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25/03/2020 13:56 -03 | Atualizado 25/03/2020 14:02 -03

Doria e Bolsonaro batem boca por coronavírus. Governadores se articulam contra presidente

Tachado de "demagogo" e "leviano" por Bolsonaro, Doria nega politizar crise e apelou até a Irmã Dulce: 'Pessoas que espalham amor não têm tempo para jogar pedras".

NELSON ALMEIDA via Getty Images
João Doria e outros governadores divergem de postura de Jair Bolsonaro na gestão da crise do coronavírus.

A reunião na manhã desta quarta-feira (25) entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores do Sudeste sobre a crise do coronavírus foi marcada por bate-boca e insultos, em um tom bem diferente do que ocorreu nas quatro teleconferências ocorridas entre segunda (23) e terça (24), nas conversas com os chefes dos Executivos das demais regiões. 

Criticado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), pelo pronunciamento que fez em rede nacional de rádio e televisão, quando defendeu a volta à “normalidade” em meio à pandemia, o presidente se irritou e acusou o ex-aliado de ser “leviano” e de apelar à “demagogia”. 

“Acabou as eleições (sic), me vira as costas e começa a me atacar covardemente àquele que emprestou seu nome para a eleição não de forma voluntária. Guarde essas suas observações para a campanha de 2022, quando Vossa Excelência poderá destilar todo o seu ódio por ocasião das mesmas”, afirmou o presidente a Doria. 

Doria, bem como outros governadores que sempre estiveram ao lado do presidente, como Ronaldo Caiado (DEM-GO), tem decretado medidas que Bolsonaro vem classificando como “exageradas”, como fechamento de comércio e escolas e isolamento domiciliar. No pronunciamento que fez na noite de terça, o presidente afirmou que somente idosos precisam manter isolamento. 

“O senhor, como presidente da República, tinha que dar o exemplo. Tem que ser um mandatário para comandar, para dirigir e para liderar o País e não para dividir”, disse Doria logo no início de sua fala, de cerca de cinco minutos. “Todas as medidas tomadas no estado de São Paulo são fundamentadas, não são precipitadas. Sem viés ideológico, partidário, muito menos eleitoral.”

Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Doria participa de reunião por videoconferência com outros governadores e presidente Jair Bolsonaro.

Ao final, Doria ainda ameaçou recorrer à Justiça caso o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, “confisque respiradores”. “Peço ao ministro da Saúde que compreenda que o estado de São Paulo é epicentro dessa grave crise de saúde. Já temos aqui 810 casos de pessoas infectadas e 40 das 46 mortes do Brasil”, acrescentou o governador.

O embate não ficou apenas em Bolsonaro. Até o ministro da Economia, Paulo Guedes, entrou no bate-boca e disse a Doria que “basta respeitar para ser respeitado”. 

Reações em cadeia

Enquanto a reunião com os governadores ainda corria, mas as notícias sobre o bate-boca já havia vazado, os demais governadores já se articulavam para um encontro ainda nesta quarta a fim de dar uma resposta conjunta ao governo federal. 

Em entrevista coletiva, João Doria mandou vários recados a Bolsonaro. “Não é uma gripezinha, não é um resfriadozinho. É assunto serio, difícil. É um assunto grave e ainda nem entramos no pico da chamada crise do coronavírus. Não politize a questão, presidente. Estamos preocupados em salvar vidas.” 

Negando que haja qualquer intenção por sua parte e dos demais governadores em fazer palanque político com a questão, Doria chamou o mandatário a uma reflexão, mencionando até Irmã Dulce. 

“Presidente vamos refletir juntos. Não pode haver fronteira entre solidariedade e amor ao próximo. Irmã Dulce nos ensinou que pessoas que espalham amor não têm disposição e nem tempo para jogar pedras.”

Doria também disse esperar que Bolsonaro “tenha humildade e recue de comportamento belicoso”. “Espero que o presidente da República veja a importância neste momento de salvar vidas. Não pode neste momento a economia se sobrepor às vidas. Priorizando vidas, nós vamos à economia.”