OPINIÃO
21/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 21/08/2019 20:03 -03

Campanha pede que jovem jogador de futebol morto no RJ seja eternizado em nome de rua

Amigos e familiares de Dyogo Costa Xavier de Brito coletam assinaturas para que rua onde garoto foi baleado por tiro de fuzil receba o seu nome.

Divulgação/Facebook
Dyogo tinha o sonho de se tornar jogador profissional de futebol.

Baseada no “abate”, a política de segurança em curso no Rio de Janeiro fez seis vítimas em um intervalo de 80 horas. Entre os dias 9 e 14, uma jovem e cinco garotos moradores de áreas periféricas tiveram seus futuros interrompidos em meio ao fogo cruzado das constantes operações policiais nas comunidades cariocas e fluminenses. Um deles, Dyogo Costa Xavier de Brito, tornou-se símbolo de uma campanha online que coleta assinaturas para que a memória do jovem jogador de futebol seja eternizada no nome da rua onde ele foi baleado.

“Tê-lo presente em cada momento em que sairmos de casa, quando olharmos as nossas correspondências, quando fizermos algum cadastro e pedirem o nosso endereço, quando alguém procurar o nome dessa rua no Google ou GPS e, principalmente, quando for feita outra operação…”. É dessa forma que o idealizador da campanha, Eduardo Gonçalves da Silva, espera que Dyogo não seja esquecido. O garoto de 16 anos foi atingido por um tiro de fuzil nas costas, na segunda-feira (12), quando seguia para o treino de futebol no América.

Apelidado de “Dyogo Coutinho”, o garoto era o volante da categoria de base do América e tinha o sonho de se tornar jogador profissional. O jovem foi atingido na mesma rua onde morava, a Albino Pereira, na comunidade da Grota, em Niterói, a cerca de 600 metros de sua casa. Na região, o Batalhão de Choque da Polícia Militar havia feito uma operação.

“Era talentoso e determinado, vindo de uma família de atletas; já era de se esperar. Com suas chuteiras nas mãos, passava frequentemente para treinar, seja no campo da comunidade ou em outros lugares”, comenta Eduardo, que é amigo da família e viu Dyogo nascer.

A campanha online foi aberta por Eduardo na plataforma Change.org e recebeu 11 mil assinaturas desde quinta-feira (15). Para o corretor de imóveis e universitário, que é vizinho da família de Dyogo, as pessoas se sensibilizaram pela causa devido à forma trágica com que a vida do adolescente foi tirada e também por se tratar de um garoto ainda muito jovem e cheio de sonhos. “Acredito que muitas pessoas se colocaram no lugar daquele avô que, com a camisa ensanguentada, não tinha mais chão depois de perder seu neto”, lamenta Eduardo.

“Dyogo nem teve a chance de lutar por sua vida, não ficou internado em um hospital”, diz. O jovem jogador de futebol foi encontrado baleado e caído na rua por seu avô, que é motorista de ônibus e passava pelo local onde Dyogo fora atingido. Na mochila, o rapaz levava uma chuteira, um par de sandálias de dedo e R$ 85 dados pelo avô, que tentou socorrê-lo.

Eduardo, que tem 33 anos, também jogava futebol na adolescência e tinha o avô de Dyogo como treinador. Ele lembra como o menino se destacava por sua educação e simplicidade, resultado da criação dada pelos pais e avós. “Ele sempre cumprimentava todos, não tinha inimizades com ninguém, era assim desde pequeno”, conta. “Dyogo era um bom filho, nunca vi nenhuma confusão envolvendo o seu nome, seja na escola ou num simples futebol.”

Divulgação
Colegas prestam homenagem a Dyogo durante partida de futebol.

Recorde de letalidade policial no RJ 

Dyogo deixou duas irmãs, com as quais, segundo conta Eduardo, era sempre gentil e brincalhão, além de muito responsável. Após a morte do adolescente e de outras cinco pessoas sem qualquer indicação de ligação com a criminalidade, moradores fizeram protestos em comunidades do Rio de Janeiro para denunciar o fogo cruzado ao qual inocentes ficam expostos durante as operações policiais nas favelas. 

