LGBT
15/02/2020 07:00 -03

Sou menina, tenho 13 anos e sou drag queen. Esta é a minha vida

"Como uma jovem garota constantemente sendo informada pela mídia e pela sociedade como eu deveria me parecer e me comportar, ser drag me permite zombar e desafiar essas expectativas.".

Courtesy of Bracken Hanke
“No primeiro ano de minha jornada como drag queen, eu só me fantasiava e ficava dançando na sala da minha casa, fazendo de conta que estava cantando minhas músicas favoritas.”

Sou uma menina de 13 anos bastante típica. Adoro cantar, representar e ficar com minhas amigas. Passo muitas horas desenhando, fazendo trabalhos com feltro e tocando ukulelê no meu quarto. Mas uma coisa me diferencia um pouco de outras pessoas da minha idade: além disso tudo, sou drag queen.

Sou filha de uma stylist e criadora de chapéus. Vivo cercada por moda e glamour desde que me dou por gente. Me lembro de ir a desfiles de moda quando eu era criancinha e ver as modelos elegantes desfilando pelas passarelas compridas, usando suas roupas fabulosas. Eu queria tanto que fosse eu desfilando ali com todo o mundo assistindo... Queria que fosse eu desfilando naqueles vestidos deslumbrantes!

Não demorei muito a começar a ser notada por me produzir tremendamente quando eu ia a esses eventos. Cheguei a aparecer na coluna social do nosso jornal local de Vancouver, na Colúmbia Britânica.

Eu colocava um dos meus vestidos mais lindos, um chapéu que minha mãe tinha feito para mim, e para completar o visual, colava strass colorido do lado dos meus olhos. Quando as pessoas perguntavam por que eu estava tão produzida, eu dizia que era uma “criança fashionista”. Que criança não gosta de se fantasiar? Minhas roupas me davam tanta alegria, com elas eu podia me expressar.

Uma tarde de verão quando eu tinha 9 anos de idade, encontrei minha mãe assistindo a um vídeo no celular. Lembro que aquele vídeo chamou minha atenção na mesma hora por causa das mulheres deslumbrantes de vestidos exagerados, penteados doidos e maquiagem excessiva que estavam percorrendo a passarela. Era diferente de qualquer desfile de moda que eu já tinha visto. De olhos arregalados, perguntei à minha mãe: “O que é isso?” Ela me falou que estava vendo um programa de TV chamado RuPaul’s Drag Race e começou a explicar o que é uma drag queen.

Eu já sabia um pouco sobre drag queens porque a gente ia assistir ao Vancouver Pride todo ano e alguns de nossos amigos desfilavam fantasiados de mulher, mas eu nunca tinha visto nada como RuPaul’s Drag Race. Fiquei maravilhada. 

Courtesy of Bracken Hanke
Bracken Hanke no dia a dia.

Minha mãe e eu começamos a assistir ao programa juntos, mas ela tomava o cuidado de não me deixar ver algumas das partes que eram mais para adultos. Quando ela me mostrou a quinta temporada para eu conhecer Alaska, sua drag queen favorita, eu também me apaixonei por Alaska na mesma hora. Adorei a máscara de cavalo que ela usou quando entrou na competição. Adorava as roupas bizarras que ela usava na passarela. Adorava tudo nela. Então me dei conta de uma coisa: se Alaska podia usar um vestido feito de sacos de lixo e ficar linda, por que eu não poderia fazer a mesma coisa?

Falei para minha mãe que eu queria criar um look de drag queen com sacos de plástico. Fiquei decepcionada quando ela não deixou. Não entendi por que ela não queria me deixar me vestir como aquelas drags que eu idolatrava.

Minha mãe me disse que isso poderia ser visto como uma apropriação indevida – que as drag queens têm uma longo histórico de sofrer perseguição pelo que fazem e o que são e que não seria apropriado para mim, alguém que nunca passou pelas coisas que a maioria delas passou, começar a me vestir assim.

Não desisti. Continuei a pedir para minha mãe toda hora se eu podia tentar me produzir como uma daquelas drags, nem que fosse apenas uma vez. Mas ela ainda não tinha certeza. Isso se arrastou por meses...

