ENTRETENIMENTO
05/05/2019 08:39 -03 | Atualizado 06/05/2019 10:30 -03

Duda Beat: A transição da cantora para ser 'rainha da sofrência e empoderamento pop'

Compositora pernambucana fala sobre o desejo de "ser grande", antecipa novidades do novo álbum e conta como anda sua saúde mental após agenda lotada.

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O show de Duda Beat é um dos destaques do festival MECAInhotim, que será realizado em Brumadinho, em Minas Gerais, entre 17 e 19 de maio.

Duda Beat viu sua rotina mudar por completo desde o lançamento de seu disco de estreia, Sinto Muito, em abril de 2018. As letras confessionais sobre desilusões amorosas - embaladas por combinações sonoras de gêneros como R&B, brega, trap e axé - encontraram conexão imediata com o público da cena independente, e logo a cantora passou a apresentar sua “sofrência pop” em palcos de todo o Brasil. Ela foi um dos destaques nacionais do Festival Lollapalooza 2019 e, nos próximos meses, faz shows em pelo menos 3 eventos nacionais de grande porte: Cultura Inglesa Festival, em São Paulo; MECAInhotim, em Minas Gerais; e Festival Bananada, em Goiás.

Viver de música, no entanto, não estava nos planos iniciais de vida de Duda, que nasceu no Recife, em Pernambuco, com o nome de Eduarda Bittencourt Simões. Apesar de ter cantado em igreja evangélica e ter tido banda na adolescência, seu maior sonho era ser médica - o que fez com mudasse para o Rio de Janeiro aos 18. Os 7 anos seguintes foram de tentativas frustadas de entrar na faculdade de Medicina. Ela partiu então para o curso de Ciência Política. Foi nesse período que se apaixonou por 2 músicos cariocas. Ambos - cada um a seu tempo - não corresponderam ao sentimento dela, oferecendo rico material para o futuro disco da artista.

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"Eu sou religiosa, acredito no universo, acredito em horóscopo. Na verdade, acredito em tudo. E acredito na minha arte."

A carreira de Duda na música só começou quando ela, frustada com os rumos de sua vida, participou de um retiro espiritual onde teve que passar 10 dias sem falar. Da experiência, ela saiu determinada a lançar um disco, que nasceu 3 anos depois com produção assinada por Tomás Tróia, amigo de infância, hoje namorado da cantora. O nome Duda Beat sugere uma ligação territorial da artista com o movimento mangue beat e também com as batidas que permeiam seu primeiro trabalho.

Em entrevista por telefone ao HuffPost, Duda faz um balanço de seu primeiro ano oficial de carreira e deixa claro, como já costuma fazer, que quer “ser grande” e ampliar seu púbico para além do universo alternativo. Ela também deu pistas de como será seu próximo trabalho, um disco de “transição”, que deve retratar “uma pessoa que sofreu, mas que hoje está sendo correspondida”. A pernambucana falou também da experiência de dividir o palco com Ivete Sangalo e revelou como tem lidado com sua espiritualidade e saúde mental depois que ganhou fama e uma agenda lotada.

Leia a entrevista na íntegra:

HuffPost Brasil: Você caiu graças do público da cena independente e entrou na rota de festivais com Sinto Muito, seu disco de estreia que acaba de completar 1 ano. Que balanço você faz desse período? 

Duda Beat:  Essa é uma pergunta boa. Fazendo um balanço do último ano, eu só consigo ver trabalho. Foi um ano em que eu não parei de trabalhar um minuto. Ao mesmo tempo isso é maravilhoso. Foi o que eu pedi a Deus. Conheci muita gente nova, que me apoiou e apostou em mim. Foi um ano muito rico, não só profissionalmente. Eu aprendi a olhar o ponto de vista das outras pessoas, aprendi a me relacionar, me comunicar e a me comportar no palco. Porque isso tudo é um aprendizado. Aprendi a cantar melhor. Tudo para mim nesse ano foi evolutivo.

A Duda de antes era tão trabalhadora quanto essa, mas não tinha tanta demanda. Eu trabalhava com uma grande amiga, a gente pintava paredes. Foi assim que consegui juntar dinheiro para pagar as pessoas envolvidas no meu disco. Passei 3 anos trabalhando para conseguir botar esse disco na praça. Eu acreditava muito. Acho que isso também é um dos fatores de ele ter virado. Além de acreditar muito, era minha verdade que estava botando ali para todo mundo ouvir. Foi um ano, sem dúvida, muito especial e de muita evolução – tanto como ser humano quanto como artista. Muitas amizades novas, gente legal colando junto e querendo crescer junto comigo.

