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27/03/2020 16:16 -03 | Atualizado 27/03/2020 17:46 -03

'O Brasil precisa discutir quem vai ser o fiador das mortes' por coronavírus, diz Doria

Governador de São Paulo detona campanha do governo Bolsonaro que pede para o Brasil não parar: "A hashtag do momento é #FicaEmCasa".

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Governador João Doria eleva ainda mais tom contra presidente Jair Bolsonaro.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), elevou o tom das críticas ao governo Bolsonaro, que está preparando campanha para que os brasileiros interrompam o isolamento por conta do coronavírus e voltem ao trabalho. A iniciativa #OBrasilNãoPodeParar é fruto da contração de uma agência de propaganda sem licitação por R$ 4,8 milhões.

Logo após visitar o hospital de campanha montado no estádio do Pacaembu para receber pacientes com coronavírus, nesta sexta-feira (27) à tarde, Doria questionou as diretrizes opostas dentro do próprio governo.“Temos um governo ou dois governos federais?”, provocou. De um lado, disse Doria, estão o ministro Luiz Henrique Mandetta, técnicos e cientistas, que sublinham o isolamento social para conter o avanço da covid-19. Do outro, Bolsonaro apoia volta ao trabalho da maior parte da população para não prejudicar a economia e, portanto, o isolamento apenas dos grupos de risco (idosos e pessoas com comorbidades). 

Para o tucano, os R$ 4,8 milhões gastos com a campanha deveriam ser reservados à compra de insumos hospitalares, máscaras e respiradores — a fim de ampliar a capacidade de internação e atendimento dos hospitais ante a escalada do coronavírus. Em 31 dias, o Brasil registra 92 mortes por covid-19 e 3.417 contaminados. São Paulo concentra o maior número de mortos: 68.

“O Brasil precisa discutir quem vai ser o fiador das mortes [por coronavírus]”, disparou Doria, que lembrou o arrependimento do prefeito de Milão. Giuseppe Sala admitiu ter errado ao endossar campanha para a cidade não parar, no fim de fevereiro, ainda no início do surto na Itália.

Há exatamente um mês, em 27 de fevereiro, a Itália tinha 650 casos do novo coronavírus. Hoje, o país tem mais de 80 mil casos e o maior número de mortes do mundo — 8,2 mil, de acordo com a central de monitoramento da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Só na Lombardia, região do norte da Itália cuja capital é Milão, são mais de 4 mil mortos.

“Vamos precisar enterrar 4.400 pessoas para ter a certeza de que o convite para irem às ruas, para fazerem o que não devem fazer, é um erro?”, questionou Doria, em mais um episódio de confronto com Bolsonaro.

Nesta semana, os dois bateram boca em reunião do presidente com os governadores Sudestes via teleconferência. “O senhor, como presidente da República, tinha que dar o exemplo. Tem que ser um mandatário para comandar, para dirigir e para liderar o País e não para dividir”, disse Doria, ao criticar o pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional contra o isolamento social na terça-feira (24).

“Acabou as eleições (sic), [você] me vira as costas e começa a me atacar covardemente àquele que emprestou seu nome para a eleição não de forma voluntária”, revidou Bolsonaro.

Ainda nesta sexta-feira, Doria alfinetou a campanha do governo, com a tag ##OBrasilNãoPodeParar. “Cidadão: você, que ama a vida, siga as orientações dos médicos. A hashtag do momento é #FicaEmCasa.”

O governador de São Paulo anunciou ajuda de R$ 50 milhões para a capital paulista, com transferência dos recursos fundo a fundo. O dinheiro será usado para financiar mais hospitais de campanha na cidade.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) agradeceu a parceria e fez coro às palavras de Doria sobre o isolamento social: “O isolamento, as medidas de proteção à vida... Isso não é uma ação de esquerda ou de direita; é uma ação humanitária”.