica pertencia a uma família que teria feito empréstimos seguidos sem jamais cumprir, enfim… Eu não posso falar muito sobre isso por uma razão. Porque acho uma injustiça com as pessoas daquela época, que não estão mais vivas.

Mas, enfim, quando voltei, todas as outras reportagens que eu fiz lá na Bahia foram publicadas, menos aquela. Um dia fui chamado e me perguntaram de onde vieram as informações daquela matéria. Eu não tinha porque dizer de onde vinham minhas informações. Tinha tudo muito bem documentado. E, logo em seguida, fui demitido. Essa reportagem nunca foi publicada. Aí O Cruzeiro acabou e eu nem sei o que aconteceu com os arquivos da revista.

Depois dessa demissão, eu não conseguia mais trabalhar como jornalista. Fui fazer publicidade. Pretensioso que eu era, achei que eu sabia escrever e fazer cinema. Mas era difícil passar pela recepcionista. Até o dia que eu fui à DPZ e mostrei minhas reportagens. Quem conversou comigo, que também não está mais aqui, olhou minhas reportagens e disse: ‘Se foi você que escreveu, está muito bom, mas você não tem experiência nenhuma’. Eu estava tão puto, com problema de dinheiro, com aluguel atrasado, que explodi. Disse: ’Vocês são tão burros! Por isso são publicitários [risos]. Dois dias depois chegou na minha casa uma nota pedindo para eu voltar lá para fazer um teste. Fiz, passei e trabalhei oito anos com publicidade. Foi muito bom. Conheci pessoas extraordinárias, como o Francesc Petit, o Washington Olivetto, o José Zaragoza e o Roberto Duailibi.

Por que você escolheu o dia do comício do Jango como pano de fundo para o livro? Em Felicidade é Fácil [livro de 2011], você também foca em um comício, o das Diretas. Você considera esses dois momentos pontos de virada na história brasileira? 

Sim. Principalmente o do Jango. Foi um comício por um ideal. Em 13 de março [de 1964] havia esperança de transformação do País, de reforma agrária, de empregos. Mas deu no que deu. Já havia planos de assassinar o Jango. Havia um plano em Belo Horizonte para matar o Jango em 21 de abril. Ele não foi assassinado porque foi derrubado antes. Era um grupo que se chamava Novos Inconfidentes. Eles teriam um atirador de elite, pessoas que metralhariam o palanque e pessoas que jogariam granadas. Ele não escaparia.

Você vê semelhanças desse período pré ditadura militar com o que vivemos hoje?

Desculpe o clichê, mas a gente vem em uma polarização muito grande desde algum tempo. Não acho que isso tenha explodido agora, mas em 2013, com aqueles movimentos inexplicáveis que começam como um movimento democrático, com as pessoas nas ruas e, de repente, aparecem vândalos que quebram vidraças, vitrines e incendeiam ônibus.

A pergunta que a gente deve fazer é: ‘A quem interessava aquilo?’ As famílias pararam de ir às passeatas. Você colocava você e seus filhos em risco. Acho que ali começou essa divisão ‘eles contra nós’. Quem são eles e quem somos nós? É uma pergunta que o narrador do livro faz particularmente quando ele conhece o pai do Amarantes, que fala para ele: ’Você não está vendo o que eles estão querendo? Você não sente esse cheiro de golpe no ar?″ Mas ele não consegue entender nada. Ele é um alienado politicamente.

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Conversamos com o Manguinha [Carlos Manga Jr.] pouco antes da estreia da minissérie baseada no seu livro Se Eu Fechar os Olhos Agora e ele falou que muito de sua inspiração veio do diretor David Lynch... 

Mas tem uma outra inspiração que é muito mais forte, que é o [pintor] Edward Hopper. Tudo bem que tem muito de David Lynch mesmo, mas a minissérie tem um clima sombrio e misterioso que, a mim, me parece que é mais próximo do Hopper. Aquela coisa da cidade pequena, os olhares, os mistérios. E ele usou muito plano aberto, que é incomum em televisão.

Quais são as suas influências?

Thomas Mann, Joseph Conrad e Graciliano Ramos. A secura do texto dele sempre me fascinou. Menos, menos, menos… Ele te comove com menos. Eu edito muito. Eu quero passar para o leitor aquilo que eu senti escrevendo. Eu mesmo me emociono com as revelações do livro. Quanto menos eu der para o leitor, mais emociona.

Se O Último Dia da Inocência um dia virar um filme ou uma série, que diretor ou diretores, você gostaria em ver adaptando essa?