 

Você não esconde o desejo de ampliar seu público para além do universo indie e já chegou a dizer dizer que a “estrutura musical” de um artista é também responsável pela popularização dele ou não. Poderia falar mais sobre isso?

O anseio de ficar grande é na verdade o anseio de todo artista. A gente não faz disco para ninguém ouvir, essa é a verdade. Pode ser que alguns digam que não, que não querem isso, mas no fundo você só faz um trabalho para que chegue em muita gente. Não adianta. Isso não é só questão de ego, é questão de você querer que aquela mensagem chegue em outras pessoas. Sinto Muito tem uma mensagem muito forte de tristeza, mas também tem a mensagem de “se levante e vamo embora, não busque mais a felicidade em ninguém”. Quanto mais gente ouvir isso, se identificar e melhorar a vida, melhor. Acho que esse é o objetivo do artista: tocar sinceramente outras pessoas.

Eu não tenho o menor pudor de falar que quero ser grande, mas muito mais para poder atingir mais gente. Quero que mais gente consiga sentir o que eu senti, consiga sentir empatia pelo que estou falando, enfim, mude sua realidade. Eu recebo tanta mensagem de gente dizendo que meu disco ajudou a superar o fim de um relacionamento. Então por que mais pessoas não deveriam me ouvir? É muito mais sobre isso do que sobre ego.

Quanto à estrutura musical, eu sou pernambucana, sou muito direta, e priorizei ser bem clara nas mensagens que estava falando ali nas minhas músicas. A questão da estrutura musical tem a ver com isso. Não estou desvalidando nem desmerecendo a pessoa que faz isto, mas tem artista com estrutura enrolada na hora de falar uma coisa direta – e pouca gente entende. Porque, infelizmente, não é todo mundo que consegue captar mensagens subliminares. As coisas que eu falo no meu trabalho são muito simples. “Eu não vou buscar felicidade em mais ninguém.” Todo mundo sente isso quando é rejeitado. Acredito que a simplicidade da estrutura foi uma coisa que também me ajudou bastante a chegar em tantas pessoas – e quero chegar a mais.

 

“Rainha da sofrência pop” é um rótulo que você vai abraçar também nos próximos trabalhos ou pretende mostrar outras nuances da Duda Beat?

Ninguém é uma coisa só. Eu sou a “rainha da sofrência pop” porque designaram esse título, que acho muito legal. Acredito que o rainha é muito mais pelo sentido de eu ter colocado um som novo, meio diferente na praça, e falar de sofrência e ser pop. No próximo disco eu posso ser a rainha da sofrência e do empoderamento pop. Da pessoa que sofreu, mas que hoje está sendo correspondida. O próximo disco será de transição. Ainda terá sofrência porque ainda tenho muita música nessa linha para jogar no mundo, mas também terá o lado do que estou vivendo hoje. Eu falo muito sobre a minha vida. É impossível eu não dizer que hoje em dia estou com uma pessoa que me ama e que estamos felizes. Eu tenho que falar disso também. Eu até brinco com Tomás [Tróia]: “seria injusto se não tivesse música para você, tem que ter”.

Você acaba de soltar um novo single, Chega, parceria com Mateus Carrilho e Jaloo. Ela já é uma prévia do seu próximo disco?

Essa música é de composição minha e de Tomás. Eu fiz letra, Tomás fez algumas melodias e o arranjo. Ela conta a história de uma pessoa que estava vivendo na moral e, do nada, é arrebatada por uma paixão. História que todo mundo vive também. É aquele velho jargão: “quando eu menos procurei, apareceu”. O refrão diz que pode ser que dê ruim, que dê bom ou tanto faz, o importante é a gente viver isso. Convidei Mateus e Jaloo, que são 2 grandes amigos, para cantar comigo. Eles são pessoas que eu amo de verdade, e acredito que trabalhar com amigo é a melhor coisa que tem. Eu recebi uma vez um inbox de Mateus pelo [produtor musical Rodrigo] Gork, amigo em comum, dizendo que ele queria um feat comigo. Falei: “é agora”. Fiz a música e depois que mostrei pra ele ficamos pensando: “será que Jaloo também não entra nessa parte? Tem tudo a ver com ele”. “Vamo, amigo?” Ele: “bora!” Foi uma coisa muito natural esse trisal. Eles ficam brincando que é um trisal [risos].  

