MULHERES
29/04/2019 08:00 -03

Dor no sexo: Tudo que você precisa saber sobre vaginismo e como tratá-lo

Condição pode ser a causa para dor e desconforto – mas existem soluções.

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“Eu não conseguia relaxar nada na hora de transar. Era uma dor lancinante."

A vida sexual de Tara Langdale-Schmidt, 34, começou quando ela tinha 16 anos, mas foi apenas aos 26, depois de passar por várias cirurgias devido à endometriose, que ela começou a sofrer dor ardente, com pontadas, durante as relações sexuais. “Os sintomas começaram aos poucos. Pensei que fossem ligados às cirurgias”, conta em entrevista ao HuffPost US.

Com o tempo, a dor passou a fazer o corpo de Tara se contrair dolorosamente durante o sexo. “Eu não conseguia relaxar nada na hora de transar. Era uma dor lancinante”, explicou. “Sabendo que ia doer, eu já ficava tensa de antemão. Eu explicava ao médico, mas durante 4 anos a única recomendação dele foi tomar vinho e um comprimido de ibuprofeno.”

A ginecologista e obstetra Tami Rowen, da UCSF Health, em San Francisco, é categórica: se você sente alguma dor durante a relação sexual, deve procurar um médico. Se ele não a ajudar a diagnosticar e tratar a dor, procure uma segunda opinião.

“Não deixe ninguém lhe dizer que não há nada de errado ou que talvez o problema seja apenas que você não sente atração por seu companheiro”, disse Rowen. “Já ouvi as coisas mais sem sentido.”

No caso de Tara, ela acabou recebendo o diagnóstico de vaginismo com vestibulite vulvar, ou vulvodinia (dor ou irritação na área da vulva, perto da abertura da vagina). O vaginismo não é extremamente comum, mas prejudica fortemente as mulheres que o apresentam.

O que exatamente é o vaginismo?

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Se você sente alguma dor durante a relação sexual, deve procurar um médico.

Embora o vaginismo e o que o causa não sejam plenamente conhecidos, a condição leva uma mulher a sofrer “contrações dolorosas e involuntárias dos músculos vaginais diante da penetração”, disse Rowen. “A mulher frequentemente experimenta muita tensão associada à atividade sexual.”

A condição pode tornar difíceis e dolorosos os exames ginecológicos e até mesmo a inserção de absorventes internos.

A definição de vaginismo mudou muito ao longo dos anos, passando do âmbito psicológico para o físico. Hoje ela se situa em algum lugar entre ambos, segundo Carrie Pagliano, fisioterapeuta do assoalho pélvico e porta-voz da Associação Americana de Fisioterapia.

“Há um coquetel muito específico de fatores que levam ao vaginismo, mas a condição é sem dúvida uma resposta protetora muscular”, ela disse. “A colocação de alguma coisa perto da abertura vaginal provoca um aumento da atividade muscular. Falta-nos apenas decifrar o porquê.” 

Há um coquetel muito específico de fatores que levam ao vaginismo, mas a condição é sem dúvida uma resposta protetora muscular.Carrie Pagliano, fisioterapeuta do assoalho pélvico

Pagliano explicou que às vezes as contrações musculares têm origem psicológica. A mulher pode ter sido ensinada que sua genitália é suja ou que o sexo é pecaminoso.

“Costumo perguntar à mulher sobre sua história. Como foi sua primeira experiência com um absorvente interno? Como foi sua primeira experiência sexual? Procuro descobrir se já houve expectativas religiosas ligadas ao sexo ou aos relacionamentos.”

Traumas passados ou outras condições físicas também podem contribuir para o vaginismo, levando a mulher a ficar inquieta quando pensa em penetração ou qualquer espécie de contato sexual. Às vezes não é possível identificar nenhuma causa.

Mas, disse Rowen, os diagnósticos de vaginismo e outros tipos de dor pélvica vêm ficando mais específicos à medida que os médicos vão destacando suas complexidades singulares.

Como Tara Langdale-Schmidt, muitas outras pacientes apresentam vaginismo em conjunto com outra condição. Algumas mulheres podem ter problemas semelhantes, mas que recebem tratamentos totalmente diferentes.

As duas especialistas concordam: é importante obter um diagnóstico cuidadoso.

Chegando à raiz de outras causas da dor

Os médicos precisam examinar o tipo de dor para determinar qual pode ser o problema. “Muitas pacientes são encaminhadas diretamente para a fisioterapia”, disse Rowen.

“Mas uma dor que queima perto da entrada vaginal é diferente de uma dor aguda em uma área mais profunda ou mais alta.”

Se há dor ardente na área da entrada da vagina ou se há um rasgo, o problema pode ser uma vestibulite vulvar – aquilo que Tara sofreu ―, que exige a aplicação de um esteroide tópico.

