OPINIÃO
07/11/2019 16:26 -03 | Atualizado 07/11/2019 16:26 -03

'Doutor Sono' escorrega ao tentar agradar Stephen King e fãs do filme 'O Iluminado'

Mike Flanagan não dá conta do recado ao encarar a difícil tarefa de dar sequência ao clássico de Stanley Kubrick.

Imagine o tamanho da responsabilidade de se fazer a sequência do melhor filme de terror de todos os tempos e ao mesmo tempo agradar o autor do livro em que a obra se baseou, que simplesmente odeia aquele filme.

Pois esse foi o desafio que o diretor Mike Flanagan encarou ao topar filmar Doutor Sono, que entra em cartaz no Brasil nesta quinta (7).

O filme em questão é nada menos que O Iluminado (1980), uma das mais celebradas produções de Stanley Kubrick, cineasta que encabeça listas de melhores diretores da história de muita gente. Entre elas, o próprio Flanagan.

Doutor Sono é a sequência direta do livro O Iluminado, escrito por Stephen King em 1977, mas também, inevitavelmente, do filme de 1980. E é aí que mora o perigo, pois, ao tentar dar vazão a seus ideais cinéfilos e não desagradar Stephen King, Flanagan vive no fio da navalha entre dois mundos bem distintos.

A trama se passa décadas depois dos acontecimentos de O Iluminado. Danny Torrance (Ewan McGregor) é um adulto alcoólatra como seu pai, Jack. Ele usa a bebida para lidar com seus demônios da época em que morou no mal-assombrado Hotel Overlook e suprimir o seu dom mediúnico, que chama de “brilho”. Ao chegar em uma pequena cidade em New Hampshire para começar uma vida nova, ela passa a se comunicar mentalmente com Abra Stone (Kyliegh Curran), uma adolescente que possui os mesmos poderes psíquicos que Danny.

Enquanto isso, um grupo de “vampiros de almas” denominado Verdadeiro Nó vaga pelos Estados Unidos em busca de crianças com o tal brilho para sugar seu poder e se manter jovem para sempre. O bando é liderado por Rose Cartola (Rebecca Ferguson), que certo dia, ao torturar e matar um menino em busca de seu brilho, sente a presença de Abra e passa a persegui-la.

Divulgação
Mike Flanagan emula 'O Iluminado' refilmando cenas do clássico com sósias do elenco original.

Há um ditado que diz que “quem tudo quer, nada tem”. Algo que se aplica perfeitamente aqui. Ao tentar emular a obra de Kubrick e se manter fiel ao texto de Doutor Sono (livro lançado em 2013), o filme de Flanagan vira uma colcha de retalhos de duas tramas mal costuradas.

Por um lado a história é quase um road movie de vampiros ao estilo do cult Quando Chega a Escuridão (1987), de Kathryn Bigelow, mas que não desapega de jeito nenhum do filme de Kubrick, cometendo a heresia de praticamente refilmar sequências do clássico utilizando sósias de Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd e Scatman Crothers, elenco do original.

O resultado é uma obra sem rumo e, principalmente, sem alma assim como o Danny de McGregor, que nunca consegue se firmar como protagonista, tendo seu lugar roubado pela ótima Kyliegh Curran. Uma pena.

No intuito de agradar o mundo inteiro e Stephen King, Flanagan acabou satisfazendo apenas ao autor, que já afirmou em entrevistas que Doutor Sono, ao contrário do filme de Kubrick, faz jus ao legado de O Iluminado.