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05/12/2019 18:12 -03

Após imagens de violência policial em Paraisópolis, Doria admite mudar métodos da PM de SP

“É uma circunstância inaceitável que a melhor polícia do Brasil utilize violência ou de força desproporcional.”

NurPhoto via Getty Images

O governador de São Paulo, João Doria, afirmou nesta quinta-feira (5) que vai rever os protocolos da Polícia Militar. A declaração vai na contramão do que ele tinha falado na segunda-feira (2), após nove pessoas morrerem pisoteadas durante uma ação policial em um baile funk em Paraisópolis. Na ocasião, ele disparou:

“Não houve nenhum tiro pronunciado por policiais militares em qualquer momento, em qualquer circunstância, portanto o comportamento, a atitude da Polícia Militar do estado de São Paulo, assim como da Polícia Civil continuará dentro do protocolo de segurança pública”, disse. “A política de segurança pública não vai mudar”, emendou.

Doria mudou de posição depois que começaram a aparecer uma enxurrada de vídeos que mostram excessos da polícia em Paraisópolis e em outras cidades de São Paulo. Ele afirmou que é uma circunstância “inaceitável que a melhor polícia do Brasil utilize violência ou de força desproporcional, sobretudo, quando não há nenhuma reação de agressão”.

Disse ainda que este tipo de excesso não vai mais existir. “Ou pelo menos faremos tudo para que isso não aconteça.” A sugestão dele é revisar os treinamentos e comandos.

“O secretário da Segurança Pública já foi orientado a rever protocolos e identificar procedimentos que possam melhorar e inibir, senão acabar, com qualquer perspectiva da utilização de violência e de uso desproporcional de força em qualquer acontecimento do estado de São Paulo”, disse.

Entre as imagens que chocaram o governador está uma que um policial bate em jovens com um pedaço de pau. “Fiquei chocado com as imagens”. A gravação não ocorreu em Paraisópolis e é de outubro deste ano.

Violência em Paraisópolis

Nove pessoas morreram em uma ação policial em um baile funk na favela de Paraisópolis, na madrugada de domingo (1º). Imagens mostram que a polícia encurralou a multidão em vielas estreitas. Ao tentar fugir, jovens caíram e foram pisoteados. Outras sete pessoas ficaram feridas.

Segundo a versão da polícia, os PMs reagiram a um ataque. Imagens e relatos de pessoas que estavam no baile, no entanto, contradizem essa história. Eles afirmam que os policiais invadiram o local com intuito de dispersar os jovens por causa do barulho.

Especialistas ouvidos pelo HuffPost já haviam afirmado que as imagens e relatos permitem dizer que a polícia não seguiu os protocolos adequados. “Ao que tudo indica nas imagens, por exemplo, do policial apanhando pessoas em vielas e  agredindo pessoas que estavam no chão, as denúncias de que um policial deu uma garrafada na cabeça de uma jovem, o jeito que os tiros de bala de borracha aparentemente estavam sendo dados mostram que não há manual da polícia que justifique esse tipo de ação”, afirmou Rafael Alcadipani, associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Apesar de ter ressaltado que há informações desencontradas sobre o episódio, o especialista destacou que a impressão é de que não foi uma ação devidamente planejada. “Uma parte da Polícia Militar é muito preparada, competente, estuda bastante. A impressão que eu tenho é que eles têm muita dificuldade de fazer que o que é decidido dentro da cúpula chegue na ponta, que a ponta operacionalize a operação policial da mesma forma como é determinado na cúpula. É uma falha geral.”

Conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), o advogado Ariel de Castro Alves lembrou que o uso de bala de borracha e munição química não é o adequado para espaços fechados com grande número de pessoas. Havia cerca de cinco mil pessoas no baile funk. “Os protocolos de treinamento da PM não indicam qualquer tipo de situação de disparos de bomba de gás ou balas de borracha em locais onde as pessoas ficam confinadas, e há um grande número de pessoas até para não ocasionar tragédias como essa”, afirmou.

Para ele, a situação é ainda mais grave devido à idade das vítimas, que tinham entre 14 e 23 anos. “Provavelmente a maioria dos frequentadores [do baile] são adolescentes, então uma situação dessas gera mais risco porque o comportamento de um adolescente não é igual ao de um adulto. Ele vai sair correndo de qualquer jeito, para qualquer lado. Um adulto pode planejar para onde vai.”

Os manuais do chamados casos de “controle de distúrbio civil” recomendam controlar o fluxo da multidão e sempre deixar rotas de fuga desobstruídas, para evitar pisoteamentos, por exemplo.