NOTÍCIAS
28/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 28/08/2020 09:08 -03

Os republicanos que estão de olho nas eleições de 2024 podem ter que encarar mais um Donald Trump

Na campanha de Trump, Donald Trump Jr. é o centro das atenções (depois do pai, é claro).

PHOENIX, Arizona — Enquanto os republicanos interessados em uma candidatura à presidência depois da era Donald Trump avaliam os possíveis rivais, surge um nome que poderia complicar todo esse planejamento: outro Donald Trump.

No momento em que o Partido Republicano oficializa o presidente para o segundo mandato, alguns membros do partido já estão pensando em 48 meses mais adiante, nas eleições de 2024. Tom Cotton, do Arkansas; Ted Cruz, do Texas; e Josh Hawley, do Missouri, são apenas alguns dos senadores que estariam de olho na candidatura, assim como Marco Rubio e Rick Scott, da Flórida, e vários governadores republicanos.

No entanto, como Donald Trump ganhou mais importância até mesmo que os princípios básicos do partido, os defensores mais fiéis do presidente poderiam muito bem apoiar o filho mais velho dele, Donald Trump Jr.

Em um comício no Veterans Memorial Coliseum no final de fevereiro, Trump Jr. e a namorada, Kimberly Guilfoyle, foram, sem sombra de dúvidas, os mais ovacionados entre todas as pessoas que se apresentaram antes do presidente, e chegaram até a receber longos aplausos enquanto caminhavam em direção às câmeras para dar entrevista.

Logo depois, quando Trump entrou no palanque, o público de 15 mil pessoas começou a gritar “46”, fazendo referência ao próximo presidente (Trump é o 45º presidente dos Estados Unidos). Trump Jr. sorriu, mas não desencorajou os gritos. 

Primeiro, vamos nos concentrar em 2020. Foco, gente! Mas eu agradeço muito.Donald Trump Jr, em comício

No dia seguinte, ele e Guilfoyle participaram de um comício em Las Vegas, e mais uma vez fizeram sucesso. “Ele tem muita energia no palanque”, explica Michael McDonald, chefe do Partido Republicano de Nevada.

“Com certeza eu votaria nele”, diz Lou Woodward, de 57 anos, que tem uma empresa de construção em Massachusetts e viu Trump Jr. abrindo o comício para o pai em Manchester, New Hampshire, no começo de fevereiro. “Se ele for um pouquinho parecido com o pai, já será fantástico”, conclui.

“Filho de peixe, peixinho é”, diz a aposentada Linda Payette enquanto espera na fila para entrar na arena de hóquei da Southern New Hampshire University. “Eles são reais, não ficam tentando suavizar as coisas”, completa ela.

Drew Angerer via Getty Images
Donald Trump Jr. em um comício em Southern New Hampshire, em fevereiro. 

Além disso, como os comícios presenciais praticamente não existem mais, Trump Jr. ganhou ainda mais presença na campanha de reeleição. Ele apresenta um programa semanal on-line transmitido ao vivo e costuma aparecer bastante na Fox News.

Segundo McDonald, é bem provável que o filho tente seguir o caminho do pai. “Com os seguidores que ele conseguiu, não seria nenhuma surpresa. Ele tem tudo para fazer muito sucesso, tenho 1.000% de certeza”, diz ele.

Ainda assim, segundo John Ryder, ex-membro do Comitê Nacional Republicano do Tennessee, o presidente e sua família podem ter objetivos totalmente diferentes dos eleitores republicanos. “Jeb Bush foi uma péssima ideia, Hillary Clinton também, e Donald Jr. é uma péssima ideia pelo mesmo motivo. O público americano não gosta de dinastias. Acho que seria muito difícil vender essa ideia para o povo dos Estados Unidos”, explica ele.

Trump Jr., que tem 42 anos e trabalha na empresa do pai, a Organização Trump, se recusou a responder perguntas na semana passada. “Falem com a minha equipe”, disse ele, mas não explicou que “equipe” seria essa e simplesmente desligou.

No entanto, Rick Wilson, consultor republicano na Flórida, conhecido pelas críticas ao presidente, afirma que os colegas de partido que pensam que vão conseguir retomar o controle depois que Trump deixar a Casa Branca estão muito enganados.

“O império dos Trump está apenas começando. O presidente vai dizer algo do tipo: ‘Donald J. Trump Jr., meu filho e herdeiro, é o único que pode seguir os meus passos’. Agora, eles são uma força política de dinastia. É a dinastia dos imbecis”.

A reforma do Partido Republicano por Trump

O Partido Republicano estava em uma encruzilhada quando Trump assumiu o controle em 2016. Segundo uma análise da derrota do candidato Mitt Romney, em 2012, feita pelo próprio partido, os republicanos tinham perdido pelo voto popular em cinco das seis eleições presidenciais mais recentes. A recomendação foi uma campanha agressiva para atingir o público latino e outras minorias e tornar o partido mais competitivo para o futuro não muito distante, em que as pessoas brancas não serão mais maioria no país.

No entanto, Trump, um apresentador de reality shows que nunca tinha sequer exercido cargos políticos locais antes de concorrer à presidência contra outros candidatos considerados fortes, foi pelo caminho oposto. Ele apelou para o ressentimento branco e contestou questionamentos raciais em alto e bom som, coisa que seus antecessores republicanos só faziam de forma velada desde 1968.

