ENTRETENIMENTO
09/10/2019 03:00 -03

Como 'Downton Abbey' pode se converter em uma franquia de filmes de sucesso

O criador Julian Fellowes e o ator Allen Leech falam de 'Downton Abbey - O Filme', que liderou as bilheterias em sua estreia nos EUA.

Julian Fellowes escreve a todo momento, onde quer que esteja. Ele atribui essa capacidade a seus tempos de ator, quando ele passava tempo demais em trânsito para poder contar com um espaço reservado para se concentrar.

“Tive que escrever num trailer. Tive que escrever num quarto de hotel. Tive que escrever numa casinha modular”, ele disse ao HuffPost. “Não sigo uma rotina fixa, como você talvez imaginasse, e na realidade gosto disso. Significa que posso trabalhar num avião, num trem ou qualquer outro lugar sem muita dificuldade para me adaptar.”

Isso merece aplausos, considerando que Fellowes já redigiu 25 projetos, incluindo o roteiro ganhador do Oscar de Assassinato em Gosford Park, de 2001, e 52 episódios do premiado drama de época Downton Abbey, sobre a aristocrática família Crawley e seus empregados na Inglaterra do início da década de 1900.

Fellowes escreveu recentemente o roteiro de Downton Abbey - O Filme, dando continuidade à história dos patrões e empregados. O filme estreou nos EUA em 20 de setembro com bilheteria de US$ 31 milhões, passando à frente de Ad Astra - Rumo às Estrelas, com Brad Pitt, e Rambo - Até o Fim, com Sylvester Stallone. E já faturou mais de US$ 72 milhões em todo o mundo, uma façanha rara e empolgante para uma adaptação que foi vista como sendo uma aposta de risco.

Esses números foram uma surpresa bem-vinda para Fellowes, que admitiu que uma reação positiva das platéias pode levá-lo a pensar em criar uma sequência.

“Essa é a realidade da situação”, ele comentou. “Não apenas a bilheteria, mas também o buzz positivo que está no ar.”

Jaap Buitendijk
O produtor Gareth Neame, o roteirista e produtor Julian Fellowes e a atriz Michelle Dockery no set de Downton Abbey, lançado pela Focus Features.

E o buzz positivo está realmente aumentando, especialmente em torno de Dame Maggie Smith, novamente em destaque pelo papel de Violet Crawley, a viúva Condessa de Grantham. Fellowes, cujo trabalho premiado em Gosford Park também valeu a Maggie Smith uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, contou que tem prazer enorme em escrever para a estimada atriz, “que acerta o alvo em cheio cada vez que mira”.

“Ela tem um senso de humor maravilhoso e timing impecável, sem falar numa espécie de multiplicidade de camadas que lhe possibilitam incluir uma frase divertida e incisiva numa cena dramática e fazer com que fique engraçadíssimo sem prejudicar a cena maior. Esses são dons que nem todo o mundo possui. Ela é realmente alguém com quem é um prazer trabalhar”, disse Fellowes.

“A performance dela no filme é incrível, assim como é em tudo em que ela trabalha. E ela é o esteio da série”, disse ao HuffPost Allen Leech, que faz Tom Branston. “A notória M.A.G. leva o título para casa cada vez.”

Maggie Smith recebeu três Emmys pelo papel de Violet Crawley na série, e Leech tem a impressão que ela será reconhecida de novo na próxima temporada de premiações. Mas ele disse aos fãs que, se isso acontecer, a atriz não assistirá a nenhuma cerimônia. Maggie Smith tem 84 anos e é sabido que não viaja mais para fora da Inglaterra.

A trama emocionante dela no filme é própria para uma indicação a prêmios. Perto do final do filme, a condessa viúva admite à sua neta Lady Mary (Michelle Dockery) que está doente. Perguntado se isso significa o adeus de Maggie Smith ou se a atriz ainda poderá aparecer em uma sequência de Downton Abbey, caso ela se concretize, Fellowes não teve outra opção senão tentar enrolar.

“Vamos ver”, ele disse sorrindo. “Não sei de nada que eu não possa contar. Nada foi decidido ainda.”

Liam Daniel
Laura Carmichael faz Lady Edith, Imelda Staunton é Maud Bagshaw e Dame Maggie Smith representa Violet Crawley em Downton Abbey - O Filme.