Finalmente, um dia minha mãe e eu fomos visitar uma amiga nossa, Kendall Gender, uma drag queen aqui de nossa cidade que também trabalhava numa loja da qual gostávamos. Enquanto estávamos batendo papo, minha mãe falou a Kendall que eu estava pedindo para me vestir de drag. Ela se animou na hora e ficou nos falando de um tipo de drag queen chamada “hyper queen”. A hyper queen é uma drag que se identifica como mulher quando está produzida ― e muitas vezes se hiperfeminiza quando está no papel.

Depois de ouvir isso, minha mãe finalmente cedeu e me entregou suas maquiagens. Havia tanta coisa para escolher – brilhos, pós, glosses. Ela me ajudou a selecionar os produtos que eu precisaria para criar meu primeiro visual de drag. Arrumamos todos os materiais do lado da pia do banheiro e posicionamos o celular dela em pé ao lado para assistirmos a um dos tutoriais de maquiagem de Alaska. Minha mãe me ajudou a colocar a maquiagem, e eu fui me transformando numa pessoa completamente diferente.

Courtesy of Bracken Hanke
“Quando estou montada, posso virar a personagem que eu quiser, sabendo que basta usar um pouco de lenço umedecido para voltar a ser a ‘eu normal’ de novo.”

Naquele primeiro ano na minha jornada como drag, eu só me vestia e ficava dançando na sala de casa, fazendo de conta que estava cantando minhas músicas favoritas. Era difícil encontrar eventos nos quais eu pudesse ir – que fossem apropriados para minha idade ―, até que Kendall nos contou de um vogue ball com temática de Natal que ia acontecer, para pessoas de todas as idades. Para falar a verdade, eu sabia muito pouco sobre vogue balls, mas me pareceu uma coisa superdivertida e eu estava louca para finalmente ter uma oportunidade para desfilar.

Os vogue balls (um misto de desfile e dança vogue, com pessoas LGBTQ, drag queens etc), conforme os conhecemos hoje, nasceram em Nova York na década de 1980. Pessoas da comunidade LGBTQ+, principalmente LGBTQ+ não brancas, se reuniam para competir em categorias tipo “rosto”, “mais bem vestida” e “vogue”.

Eu não entendia muito bem todas as regras ou os aspectos técnicos de competir num vogue ball, mas me vesti dos pés à cabeça no meu modelito “alta-costura cintilante”, um vestido rosa com lantejoulas com um boá cintilante preso à barra e muitos acessórios brilhantes grudados em mim, e fui lá. E foi incrível!

Foi no vogue ball que conheci algumas das pessoas mais importantes que têm me dado todo apoio como drag queen: minha mãe vogue, Ralph Escamillan, e minha família vogue, ou “house”, como a chamamos – a nossa é a House of Gvasalia ―, que me ensinaram tudo que sei sobre cultura dos balls e dança vogue, outra das minhas paixões. Nem todas as drags dançam vogue ou fazem parte de uma house, mas muitas sim, e a comunidade ballroom e a comunidade das drags muitas vezes coincidem parcialmente.

Em pouco tempo comecei a criar um espaço para mim na comunidade local e continuei a aprender mais. As drags locais me ensinaram mais sobre maquiagem e até tentaram encontrar lugares para eu me apresentar. Mas não foi fácil, porque os shows de drag queens geralmente acontecem em bares e outros lugares que não aceitam crianças. 

Courtesy of Drag Kids
“Para mim, o palco é como minha casa. Me sinto superfeliz e acolhida.”

Com 11 anos, finalmente pude me apresentar pela primeira vez, de verdade, no Vancouver Pride. Eu estava maravilhosa num macacão azul e branco de unicórnio, com peruca cor-de-rosa que tinha comprado pouco antes com o dinheiro que ganhei no meu aniversário.

Fiquei no backstage com os nervos à flor da pele. Eu vinha ensaiando minha coreografia havia semanas, que eu fazia ao som de “Me Too” de Meghan Trainor, mas ainda assim eu tinha medo de esquecer alguma coisa. Fui fazendo a contagem regressiva das performances antes da minha até que finalmente chegou a hora de eu subir ao palco. Eu estava super-ansiosa, mas assim que minha faixa começou a tocar e a cortina se abriu, entendi que estava no lugar certo e que me apresentar era o que eu realmente queria fazer.

Nunca mais fiquei nervosa ao me apresentar. Hoje o palco é como se fosse minha casa. Me sinto superfeliz e acolhida. Parece que todo mundo me aceita, não importa o que esteja acontecendo na minha vida.