“Foi a campanha racial mais aberta de um presidente desde Andrew Johnson”, conta Stuart Stevens, consultor republicano que publicou recentemente o livro “It Was All a Lie”, a história de como o partido utiliza a “Southern Strategy” (estimulação do racismo para vencer as eleições), criada por Richard Nixon, há pelo menos cinquenta anos. “A campanha de Trump foi abertamente baseada no ressentimento racial. Ele foi além da Southern Strategy e incluiu o ódio e o medo contra muçulmanos, latinos e negros”.

Não demorou para Trump garantir o voto do segmento do eleitorado republicano que estava muito preocupado com as mudanças demográficas nos Estados Unidos. Assim, com base nesse grupo, ele acabou conseguindo a indicação para a candidatura, enquanto os eleitores restantes estavam divididos entre uma dúzia de republicanos mais tradicionais.

Com a vitória inesperada de Trump, vários líderes do partido, responsáveis pela análise feita em 2012, decidiram que talvez ele tenha encontrado um caminho melhor para conseguir a maioria dos votos: apelar para os eleitores brancos, da classe trabalhadora, nos estados do norte e do centro-oeste do país.

Em uma entrevista anônima, um dos líderes da Convenção Nacional Republicana afirmou que, com Trump, o partido abandonou algumas ideias que defendia há muito tempo, como livre comércio e alianças próximas com os países da Otan Ele também disse que Trump, diferente de outros candidatos republicanos, realmente exerce o cargo de presidente. “Nosso objetivo era vencer e vencemos”, disse ele ao HuffPost em 2017.

Desde então, o domínio de Trump sobre o partido não parou de aumentar. Os republicanos vivem com medo de que Trump faça alguma observação ou algum post no Twitter falando mal deles, porque ele ainda tem muito poder sobre os apoiadores. Nos níveis local e estadual do partido, ativistas republicanos de longa data foram expulsos e substituídos por partidários de Trump. Além disso, a Convenção Nacional Republicana acabou se tornando basicamente uma extensão dos negócios da família Trump e uma fonte de renda para os filhos dele.

OLIVIER DOULIERY via Getty Images

Uma empresa de propriedade de Brad Parscale, fundada pela Convenção Nacional Republicana e pelo fundo de campanha de Trump, paga secretamente um salário de US$ 15 mil por mês a Guilfoyle e a Lara Trump, esposa de Eric, filho do meio do presidente. Além disso, a Convenção Nacional Republicana comprou grandes quantias de livros escritos por Trump Jr. para entregar como recompensa aos doadores, gerando uma renda de dezenas de milhares de dólares para ele.

A campanha de Trump e seus dois comitês de arrecadação de fundos também gastaram US$ 6,9 milhões em hotéis de Trump desde que ele tomou posse em 30 de junho, ainda que eles costumem ser bem mais caros que os concorrentes nas mesmas regiões, colocando o dinheiro dos doadores direto no bolso de Trump.

A Convenção Nacional Republicana disse ao HuffPost que isso acontece porque eles adoram se hospedar nos hotéis de Trump.

“Já não é mais um partido, é uma seita”, comenta Joe Walsh, republicano e ex-membro do Congresso que concorreu com Trump para ser candidato a presidente em 2020.

Outro Trump em 2024?

Agora, a pouco mais de dois meses das eleições, o Partido Republicano enfrenta uma crise existencial. Uma vitória de Trump poderia consolidar ainda mais o domínio dele sobre essa organização de 166 anos, facilitando que ele escolha o próprio sucessor, e o filho com certeza seria uma das opções.

“Donald Jr. seria o favorito para a candidatura”, diz Stevens, que trabalhou nas campanhas presidenciais de George W. Bush e Mitt Romney.

Ainda que Trump seja derrotado, não significa que o domínio dele sobre o partido terminará. Diferente de outros presidentes que perderam depois de apenas um mandato (o democrata Jimmy Carter e o republicano George H.W. Bush), não há indícios de que Trump possa abandonar a política.

“Ele não vai parar de tuitar, nem de falar. Ele vai aparecer na Fox o tempo todo ou talvez abra um canal de TV”, diz Wilson.

Ele também afirma que os senadores republicanos que falam como Trump e fazem elogios a ele para tentar agradar seus seguidores terão uma grande surpresa. “O panorama será péssimo para quem quiser concorrer com o filho de deus. Esperem só para ver o que acontece. É uma seita familiar”.

Um ex-assessor da Casa Branca prevê uma competição implacável entre a ala de seguidores de Trump (como Cotton e Hawley, por exemplo) e os republicanos mais tradicionais, como Rubio ou Nikki Haley, ex-embaixadora da ONU. “Será como uma guerra civil. Uns vão querer destruir os outros”, disse ele em uma entrevista anônima, acrescentando que duvida que Trump Jr. realmente queira ser candidato. “Ele é inteligente o suficiente para não entrar nessa”.

No entanto, um consultor informal da Casa Branca próximo a Trump diz que com certeza Trump Jr. é uma aposta séria. “Ele é muito bom nisso, e os eleitores gostam dele. Eu não o subestimaria para 2024”, disse ele, também em uma entrevista anônima. “O que podemos fazer? Apresentar Pence ou Rick Scott ou algum velho branco chato e antiquado para perder de lavada? É claro que eu acho que Trump Jr. é uma alternativa”, conclui.

É claro que, dependendo do resultado em novembro, talvez Trump Jr. não seja o único Donald Trump com vontade de se candidatar em 2024.

Brian McDowell, que participou da terceira temporada do reality show “O Aprendiz”, há mais de uma década, e agora vende produtos de Trump nos comícios, diz que se o presidente perder este ano, será apenas outra oportunidade de concorrer mais uma vez.

“E se Trump perder? Com certeza ele vai concorrer de novo depois de quatro anos”, conclui McDowell.