Deixando de lado a performance de Maggie Smith, Fellowes conseguiu reunir duas dúzias de atores favoritos dos fãs para trabalhar no filme, algo que não pode ser fácil e que envolve arquitetar um roteiro bem focado. Seu primeiro objetivo foi identificar um evento que incorporasse todos os personagens, e foi assim que ele optou pela visita do rei e da rainha a Downton Abbey.

Em seguida, ele estudou quais personagens mereciam um pouco mais atenção desde o final da sexta e última temporada da série, em 2016, e decidiu que era hora de destacar Tom Branson (Allen Leech), o simpático chofer que se converte em aristocrata. Branson sofreu uma perda inimaginável na terceira temporada, com a morte de sua mulher, Lady Sybil Crawley (Jessica Brown Findlay), que deixou o socialista irlandês obrigado a orientar-se sozinho no mundo de seus parentes por casamento ricos e pomposos.

“De todos os personagens constantes que conhecemos e amamos, o único que não estava emocionalmente resolvido era Tom Branson”, explicou Fellowes. “Então a resposta era dar a ele um caso de amor, ou pelo menos o início de um.”

“Fiquei felicíssimo”, disse Leech ao HuffPost, “porque achei que a sexta temporada terminou com a história de Tom ainda em aberto.”

No filme, Tom não apenas vira um herói inesperado quando frustra uma tentativa de assassinato do rei George V (Simon Jones), como se apaixona por uma figura misteriosa que acompanha a comitiva real, Lucy Smith (Tuppence Middleton). Lucy, por acaso, é a filha ilegítima secreta de Lady Bagshaw (Imelda Staunton), que é parente dos Crawley e dama de companhia da rainha. Lady Bagshaw coloca Lucy em seu testamento como herdeira de sua fortuna familiar. Como Tom Branson, Lucy é uma outsider que é inserida em um mundo aristocrático.

“Os dois conseguem se compreender de uma maneira que nenhum dos outros personagens conseguiria”, comentou Fellowes.

“Tom sempre tentou encontrar uma mulher quase de seu nível, mas com a vida que ele leva isso é muito difícil. E Lucy é uma personagem que é vítima das circunstâncias, tanto quanto Tom”, disse Leech. “Acho que há grande potencial no relacionamento deles e, se houver outro filme, há grande potencial para vermos como será para esses dois de repente se verem numa situação de terem que administrar aquela mansão imensa.”

Jaap Buitendijk / Focus Features
Allen Leech faz o papel de Tom Branson.

Allen Leech conhece bem as emoções da temporada de premiações do cinema. No ano passado ele pôde festejar ao lado de seus colegas de elenco de Bohemian Rhapsody quando a cinebiografia do Queen recebeu o Globo de Ouro de melhor filme na categoria drama e levou para casa quatro dos cinco Oscars aos quais tinha sido indicado. Leech também foi premiado como parte do elenco de O Jogo da Imitação, em 2015.

O ator tem consciência do Oscar de Julian Fellowes, é claro, e reconheceu que as chances são boas para Downton Abbey graças ao envolvimento de atrizes indicadas ao Oscar em anos passados como Imelda Staunton e Elizabeth McGovern (Cora Crawley), sem falar nas indicações passadas ao Emmy dadas a Downton Abbey, a série.

Mas será que Downton conseguirá realmente fazer a transição de série premiada com o Emmy a filme indicado ao Oscar? “Não me atrevo a arriscar uma resposta”, disse Fellowes. “Sou supersticioso demais.”

O que ele gostou mais sobre levar a série às telonas foi o aspecto coletivo da experiência. Os espectadores – alguns dos quais foram ao cinema trajando roupas dos anos 1920 – reagiram à história um pouco diferentemente do que fariam se estivessem no sofá de casa. E Fellowes apreciou isso.

“Quando você escreve uma coisa e muitas pessoas reagem ao seu trabalho, é uma sensação maravilhosa”, ele disse. “Foi realmente muito bonito.”

“Ouvir a plateia riro e chorar em momentos muito ternos e divertidos foi uma coisa altamente especial”, disse Leech, falando da première do filme em Nova York. “É uma recordação que vou guardar na memória por muito tempo.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.