LGBT
16/06/2020 03:00 -03

Este filme de 1968 levou as drag queens ao centro das atenções antes da rebelião de Stonewall

'The Queen' ajudou a abrir caminho para RuPaul's Drag Race e outros trabalhos. Mas o roteirista Matt Baume descobriu que o documentário omitiu muitos artistas não brancos.

Mais de meio século após seu lançamento, The Queen é uma cápsula do tempo que revela como era a vida queer antes da rebelião de Stonewall, de 1969.

O documentário de Frank Simon acompanha as drags participantes do concurso Miss All-American Camp Beauty Pageant, em 1967, captando muitos dramas sobre o palco e fora dele.

Apesar de ter sido totalmente inovador em sua época, o filme foi exibido poucas vezes desde sua estreia no Festival de Cinema de Cannes de 1968 e parecia ter sido perdido para a história até o ano passado, quando uma versão restaurada chegou aos cinemas para marcar o Mês do Orgulho LGBT.

No capítulo mais recente de sua série em vídeo Culture Cruise, o roteirista e editor Matt Baume faz uma análise aprofundada de The Queen, observando como a influência do filme pode ser vista em Paris is Burning, de 1990, e, mais tarde, RuPaul’s Drag Race, entre outros marcos da cultura queer.

Hoje o tipo de expressão de gênero não conforme que existia no cenário dos “balls” de Nova York é encontrado em toda parte na televisão, em filmes e na música. Mas na época em que The Queen foi produzido, vestir-se como drag era crime em boa parte da América. Por essa razão, participantes do concurso, como Flawless Sabrina, Harlow e Crystal LaBeija, só podiam abraçar sua arte em segredo.

Por provocante seja The Queen, para Matt Baume o documentário é igualmente revelador devido ao que opta por omitir. Apesar de o Miss All-American Camp Beauty Pageant (concurso de beleza camp Miss all-American) ter atraído participantes de todas as raças, o filme praticamente ignora os que não eram brancos. A presença de Andy Warhol como jurado do concurso vai eletrizar as pessoas que curtem história da arte, mas é impossível ignorar que o júri do qual ele fez parte foi formado inteiramente por brancos.

“Por mais que seja vital ter The Queen como documentação da época, o que chama minha atenção quando assisto ao filme é o quanto ele omite”, disse Baume ao HuffPost. “O filme enfoca quase exclusivamente artistas brancos, especialmente Harlow, a vencedora. Mas há muito mais acontecendo na tela com as artistas não brancas, especialmente Crystal LaBeija.”

“Temos apenas um vislumbre da frustração de Crystal no final”, ele prosseguiu. “Mas é claro que havia muito mais acontecendo no cenário das drag balls de Nova York na época, e os discursos de Crystal fazem muito mais sentido quando temos consciência do racismo presente nas balls havia muitas décadas.”

Baume lançou Culture Cruise no YouTube em 2018. Ele vem usando a série em vídeo como uma maneira divertida e esclarecedora de reexaminar como personagens LGBTQ foram retratados em várias séries de TV clássicas, incluindo Cheers e Supergatas (The Golden Girls).

Baume vive em Seattle e é autor do livro “Defining Marriage: Voices From a Forty-Year Labor of Love” (Definindo o casamento: vozes de um trabalho de amor de quarenta anos, em tradução livre), publicado em 2015. 

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.