“Só fomos ouvidos porque um ônibus foi incendiado. E a sociedade, como sempre, se atentou para o ato ilícito e não para a vida que foi tirada. Será que se não houvesse toda essa manifestação, a morte do jovem Dyogo seria lembrada ou apareceria nas mídias?”, questiona Eduardo.

Indignado, o corretor de imóveis critica a forma de atuação da Polícia Militar nas favelas. “Eu acho que o governo entende que as comunidades do Rio de Janeiro são a causa de todos os males do nosso estado. Nunca veremos tamanha truculência dentro dos condomínios da zona sul, ou agressividade com os filhos de doutores. Só é normal vermos mortes de jovens negros, pobres e que moram em comunidades carentes”, desabafa. 

Conforme explica Eduardo, a rua onde Dyogo morreu representa esses dois extremos da sociedade. “O início dela fica em São Francisco, fora da comunidade, na parte nobre. Talvez alguns moradores [dessa área] nem irão entender, pois não passam por nenhuma das nossas dificuldades, não sofrem nenhum tipo de preconceito vivido por nós, que moramos na parte considerada pobre. A parte nobre dessa rua é lembrada por todos, pelas empresas de serviços de água, luz, internet e o poder público.”  

Já a nossa parte no bairro é a com que menos a sociedade se preocupa... Se morre alguém baleado, quem se importa? Se estamos sem água ou luz, por que se preocupar?

Além de Dyogo, as outros cinco pessoas mortas entre os dias 9 e 14 tinham idades entre 17 e 21 anos. Gabriel Pereira Alves foi baleado enquanto esperava um ônibus, na Tijuca; o soldado da Brigada de Infantaria Paraquedista Lucas Monteiro Santos da Costa e Tiago Freitas morreram durante uma festa no Encantado; Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, que trabalhava em um supermercado, foi atingido na comunidade Terra Nova, em Magé; e Margareth Teixeira da Costa foi baleada com o filho nos braços quando ia à igreja, em Bangu. 

No primeiro semestre deste ano, as mortes decorrentes de ações da polícia alcançaram o maior número dos últimos 17 anos no Rio de Janeiro. O recorde, apontado por dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostra que 881 pessoas foram mortas pelas polícias em operações — um aumento de 15% na comparação com o mesmo período do ano passado. 

A equipe da Change.org entrou em contato com a coordenadoria de comunicação social da Polícia Militar do Rio de Janeiro, questionando sobre as circunstâncias da morte de Dyogo, porém, não recebeu resposta até o fechamento deste texto.

A assessoria de comunicação da Polícia Civil do Rio de Janeiro enviou uma nota dizendo que a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí instaurou um inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte. Segundo informado, familiares da vítima foram ouvidos e policiais militares também foram chamados para prestar depoimento. A Polícia Civil ainda informou que diligências e investigações estão sendo realizadas.    

A campanha online

O abaixo-assinado criado por Eduardo segue aberto na plataforma Change.org e recebendo novas assinaturas. O amigo do adolescente espera reunir o maior número possível de apoiadores para que o prefeito e vereadores de Niterói sejam sensibilizados pela causa e alterem o nome da rua Albino Pereira para Dyogo Costa Xavier de Brito. 

“Sempre víamos o Dyogo com um sorriso no rosto e imaginar a dor e o sofrimento que este nobre adolescente sentiu mexeu extremamente comigo. Então, no meio de uma conversa com a mãe, comentei: ‘Temos que ter uma lembrança no lugar onde ele foi criado, onde passava todos os dias, onde ele estudava e cultivava as melhores amizades’. Assim, pedi autorização da mãe e do avô para fazer um abaixo-assinado, e logo toda a comunidade abraçou essa ideia”, comenta o corretor de imóveis sobre a iniciativa de criação da campanha.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.