MULHERES
29/05/2020 06:00 -03

O bebê de uma adolescente grávida da instituição onde eu atendia virou meu filho

A dona do 26º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a psicóloga Dulce Raquel, que chegou a levar a menina com o bebê para acolher em sua casa.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Dulce e os 3 filhos: unidos mesmo quando estão distantes.

Sou Dulce Raquel, tenho 60 anos, sou psicóloga de formação e hoje atuo como gerente em uma casa de adolescentes gestantes ou com bebês. Trabalho nessa área há 25 anos.

Tenho 3 filhos, mas às vezes parece mais porque o trabalho com as adolescentes é bastante complexo. Você se sente mãe, avó porque quando a menina chega lá grávida com 11, 12 anos... Primeiro, você tem o impacto. Embora eu já trabalhe há muito tempo, se hoje chegar uma menina gestante é como se fosse a primeira menina que eu estivesse recebendo.

É sempre muito impactante porque são muito meninas, histórias que se repetem de abuso sexual, violência doméstica. A maioria, ou todas, são famílias chefiadas por mulheres, e mulheres sozinhas. 

Então você vai se sentindo parte, e a gente descobre que não adianta cuidar só da menina. Temos que cuidar da menina, do bebê que está por vir e também da família porque essa é a família que ela vai ter como rede. E são pessoas sempre muito marginalizadas, acabam ficando nesse lugar de que não precisam ser ouvidas, que são sempre responsáveis pela própria gravidez de violência, como se a violência não fosse sofrida.

Mas é bastante gratificante quando você consegue quebrar o ciclo. Como estou há muito tempo, a gente já tem a segunda geração dessas meninas, quando não a terceira e você se sente mãe, avó dos bebês.

E um desses bebês virou meu filho. É um processo de adoção que começa em 2010 quando a mãe dele, uma das meninas que recebemos, sai da casa da acolhida. Mas volta a morar na comunidade onde morava antes e engravidou.

Conversei com minha família, marido e filhos, e trago tanto o bebê quanto a mãe para morar comigo. Buscamos trabalho, escola, ajuda para moradia. Ela foi morar sozinha com o bebê, conseguimos creche, ela arranjou um emprego. Mas 10 meses depois descobrimos que ela estava afundada nas drogas de novo. 

Fizemos uma proposta para ela se cuidar. Ela topou, mas na hora de internar, em novembro de 2011, ela disse que só internava se eu ficasse com o bebê. Novamente juntei a família, conversamos e o processo começou com guarda provisória por um ano e ela tendo direito à visita.

A gente levava a criança todo final de semana para ela ver. Mas durou pouco. Ela deixou o tratamento, mas continuava a fazer visitas ao filho até que não veio mais... Abandonou casa, não tinha onde encontrar.

De vez em quando ligava, de madrugada, sob efeito de entorpecentes. Em uma dessas ocasiões, ao fim da guarda provisória de um ano, falei que ela teria que ir ao fórum para decidir o que fazer. Ela não foi e, em 2015, o juiz concluiu o processo como adoção. Foi doído porque a gente queria salvá-la também. Mas ele está aqui. Um menino lindo e maravilhoso. 

E antes disso, eu já tinha 2 filhos. Engravidei da Paloma, minha primeira, quando eu tinha 32 anos. Gustavo Henrique nasceu quando eu estava com 34 anos e meio. Ambas as gestações foram de alto risco, e ambos nasceram um mês e meio antes da data prevista, de parto cesariana.

As experiências da maternidade são todas marcantes a partir do momento que você começa a gerar. Quando eu engravidei pela primeira vez eu tomei um susto porque o médico disse que eu não poderia engravidar e, quando nasceu a Paloma, eu tinha toda uma experiência teórica por causa do meu trabalho, mas vou te dizer...A gente descobre que tem muita teoria e prática nenhuma. 

A ideia foi transmitir a meus filhos tolerância, respeito, educação, não tratar o outro diferente do que você quer ser tratado, não julgar, não desfazer.

Eu não sabia dar banho na minha filha. Ela dormia, e eu tinha medo de que não acordasse. Com o segundo, quando achei que a experiência com a primeira ia ajudar, não ajudou em nada. Ele chegou a ter um episódio de convulsão muito difícil. Os médicos disseram que ele tinha que ser tratado como uma criança comum, que não podia fazer dele uma criança manhosa e isso marca a gente porque é muito fácil você falar.

Eu fiz tudo errado, eu fazia todas as vontades, sim, e depois de um ano é que se descobriu que a febre e a convulsão eram porque ele tinha alergia a medicamentos. Esse foi um episódio bem marcante para mim.

Hoje, o maior desafio é o meu caçula. Ele tem 12 anos. O objetivo é o mesmo, que ele estude. Meus filhos não moram comigo, os dois mais velhos são casados. O segundo faz pós, é educador físico e a esposa advogada. A Paloma é formada em publicidade e o marido faz engenharia. Cada um na sua casa, mas ambos pertinho de mim.

O fato de eles estarem casados não quer dizer que a gente não se preocupe, muito pelo contrário. A formação de uma nova família me traz a preocupação na questão do respeito, da sociedade que está atualmente pouco afetiva, pouco tolerante. 

Não sei se consegui alcançar este objetivo, mas a ideia foi transmitir a eles tolerância, respeito, educação, não tratar o outro diferente do que você quer ser tratado, não julgar, não desfazer.

O trabalho continua sendo muito importante para mim e hoje eu acho que vejo com resignação, vejo o quanto eu preciso desse trabalho e o quanto ele precisa de mim para a gente ir se revendo, se olhando, se trocando, mudando na medida da necessidade para reiniciar no dia a dia.

Porque é isto; todo dia é um novo dia e a gente tem que ser uma nova pessoa. 

Dulce Raquel Silva é a dona do 26º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Ela tem 60 anos, é psicóloga e atua há 25 anos com adolescentes grávidas. Mora no Brás e é mãe de 3 filhos.

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