Uma queda no nível de estrogênio, como o que ocorre na menopausa ou após o parto, pode levar a uma irritação provocada por falta de lubrificação, e o tratamento adequado pode ser um hormônio tópico.

Quando a dor é mais aguda e ocorre com a penetração, pode haver um problema de origem muscular ou um prolapso. Uma dor profunda pode ser sinal de endometriose, especialmente se houver sintomas como menstruações muito abundantes.

A fisioterapia do assoalho pélvico pode ou não ser indicada para esses problemas, mas eles também podem requerer vários outros tratamentos, além de orientações táticas para a prática do sexo. Estas podem incluir exercícios, medicamentos tópicos e treinamento.

“Para algumas mulheres, a solução pode ser simples: elas podem precisar ficar mais excitadas, mais descontraídas e mais lubrificadas”, disse Rowen. “Ou seja, podem precisar de mais preliminares.”

Mas se o médico determinar que existe vaginismo, disse Rowen, a fisioterapia do assoalho pélvico será o elemento fundamental do tratamento.

Tratando o vaginismo com fisioterapia

Tara Langdale-Schmidt experimentou vários tratamentos para o vaginismo, desde injeções de lidocaína (dessensibilizantes) até cremes caros. Nada teve um efeito milagroso até ela fazer a fisioterapia do assoalho pélvico. 

Pagliano disse que o que diferencia a fisioterapia é que as pacientes passam muito mais tempo com ela do que com um médico durante uma consulta médica – em média 45 a 60 minutos por sessão, e as sessões se repetem regularmente.

“É um tratamento baseado numa colaboração”, explica. “Trabalhamos com ginecologistas e, muitas vezes, com psicólogos ou terapeutas. Mas como fisioterapeutas, conhecendo a paciente a fundo, avançamos no ritmo dela.”

Trabalhamos com ginecologistas e, muitas vezes, com psicólogos ou terapeutas. Mas, como fisioterapeutas, ficando conhecendo a paciente a fundo e avançamos no ritmo dela.Pagliano

O trabalho com cada paciente começa lentamente. A paciente pode ser examinada ou não na primeira sessão – geralmente isso vai depender dela, segundo Pagliano, que destaca a ligação entre corpo e mente frequentemente e desde o início do trabalho.

“Quero que a mulher preste atenção à sua respiração e a como ela segura a tensão em seu corpo”, ela explicou. “A partir disso, ela percebe onde está segurando tensão na região pélvica.”

Outra peça do quebra-cabeça é familiarizar-se com seu próprio corpo. Uma fisioterapeuta pode ensinar a paciente sobre a anatomia sexual feminina e os diferentes grupos musculares. “Para começar, levo a paciente a tomar consciência dos músculos, por exemplo quando está inserindo um absorvente interno”, disse Pagliano.

Os exercícios podem ensinar a paciente a relaxar e contrair músculos, permitindo um controle maior da região pélvica, disse Pagliano. Terapia manual pode massagear e alongar os músculos do assoalho pélvico. A fisioterapia também inclui a introdução de dilatadores, que ajudam a mulher a aprender a relaxar seus músculos de modo a facilitar a relação sexual.

O caminho para a recuperação plena

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A definição de vaginismo mudou muito ao longo dos anos, passando do âmbito psicológico para o físico.

Pagliano disse que algumas pacientes têm resultados positivos, com menos dor na relação sexual, após quatro a seis semanas de fisioterapia. Para outras, pode levar dois anos ou até mais. A condição de cada pessoa é diferente, assim como o caminho para sua cura. Por isso mesmo é aconselhável não criar expectativas excessivas.

“A fisioterapia do assoalho pélvico é uma ótima oportunidade para ouvir e compartilhar”, falou Pagliano. “Em última análise, ajudamos a paciente a montar um quadro completo, a ter uma visão abrangente do funcionamento de seu sistema.”

Depois de muita pesquisa para definir o que poderia funcionar melhor para tratar seu vaginismo e sua vestibulite vulvar, os dilatadores acabaram sendo o elemento crucial para a recuperação de Tara Langdale-Schmidt.

“Pareciam ser um tratamento seguro e promissor, e eu apostei neles”, ela recorda. Tara disse que você pode procurar a seção de Saúde da Mulher no site da APTA e o site da Herman & Wallace para localizar uma fisioterapeuta do assoalho pélvico que atende em sua região.

É indispensável pesquisar muito e conversar com seu médico para ter a certeza de fazer o tratamento mais adequado. Outra coisa indispensável é envolver seu companheiro, para que ele também entenda sua condição.

“Lembre que você é importante, você vale muito”, disse Tara. “Você não está inutilizada. Você tem importância.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.