OPINIÃO
11/01/2020 04:00 -03 | Atualizado 11/01/2020 04:00 -03

'Drácula' queria ser 'Sherlock', mas é apenas mais uma adaptação ruim de um clássico

Parceria entre a BBC e a Netflix, produção mostra que uma fórmula que já foi bem-sucedida nem sempre funciona.

Desde fevereiro de 2019, quando a dupla Steven Moffat e Mark Gatiss - autores da bem-sucedida adaptação de Sherlock Holmes para a TV - anunciou que seu novo trabalho seria uma versão de Drácula, já se esperava que o objetivo da série, uma parceria entre a BBC e a Netflix, era subverter o personagem clássico criado pelo escritor irlandês Bram Stoker em 1897.

Dito e feito. A produção, que estreou no serviço de streaming no primeiro dia de 2020, é uma releitura das mais livres sobre o mítico vampiro. O que é, aliás, algo muito bem-vindo, já que é estimado que o personagem tenha estrelado mais de 200 versões no cinema e TV desde 1921, no obscuro filme húngaro Dracula’s Death, de Károly Lajthay.

Mas ser original não garante que a série seja boa, mesmo que siga os passos de Sherlock, que de forma muito criativa renovou as aventuras do detetive londrino que usa apenas seu intelecto para resolver os crimes mais complexos.

No entanto, as similaridades com Sherlock resultam no efeito contrário. A transposição das tramas do famoso morador do número 221B da Baker Street para os dias atuais com um ritmo acelerado (e amalucado), recheado de metalinguagem, funcionou muito bem para as histórias que Arthur Conan Doyle escreveu no final do século 19. Mas o mesmo não pode ser dito no caso de Drácula

Divulgação
O ator dinamarquês Claes Bang se esforça bastante, mas seu conde Drácula é muito prejudicado pelo texto ralo de Steven Moffat e Mark Gatiss.

Para começo de conversa, Claes Bang não é Benedict Cumberbatch. Seu conde Drácula não tem a complexidade do Sherlock genial e ao mesmo tempo deslocado de Cumberbatch. Sua interpretação, aliás, nem sequer chega aos pés de outros célebres intérpretes do personagem criado por Stoker, como Max Schreck, Bela Lugosi, Christopher Lee e Gary Oldman.

Mas sejamos justos. Grande parte da culpa é de Moffat e Gatiss, que parecem não saber exatamente o que fazer com Drácula. No primeiro episódio, por exemplo, o texto original se faz mais presente, mesmo com a pegada de “engraçadinho”.

Ele mostra o advogado inglês Jonathan Harker (John Heffernan) debilitado em um convento na Hungria, contando para uma dupla de freiras como escapou das garras do vampiro depois de ser feito de refém em seu castelo, na Transilvânia. 

É claro que há muitas liberdades criativas, como transformar o caçador de vampiros Dr. Van Helsing em uma freira vivida por Dolly Wells, mas esse fato em si não prejudica em nada a trama. O problema aqui são os diálogos bem fracos e situações nem um pouco assustadoras apoiadas unicamente nos elementos gore, ou seja, de muito sangue e meleca.

O pior é que, a partir daí, tudo despenca ladeira abaixo.

O segundo episódio, todo passado a bordo de um navio, parece uma trama estilo Agatha Christie em que já sabemos quem é o assassino esticado à exaustão. Drácula mata suas vítimas uma a uma sem nenhum suspense, tornando as mortes banais e sem sentido.

Aliás, sentido é algo que passa longe da série, um apanhado nonsense de clichês de histórias de vampiros que alcança o auge do absurdo no terceiro e último episódio, quando transporta a lenda de Drácula para os dias atuais. Algo que poderia ser muito interessante, mas que se mostra um grande erro.

Parece que Moffat e Gatiss estavam com preguiça. Eles desperdiçam ótimas ideias, como Drácula escolhendo suas vítimas nas redes sociais, em detrimento de uma trama rala e boba, e com um final que, convenhamos, é mais do que decepcionante. 

O saldo final é: fuja de Drácula como o vampiro foge da luz do sol.

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