O Manguinha ou o Costa-Gavras [Constantin, diretor grego-francês que se notabilizou por seus filmes de forte carga política]. Tem tudo a ver, não é? Imagina ele mostrando aquele movimento nas ruas, os tanques… Costa-Gavras seria incrível. Se não fosse o Manguinha, claro. 

Você é bem cinéfilo, não?

Sim. Bastante.

Coincidência (ou não), recentemente foi celebrado os 120 anos de nascimento do Alfred Hitchcock, e um dos temas preferidos dele é o do inocente falsamente acusado por um crime que luta para provar sua inocência. Algo que acontece com o seu protagonista.

Eu fiz uma homenagem a ele no meu livro de contos, o Welcome to Copacabana, no conto O Universo Não Vale o Teu Amor. Ele conta a história de um professor que se muda para um apartamento bem pequeno no centro da cidade e se apaixona por uma figura que ele vê andando pela rua de tailleur cinza, cabelo preso e sapatos de salto alto e ele tem a impressão que já viu aquela mulher em alguma outra ocasião. Quando passando por um cabaré na Lap,m ele vê uma foto da Kim Novak [atriz que interpreta Madeleine/Judy em Um Corpo que Cai] e ele fica obcecado por ela. Mas é interessante o que você falou sobre O Último Dia da Inocência. Eu não tinha pensado nisso não. E o único que não é culpado de alguma coisa é ele [o protagonista].

Você não faz o que você quiser, você faz o que eles [os personagens] querem.

A trama de O Último Dia da Inocência se passa em apenas um dia. Isso deixa a coisa mais complicada para o escritor?

P...! E como. Mas é um desafio. Esse dia, por exemplo [13 de março de 1964], era feriado. Essa movimentação do personagem dentro do Rio de Janeiro só poderia ser possível em um feriado. E também porque todo mundo estava concentrado em um lugar específico. Ele [o protagonista] podia se deslocar por vários lugares na cidade rapidamente. 

Dos personagens reais retratados em O Último Dia da Inocência, você tem uma afeição especial por algum?

A Maria Thereza Fontella Goulart [esposa de Jango], com certeza.

Por quê?

Me surpreendi com ela. Ela era uma menina. Eu não tinha essa noção. Quando descobri que ela tinha 22 para 23 anos no meio daquele monte de raposas velhas da política… Ela era uma menina do interior criada em colégio de freiras que se casou com um homem 20 anos mais velho e caiu no meio do furacão. E era linda. Naquele palanque parecia uma Madonna vestida de azul. Vi as fotos coloridas depois. Em um dado momento ela tira a echarpe para enxugar a cabeça dele. Ela me comove muito. E como essa mulher sofreu! Coitada. Dos personagens baseados em pessoas reais é o que mais me tocou.

Como jornalista você não tem a mesma liberdade do que tem como escritor...

Liberdade nada. Você não faz o que você quiser, você faz o que eles [os personagens] querem. Me lembro que quis salvar o Ubiratan, o velho professor comunista de Se Eu Fechar os Olhos Agora. Eu adoro o Ubiratan e tentei salvá-lo, mas não consegui. Eu comecei a escrever e parei. Não conseguia mais continuar porque ele tinha que morrer. Como o Eduardo morreu também. Eu queria que os dois tivessem se reencontrado. Passaram a vida inteira separados e apareceu uma chance. Seria tão lindo aquele reencontro. Mas não era para acontecer. A vida não é assim.

Nesse caso eu reproduzi algo que eu vivi e nem percebi na época. Uma vez, quando morava nos Estados Unidos, liguei para um amigo de Porto Alegre, ele não atendeu e eu deixei um recado na secretária eletrônica. Disse que estava no Rio e queria vê-lo. Um tempinho depois toca o meu telefone e era um amigo dele na linha. Ele me contou o Paulo, o meu amigo, tinha morrido há seis meses. E eu desmaiei. Nunca tinha desmaiado na vida. Simplesmente apaguei. E só bem depois de escrever o Se Eu Fechar os Olhos Agora, percebi que tinha colocado aquela experiência no texto. 

Você não tem a história completa na cabeça antes de escrever o livro?

Ter tem, mas não adianta nada. No meu caso, eu sempre tenho, mas ela toma caminhos próprios. Muitos escritores, os americanos principalmente, fazem um esquema de escaleta. Um dia escreve o capítulo 18 quando tal coisa acontece, aí o capítulo 2… Eu escrevo em ordem e, por isso, as coisas vão se modificando. Você não escreve o que você quer, você escreve o que você pode.