OPINIÃO
22/11/2019 22:26 -03 | Atualizado 22/11/2019 22:26 -03

A Dona do Pedaço fez sucesso com texto e trama fora do 'padrão Globo de qualidade'

Circo de Walcyr Carrasco alcança êxito com história manjada e inverossímil, texto tatibitate e personagens rasos.

Miguel Júnior/TV Globo
Juliana Paes protagonizou A Dona do Pedaço como Maria da Paz.

A “política do pão e circo” é atribuída a governos que, com a intenção de manter a ordem estabelecida, oferecem ao povo o básico de alimentação (o pão) e muita diversão (o circo). A Globo não pretende alimentar o povo. Muito pelo contrário, seu objetivo é estimular o consumo. E, para isso, vive de oferecer o circo (diversão). Várias de suas atrações são de qualidade e valor reconhecidos e inquestionáveis. Outras são o circo puro e simples, ainda que seguindo um padrão de qualidade estabelecido. É preciso diversão para todos os gostos, para atingir o máximo de público possível.

O novelista Walcyr Carrasco segue a fórmula do circo com muito êxito. Abusou dela desde a sua estreia no horário das nove da Globo (o de maior audiência e faturamento), com Amor à Vida, em 2013. Seguiram-se O Outro Lado do Paraíso (2017-2018) e, agora, A Dona do Pedaço, finalizada nesta sexta-feira (22). São novelas em que o espetáculo vale mais que o roteiro bem elaborado e personagens com alguma profundidade. É uma receita: histórias muito simples feitas apenas para desopilar, que seguram a audiência com catarses fáceis e que não exigem nada do público. Raciocínio e reflexão, nem pensar!

Para a Globo, A Dona do Pedaço é muito mais do que um êxito de audiência: é um grande sucesso de faturamento. As inovadoras ações de merchandising inseridas na novela (em que, pela primeira vez, personagens de ficção fundiram-se e confundiram-se com a realidade) abrem caminho para um novo panorama no setor.

No Ibope, a trama de Walcyr Carrasco — que fecha com uma média de 36 pontos na Grande SP — só não bateu a última do autor. Seguem as médias de audiência das últimas produções das nove: A Dona do Pedaço 36, O Sétimo Guardião 29, Segundo Sol 33, O Outro Lado do Paraíso 38, A Força do Querer 35.

A maestria de Carrasco em cativar o público com suas tramas merece elogios. O único presente em todos os horários da Globo, ele é o mais prolífico dos roteiristas, sempre alcançando ótimos resultados. Daí a preferência de Silvio de Abreu (diretor de dramaturgia da emissora) pelo autor, como uma espécie de coringa, a estancar audiências em queda.

A Dona do Pedaço foi a estratégia para que Manuela Dias estreasse com certa folga no horário nobre (com Amor de Mãe). A autora novata deveria entrar após O Sétimo Guardião, porém, diante do fracasso desta trama, Abreu resolveu adiantar a novela de Carrasco, a fim de salvar o horário, para que só depois viesse Manuela.

Sábia decisão. A Dona do Pedaço aumentou em sete pontos a audiência do horário nobre — cada ponto na Grande SP corresponde a 73.015 domicílios com TV (Kantar Ibope).

Não é por acaso que nenhuma grande interpretação se viu na novela. Não por culpa do elenco, logicamente, mas por causa dos personagens sem camadas e do texto repetitivo.
Reprodução/TV Globo
Jô e Fabiana (Agatha Moreira e Nathalia Dill).

Voltando ao circo

Em meados da década de 1980, a Globo já estava estabelecida como uma das maiores emissoras de televisão do mundo. Muito dessa relevância deveu-se ao “padrão Globo de qualidade”, uma série de diretrizes de produção e administração implantada desde a década de 70 por Boni (José de Oliveira Bonifácio Sobrinho) e outros executivos.

Mesmo quando oferecia o circo puro e simples, a emissora nunca chegou ao patamar alcançado hoje com A Dona do Pedaço. Nos anos 80, roteiros de novelas rasos e pobres eram atribuídos às adaptações que o SBT fazia de textos latinos simplórios, defasados e popularescos, algo que a Globo jamais cogitaria, por ir na contramão de seu “padrão de qualidade”. Vale lembrar que, há 30 anos, a emissora levou ao ar Vale Tudo e Que Rei Sou Eu?, reconhecidamente dois marcos da História de nossa televisão, pelas qualidades de texto e produção e pela audiência alcançada.

Trinta anos depois, muita coisa mudou, no mundo, na sociedade e na televisão. Tampouco as audiências são as mesmas. Nem Boni está mais na emissora.