Dois dias depois daquela primeira apresentação, fui de avião para Miami para me apresentar no Fierté Montréal/Montréal Pride com três outros artistas adolescentes incríveis que por acaso também fazem parte de Drag Kids, um documentário no qual eu apareço e que mostra os altos e baixos vividos por crianças como eu quando só queremos um espaço para fazer o que curtimos e uma comunidade que nos apoie e que a gente também possa apoiar. E de lá para cá não parei mais de fazer shows.

Courtesy of Megan Wennberg
Bracken (ao centro) com outras drags adolescentes: Suzan-Bee Anthony (esquerda), Laddy Gaga (à direita do centro) e Lactatia (mais à direita). 

As pessoas muitas vezes me perguntam por que eu curto ser drag, e a resposta é sempre a mesma: isso me traz muita felicidade. É minha expressão criativa, me ajuda a me expressar. Não há regras nem limites. Eu danço, canto, costuro meus figurinos, crio personagens e me fantasio.

Para mim o drag também tem um aspecto político. Sendo uma menina, a mídia e a sociedade vivem me dizendo como eu devo me comportar e me vestir. Ser drag me deixa tirar sarro dessa ideia e dessas expectativas. Quando estou montada, posso virar a personagem que eu quiser, sabendo que basta usar um pouco de lenço umedecido para voltar a ser a “eu normal” de novo. Curto ser a eu normal, mas também é divertido ser outra pessoa por um tempinho.

Algumas pessoas acham que não é apropriado uma criança ser drag. Acho que isso vem de uma ideia equivocada de que o drag só tem a ver com brincadeiras adultas e conteúdos cheios de malícia, mas o drag tem muita história também no entretenimento infantil. Pense em quantos programas e filmes para crianças têm personagens cômicos que se fantasiam como alguém do sexo oposto. Como é o caso de muitas artes performáticas, há muitos tipos diferentes de artistas que estão criando tipos diferentes de arte.

É claro que alguns shows de drag podem não ser apropriados para eu assistir, do mesmo jeito que alguns filmes não são. Quando eu me apresento, geralmente é em brunches de drags ou sessões de contar histórias com drag queens, em que estas leem livros e se apresentam para crianças, muitas vezes em bibliotecas. São ótimas oportunidades para crianças e adolescentes queer (e não queer também) e suas famílias passarem tempo juntas e fazer parte de sua comunidade. Para mim, o drag é e deveria ser para todo mundo.

Courtesy of Bracken Hanke
“Quero ajudar a criar uma discussão sobre opções sadias para crianças LGBTQ+, além de dar apoio e inspiração para crianças que não são aceitas.”

Uma coisa que eu nunca imaginei que aconteceria por conta de tudo isso são as mensagens que recebo de crianças de todo o mundo. Somos muito parecidas, mas infelizmente muitas não são exatamente como eu porque não têm o apoio de suas famílias e comunidades. Algumas dessas crianças estão sofrendo de verdade. Tenho 13 anos e é difícil encontrar todas as respostas para elas, mas me sinto grata por poder mostrar a elas que elas não são as únicas a serem assim, que não estão erradas e não estão sozinhas.

Essas mensagens também me mostraram a importância de ser visível. Vivemos em um momento em que tantas crianças, especialmente crianças queer, se automutilam e até se suicidam devido ao bullying e ódio que sofrem, não apenas em suas comunidades locais mas também, e tremendamente, nas redes sociais.

Quero ajudar a criar uma discussão sobre opções sadias para crianças LGBTQ+, além de dar apoio e inspiração a crianças que ainda estão tentando encontrar sua maneira de viver autenticamente em um mundo que não as aceita e muitas vezes as julga. O drag sempre foi uma forma de protesto, e para muitas crianças que participam disso hoje também é. Na realidade, construir espaços para crianças e adolescentes queer e qualquer pessoa que se sinta diferente não prejudica o mundo – transforma-o.

Bracken Hanke, 13 anos, de Vancouver, Canadá, é atriz, artista drag e defensora da causa das crianças LGBTQ+. Quando não está fazendo lição de casa, ela curte ficar abraçada com seu cachorrinho, passar tempo com seus amigos e encontrar novas formas de expressão criativa. Siga-a no Instagram @brackenhanke.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.