 

Acho que Chega não vai entrar no próximo álbum, ainda não sei. Porque tem tanta música para o próximo disco. A gente vai entrar em estúdio no dia 17 de junho, numa segunda-feira, mas ele vai ser lançado só no ano que vem. Falei para os meninos marcarem na agenda, porque dia 15 é um sábado, aí na segunda-feira começamos, que nem dieta, sabe? [risos]. As pessoas começam dieta na segunda, eu vou começar um disco, se Deus quiser [risos]. Vou fazer o disco devagarzinho para não ter arrependimento. Sinto Muito foi assim. Tudo o que está ali, está com muito amor. Não me arrependo de nada. Aliás, me arrependo porque hoje eu canto melhor. Mas todo cantor se arrepende. A gravação é de um jeito e você vai cantando tanto que acaba ficando melhor. Mas de resto, eu amo tudo o que está ali. E eu quero ter muitas certezas no disco novo.

Nesse disco novo eu vou gravar uma música do Boogarins. Pedi para cantar Foi mal. É o que vai representar o fechamento do ciclo. Como se um cara estivesse falando pra mim: “foi mal se eu ainda desejo corpos que não o seu”. Eu disse para os meninos: “minha gente, eu até escreveria uma música dessa, mas ela já existe”. Eles falaram: “pode gravar”. “Olha, nem quero mudar nada”, disse pra eles. Vou fazer como Rihanna. Vou gravar o Tame Impala brasileiro. Talvez a gente mude uma compressãozinha, mas nada que seja radical para o público. Quero muito prestigiar esses artistas maravilhosos e ser prestigiada com uma música deles no meu disco. Sou muito fã do Boogarins. É muito glamour [risos].

No segundo semestre também quero convidar grandes cantores para fazer umas músicas do Sinto Muito acústicas. Também devo lançar uma música de Carnaval mais para o final do ano. E no meio do ano que vem eu lanço o disco novo. Tem bastante coisa aí. Fora os feats que estou fazendo com o povo.

No Carnaval deste ano você realizou o sonho de cantar com Ivete Sangalo não apenas uma, mas duas vezes - em Salvador e no Recife. Estamos perto ouvir uma parceria entre Duda Beat e Veveta?

Ela é uma das pessoas mais generosas que eu conheci na minha vida. É realmente um exemplo pra mim de profissional, de mulher, eu acho ela incrível. Tenho o desejo de gravar com ela e vou conversar sobre isso. Estou primeiro fazendo a música para apresentar. Espero que ela curta porque, enfim, vai ser uma felicidade muito grande ter uma música cantada junto com ela.

O início da sua carreira como artista se deu após uma passagem por um retiro espiritual. Como é a sua espiritualidade hoje e como você mantém sua saúde mental mental em dia diante do novo ritmo de vida e das novas demandas e expectativas tanto suas quanto dos fãs?

Olha, é difícil. A internet foi muito boa e muito ruim. A verdade pra mim é essa. Ela foi muito boa porque conseguiu fazer que as pessoas se conectassem mais, se aproximassem mais – mesmo que distantes. Mas é também muito ruim porque às vezes nós somos julgados por coisas que a gente nem tem tanta culpa. Aí a parada vai aumentando e começa a rolar mentira. É uma terra de ninguém aquilo ali. Uma das coisas que mais me deixa triste na vida é injustiça. E aí quando eu vejo que estou sendo injustiçada por alguém, isso me deixa arrasada. Eu tento lidar com isso da melhor forma possível. Eu tenho, ainda bem, um cara que me ama do meu lado, que segura minha mão e fala: “respira e não liga pra isso”. Tenho uma equipe maravilhosa também que fala: “a gente tá contigo, deixa essa bobagem aí, deixa isso pra lá”. Mas é muito difícil porque eu me importo muito. Eu cuido da minha saúde mental com uma terapiazinha.

E a espiritualidade é uma coisa que me guia. Quando estou muito estressada, eu lembro do [retiro] Vipassana, faço uma meditaçãozinha, dou aquela respirada. Medito no fato de que tudo é passageiro: tanto o sucesso quanto a tragédia. O nome da primeira música do meu disco é Anicca, que lá no Vipassana significa impermanência. Ou seja, tudo na nossa vida é impermanente. A gente precisa respirar e passar pelas coisas da melhor forma possível.

Eu sou religiosa, acredito no universo, acredito em horóscopo. Na verdade, acredito em tudo. E acredito na minha arte. Digo para os meus amigos que 50% do fato do meu disco ter dado certo é porque acreditei muito nele. O disco estava pronto e eu olhava pra qualquer pessoa e falava: “cara, não vai ter ninguém que não se identifique com essa parada”. Isso foi um mantra pra mim durante muito tempo. Óbvio que tiveram momentos em que eu estava totalmente insegura, mas aí eu falava: “está tudo certo, vai em frente”. Acredito que a nossa religiosidade está muito centrada também na gente. Na nossa conversa com Deus, no nosso pedido para o universo. E aí as coisas fluem.