OPINIÃO
28/10/2019 22:20 -03 | Atualizado 29/10/2019 07:42 -03

A Dona do Pedaço é a 'fast novela': Popularesca e descartável, mira sucesso fácil

A trama de Walcyr Carrasco é mal concebida e alinhavada, cheia de furos e incoerências.

Reprodução/TV Globo
Juliana Paes é Maria da Paz, a protagonista da popularesca "A Dona do Pedaço".

Por ocasião do sucesso de O Outro Lado do Paraíso (2018), seu autor, Walcyr Carrasco, na tentativa de justificar as inúmeras críticas que a novela recebeu, afirmou em entrevista ao programa Altas Horas que “escreve para o povo”. Seu atual trabalho, A Dona do Pedaço, vai chegando ao fim repetindo tanto os altos números de audiência da novela anterior — as duas estão entre as de maior Ibope da década — quanto a enxurrada de críticas, do roteiro ao texto, vindas da mídia especializada e das redes sociais.

Dizer que A Dona do Pedaço é popular é uma redundância, pois parte-se do princípio de que toda novela é popular. Na realidade, A Dona do Pedaço vai além: é popularesca. Não no sentido do mau gosto ou da produção barata, que geralmente caracteriza os programas popularescos da TV, mas no que concerne a sua narrativa — simplória, direta, didática, infantil às vezes, superficial, sem camadas, que não permite a reflexão ou o raciocínio crítico. Pensada, portanto, para atingir o maior público possível da maneira mais fácil. 

Se o popular é caracterizado pela livre manifestação do povo sem amarras das normas eruditas, o popularesco — no entretenimento — visa somente ao fácil e rápido consumo momentâneo da massa para fins lucrativos. Ainda mais se considerarmos que A Dona do Pedaço é um case de sucesso de faturamento comercial para a emissora, tendo sido, inclusive, seus limites entre novela e intervalo comercial ultrapassados.

Antes da estreia da novela atual, Carrasco afirmou que seu ponto de partida foi Mildred Pierce, cuja versão cinematográfica de Hollywood (de 1945) já inspirara a trama central da clássica Vale Tudo (1988). Passados mais de cinco meses da estreia de A Dona do Pedaço, vemos que os rumos se distanciaram bastante de sua fonte inspiradora e pouco da trama se assemelha com “o filme, o livro, o disco”...

Também em quase nada A Dona do Pedaço lembra Vale Tudo. Diferente desta — hoje uma referência em teledramaturgia —, a novela de Walcyr Carrasco não deixará frutos para a posteridade ou alguma relevância artística (como manifestação de arte popular). Se Raquel e sua filha Maria de Fátima (Regina Duarte e Glória Pires) foram personagens ricas em uma trama bem desenvolvida e carregada de crítica social que marcou a história da TV brasileira, não se pode dizer o mesmo de Maria da Paz e Josiane (Juliana Paes e Agatha Moreira), protagonistas sem nuances de uma trama mal concebida e alinhavada, cheia de furos e incoerências.

Walcyr Carrasco alardeou que concebeu esse sucesso em apenas duas semanas. A pressa é o que define A Dona do Pedaço: uma “fast novela”, uma “novela express”, feita sem muito cuidado e planejamento para o consumo rápido do público. Pronta para o sucesso descartável.

Personagens de perfis rasos, sem profundidade psicológica, de atitudes e falas infantis — como Vivi Guedes, Fabiana, Agno, Abel, Britney e vários outros —, em diálogos repetitivos e pobres intensificam a sua proposta popularesca: fisgar a grande massa sem exigir nada dela, a não ser a audiência passiva. 

Para isso, Carrasco exerce a sua admirável habilidade em prender o público. Porém, valendo-se de recursos baixos: como os temas espinhosos lançados no puro intuito de chamar a atenção, sem a menor sutileza e cuidado no desenvolvimento (homossexualidade, transexualidade, pedofilia, sociopatia, vício em jogo, desrespeito a professores), e o apelo cômico dos velhos programas de humor ultrapassado — como o que se viu no Best Cake, o reality de culinária dentro da novela. A “cereja do bolo” (não resisti) foi a torta na cara.

Sucesso indiscutível, A Dona do Pedaço atesta a eficiência do apelo popularesco para atingir o máximo de audiência. A escolha por Walcyr Carrasco é a mais acertada quando não se quer correr riscos no horário mais visado, mais visto e de maior faturamento da TV brasileira.

O bom é que a emissora dá outras possibilidades. Lança A Dona do Pedaço, mas também oferta biscoitos finos, como Bom Sucesso e Éramos Seis: essas sim, novelas populares e relevantes, sem apelar para o popularesco.

Nilson Xavier assina esta coluna no HuffPost. Siga nosso colunista no Twitter e acompanhe seus melhores conteúdos no site dele. Também assine nossa newsletter aqui com os melhores conteúdos do HuffPost.