06/03/2019 01:00 -03 | Atualizado 06/03/2019 11:45 -03

Dora Martinelli, a arquiteta que passou a olhar para si e se transformou após AVC

Ela mudou o estilo de vida, voltou a desenhar e reviu prioridades em nova fase.

Caroline Lima/Especial para HuffPost
A arquiteta Dora Martinelli, que recomeçou após AVC, está na 364ª história de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A maioria dos desenhos feitos por ela é abstrata. Alguns estão na parede de sua casa, emoldurados. São conjuntos de linhas e traços retos. Outros ganham formas mais arredondadas. Preto e branco, sempre. Feitos à mão, sem rascunho. Os únicos que apresentam uma forma conhecida são algumas folhagens e borboletas. Esta, aliás, foi a primeira obra que fez: o corpo com uma das asas de uma borboleta. Sentou e foi isso que criou há cerca de 3 anos. Assim, Dora Martinelli, 60, redescobriu um prazer e um talento. Foi apenas uma das mudanças que o AVC que sofreu há quase 4 anos trouxe para sua vida.

Arquiteta autônoma há mais de 35 anos, sempre trabalhou muito – e sozinha. Não se lembra quantas vezes levou a filha ainda pequena para acompanhar obras e nem tantas outras que precisou pedir ajuda para amigas e familiares buscarem a menina na escola porque não conseguiria chegar a tempo. Hoje não trabalha mais nesse ritmo. Pegou pela primeira vez em muito tempo um projeto grande para fazer, e sua postura também é diferente. Combativa ela continua – tem coisa que não muda tanto assim –, mas sem muita briga. Fala mais tranquila o que pensa e, se preciso for, vai dar uma volta antes de debater com o cliente. Há estresses que ela não precisa e não quer mais passar. 

Ostenta com orgulho os cabelos totalmente brancos e curtos. Antes do AVC, a cabeleira chegava ao meio das costas e era tingida. Mas quem olha para ela assim hoje não consegue imaginar outro visual. Parece que nasceu elegante assim. Sem esforço algum.

Hoje estou em outra fase da vida porque até o AVC eu vivi muito mal. Teve uma certa época que, apesar de estar trabalhando e fazendo coisas, vivia muito estressada, extremamente nervosa.
Caroline Lima/Especial para HuffPost
A volta aos desenhos conferiu novo sentido à vida de Dora Martinelli.

Dora passou assou por grandes transformações. “Hoje estou em outra fase da vida porque até o AVC eu vivi muito mal. Teve uma certa época que, apesar de estar trabalhando e fazendo coisas, me gratificando com isso, eu vivia muito estressada, extremamente nervosa. Eu comecei a chegar em uma fase em que não aguentava mais algumas coisas, até que eu tive o AVC”, relembra.

Define aquele episódio como “uma coisa ridícula”. Explica, sentada na mesma mesa em que o acidente vascular cerebral ocorreu, que de uma hora para outra não conseguia mais falar. Respondia apenas “é” e “não”.

“Minha filha achou que eu estava brava com ela. Estávamos nós duas almoçando aqui, ela falou das coisas que tinha que fazer, saiu, eu fiquei sozinha e decidi que ia deitar. Aí foi minha sorte porque tocou o telefone”. Era sua sobrinha. As duas haviam marcado planos no dia seguinte. A sobrinha notou que Dora não estava bem e foi até o apartamento da tia. De lá, foram para o pronto-socorro. Ficou quase uma semana internada.

É engraçado porque realmente mudam como as coisas são, o modo da gente ver, de como se relaciona... Eu nunca tinha passado por nada parecido.

Depois da temporada no hospital, voltou para a casa e algumas coisas tiveram que mudar. Teve que parar com o ritmo frenético de trabalho, fazer fonoaudiologia, muitos exames, muitas consultas e focar em sua recuperação.

Ela ainda está nesse processo. Passou por um ano de reabilitação difícil, por um lado, mas que trouxe outras tantas outras coisas boas. “É engraçado porque realmente as coisas mudam e o modo da gente ver, o modo de se relacionar... Eu nunca tinha passado por nada parecido”, desabafa.

Lembra que um dia, nessa maratona de médicos, foi a uma consulta e chegou a uma grande conclusão. “Ele me encheu de perguntas e uma delas era se eu tinha ficado mais feliz depois do AVC. Ninguém tinha me perguntado isso, mas foi quando eu me toquei que era verdade. Eu estava sim mais feliz. A real é que eu fiquei melhor, inclusive comigo. Algumas coisas mudaram para que eu conseguisse olhar para mim... Ainda é uma dificuldade, mas vou ter que olhar.”

Foi quando voltou com os desenhos. Em busca de alguma ocupação além dos monótonos exercícios médicos, queria algo que gostasse de fazer. “Sentei e comecei a desenhar, que era algo que eu fazia há muito tempo, era algo potente na época da faculdade.”

