ENTRETENIMENTO
13/06/2019 08:17 -03

Com 'Dor e Glória', Almodóvar se reafirma como um dos grandes mestres do cinema

Filme com tons autobiográficos mostra que o diretor espanhol refinou a fórmula do melodrama a tal ponto que criou um novo gênero.

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Antonio Banderas como o diretor em crise Salvador Mallo, alter-ego de Pedro Almodóvar.

Entre os muitos significados da palavra “mestre”, há duas definições que são precisas para classificar Pedro Almodóvar: “indivíduo que possui o domínio de uma arte, ciência ou técnica” e “artista cujas obras se distinguem de outras de seu tempo e lugar por seu estilo característico”.

Como poucos cineastas na atualidade, o espanhol alcançou tal nível de excelência e características inconfundíveis em seu ofício, que pode, sim, ser considerado um dos grandes mestres do cinema. Domínio que ele mostra, mais uma vez, com seu novo filme, Dor e Glória, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (13). 

Nele, Almodóvar constrói, como o artesão habilidoso que é, um retrato sobre ele mesmo e o seu grande amor: o cinema. Em Dor e Glória, aliás, tudo é cinema e cinema é tudo. Desde a meticulosa escolha das cores que envolve seus personagens, dando-lhes uma profundidade que vai muito além do texto e das atuações, até a noção metalinguística que une realidade e ficção como elementos inseparáveis de uma mesma história.   

Em certo ponto da trama, um personagem (que é um ator interpretando um ator), apresentando uma peça (dentro de um filme) diz um texto sobre um homem - o diretor alter-ego de Almodóvar - que não conseguiu manter seu relacionamento vivo pelo vício de seu companheiro: “O amor não foi suficiente para salvá-lo, mas o cinema me salvou.”

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Salvador (Antonio Banderas) se reencontra com um velho conhecido, Federico (Leonardo Sbaraglia). 

Dor e Glória retrata uma fase da vida de Salvador Mallo (Antonio Banderas), um cineasta que já viveu seus dias de glória, mas que está há anos sem filmar, consumido por dores físicas e psicológicas.

Quando ele é convidado a apresentar um de seus filmes mais famosos em uma cinemateca de Madri, Salvador procura o protagonista do filme, Alberto Crespo (Asier Etxeandia) para acompanhá-lo. O problema é que ele não fala com Crespo há 35 anos por não ter gostado de sua atuação no filme.

No encontro, Salvador vê que Crespo ainda mantém seu vício em heroína e decide experimentar a droga. Em suas “viagens”, ele volta ao passado, aos anos 1960, quando era um menino pobre muito ligado a sua mãe, Jacinta (Penélope Cruz).

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Salvador (Asier Flores) ainda criança, com sua mãe Jacinta (Penélope Cruz) e seu pai.

Dor e Glória não traz nada de novo no que se refere aos temas de Almodóvar, como o amor pelo cinema, seu encanto pelas mulheres, o despertar do desejo, a homossexualidade... Todos estão lá, embalados na estrutura de melodrama que há décadas se faz presente em seus filmes.

Porém, a cada nova produção, o espanhol mostra que conseguiu refinar essa fórmula a tal ponto que descobriu um novo gênero: o do melodrama minimalista. Seus dramas são contidos sem que a emoção demonstrada na tela perca intensidade. Ela explode em cores e sensações, mas não caem nunca no exagero. Coisa de mestre.