Tantos anos depois, mantinha a aptidão com as cores. As pessoas à sua volta começaram a elogiar. Aos poucos, a fase difícil de recuperação foi ganhando outro sentido. “Comecei fazendo as borboletas. Era para exercitar o cérebro já que fiquei sem trabalhar. Todo mundo começou a olhar e gostar e isso me deu um impulso por dentro.”

Caroline Lima/Especial para o HuffPost
Borboletas, curvas e formas geométricas são as principais ilustrações de Dora Martinelli.
Algumas coisas mudaram para que eu conseguisse olhar para mim, ainda é uma dificuldade, mas vou ter que olhar.

Deixar o trabalho de lado realmente não foi algo fácil. Escolheu cedo a profissão e se deparou com muitas dificuldades para conseguir fazer seu trabalho. “Nunca quis fazer outra coisa e sempre tive o apoio dos meus pais, mas enfrentei muito machismo, enfrento até hoje. Lido melhor e você tem que se impor.” Outra coisa que Dora aprendeu desde cedo a fazer: brigar por seu lugar. Mesmo que de forma inconsciente.

Brinca que antes de nascer era um fibroma. A mãe, que já tinha todos os “filhos criados” – os caçulas, gêmeos, estavam com 16 anos – estava grávida, mas todos achavam que estava com alguma doença.

 Foi só quando acompanhou a filha mais velha, que estava grávida, que descobriram do que se tratava. “Minha irmã pediu para que o médico examinasse minha mãe primeiro. Ele apalpou a barriga dela e perguntou se ela tinha certeza se não sabia o que ela tinha. E disse que ela tinha um neném na barriga. Depois de 3 meses eu nasci. Lá no interior me chamavam de fibroma. E quando eu nasci dizem que eu era muito pequena, 1,9 kg e minha tia falou que ia ter que vingar. Para isso, fez uma promessa para Nossa Senhora Auxiliadora. E eu me chamo Maria Auxiliadora”, conta.   

Tive uma relação de muito abuso. Ele foi embora quando minha filha tinha 9 meses. Toda minha vida a partir disso foi baseada em nós duas.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost
Consultoria de projetos de arquitetura é um caminho estudado por Dora Martinelli.

Venceu a primeira etapa que precisava para sobreviver. Lembra com carinho de sua infância, apesar de relatar que era um tanto solitária, já que seus irmãos mais velhos eram todos adultos. “Tive uma infância boa, mas muito sozinha e sempre acompanhando meu pai e minha mãe. No fim a gente descobre a função, e fui eu que cuidei deles quando ficaram doentes. E foi muito bom. Não me arrependo de nada, faria tudo de novo. Todo mundo que conheceu meus pais fala com carinho... Eles eram bons, pessoas boas, me emociono quando falo deles.”

Emociona-se quando fala deles e quando fala da filha. Porque essa foi outra etapa que transformou sua vida. Após se casar com seu namorado de adolescência, separou-se depois de 4 anos. “Tive uma relação de muito abuso, tremendamente violenta. Ele foi embora quando minha filha tinha 9 meses. Toda minha vida a partir disso foi baseada na gente. Foi muita dificuldade que passamos, não foram poucas, mas hoje sei que valeu a pena. Ela está bem, com boas perspectivas. A gente conseguiu vencer e isso não tem nada que pague”, reflete.  

Hoje, Dora vive mais uma das etapas de sua transformação. Depois de tudo que passou, começa a pensar no que é melhor para ela e no que tem vontade de fazer daqui pra frente. Gosta de seu trabalho e ficou feliz em poder retomar, mas justamente porque pode avaliar até onde quer ir.

“Arquitetura é uma coisa infinita, sem fim. Você lida com a terra e com o quadro na parede. Gostei de retomar porque está me mostrando um monte de coisa. Hoje penso mais em fazer uma consultoria. Acho que foi uma trajetória em que eu não tinha consciência que tinha tanto conhecimento, modéstia à parte. Após essa parada é que comecei a ver. Fui vendo quanta coisa foi feita. Só depois de um baque desses é que você começa a querer acordar para algumas outras coisas que você não achava importantes para você.”

Sentei e comecei a desenhar, que era algo que eu fazia há muito tempo e isso me deu um impulso por dentro. Comecei fazendo as borboletas.

Agora pode fazer outros planos. Os desenhos são um prazer, mas já despertaram interesse de potenciais compradores.

Ainda não vendeu nenhum. Mas está estudando formas de fazer algo com isso. Quer dizer, de fazer mais alguma coisa com isso. O principal já está feito.

Hoje, Dora é borboleta. Quebrou a casca do casulo em mais uma fase de sua vida. Renovou-se.

Caroline Lima/Especial para HuffPost
Dora quebrou casulo e entendeu seu novo momento: "Hoje sou mais feliz".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Verizon Media Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.