A Dona do Pedaço tem qualidade de produção inquestionável e um elenco repleto de estrelas - o “verniz”, no jargão dos críticos de TV - o que, à primeira vista, a colocaria acima de qualquer crítica. Porém, nem os mais modernos recursos de produção, aliados a atores do mais alto escalão e à melhor das audiências e popularidade, blindam a novela de Walcyr Carrasco das críticas à história manjada e inverossímil, ao texto tatibitate e aos personagens rasos. Não é por acaso que nenhuma grande interpretação se viu na novela. Não por culpa do elenco, logicamente, mas por causa dos personagens sem camadas e do texto repetitivo e didático.

Reprodução/TV Globo
Vivi e Chiclete (Paolla Oliveira e Sérgio Guizé) em cenas tórridas de amor e sexo.

Desperdício de estrelas

O prólogo da história — que teve a participação de Fernanda Montenegro — foi o melhor que A Dona do Pedaço ofereceu, graças muito à direção e à atuação do elenco — como de Fernanda. Porém, só foi a novela entrar em sua fase definitiva que descambou no que já vimos em trabalhos anteriores de Carrasco. Até a direção - uma vez empolgante na primeira fase - abriu mão de maiores voos e sucumbiu ao texto do autor. Juliana Paes bem que tentou: errou, corrigiu e prosseguiu com sua Maria da Paz, para apenas mostrar um trabalho em que não conseguiu ir além do texto. Paolla Oliveira, Agatha Moreira e Nathalia Dill foram guerreiras, mas suas personagens pareceram de desenho animado.

Aplaude-se Walcyr Carrasco pela iniciativa de sempre incluir em suas novelas atores veteranos — mas a que preço? Marco Nanini, Tonico Pereira, Nathalia Timberg, Ary Fontoura e Rosamaria Murtinho apareceram em tipos muito aquém de suas possibilidades. Betty Faria só ganhou alguma relevância na reta final. Um show de desperdício de talentos. Pelo menos trabalharam, afirmam os mais resignados.

Com uma personagem simpática e que pouco comprometeu, Suely Franco foi das poucas atuações com alguma dignidade. Pobres Rosi Campos (que fez figuração) e Lee Taylor (que, nas últimas semanas, teve de repetir “a casa na floresta” milhares de vezes). Mônica Iozzi poderia render com a divertida Kim, mas não deu.

Visibilidade gay e trans, só que não

As tentativas de Walcyr Carrasco em fazer merchandising social são desastrosas desde Amor à Vida (a única exceção foi com o memorável Félix de Mateus Solano). Personagens autistas, gordos, negros, gays, trans, cegos, anões, etc servem ao roteiro do autor apenas para evidenciar uma “anormalidade”, muitas vezes por meio do escárnio. É uma visibilidade que, em vez de informar, apenas reforça estigmas.

Não há mérito algum em inserir uma personagem trans (Britney de Glamour Garcia) que se casa com um cis (Abel de Pedro Carvalho) e ganha um beijo, quando, por toda a novela, ela serviu apenas como par de um português caricato na intenção de fazer rir ou gerar torcida para um casal tolinho. Visibilidade trans não é a trans aparecer na novela das nove. É, no mínimo, mostrar a personagem com naturalidade, e não como alívio cômico — o que já é ultrapassado para gays de programas humorísticos.

Artur Meninea/TV Globo
Britney e Abel (Glamour Garcia e Pedro Carvalho).

Tampouco representa alguma contribuição mostrar Agno e Leandro (Malvino Salvador e Guilherme Leicam) como gays heteronormativos, que fogem do estereótipo da bicha caricata, se os dois passaram a novela inteira como assexuados, sem direito a beijo ou demonstrações de afeto, enquanto o casal hétero Vivi e Chiclete viveu cenas calientes em motéis.

Claro que não precisa escancarar nada. Não se trata disso. Nem há a obrigação de levantar a bandeira da causa - como fez eficientemente Glória Perez em A Força do Querer, um marco dessa abordagem na televisão. Um bom exemplo é o tratamento conferido à trans da atual novela das sete, Bom Sucesso, vivida por Gabrielle Joie, em que seu gênero quase não é discutido, porque Michelle é tratada com a normalidade que merece, sem piadas de mau gosto.

Religião e fetiche pelo armamento

Apesar de tudo, Walcyr Carrasco está antenado com o Brasil atual. A Dona do Pedaço atendeu a uma parcela do público que não vê problema em normalizar o armamento e a violência, temas muito em voga neste momento. Vide a família de assassinos tratados como “justiceiros” e a romantização do armamento por meio das figuras de Chiclete (Sérgio Guizé) e Leandro (Guilherme Leicam), que, em vez de serem punidos por seus crimes, recebem “o perdão pelo amor”.

Da mesma forma, vilões sucumbem à religião para curar vícios e doenças de comportamento — outra abordagem que vem ao encontro dos anseios de governantes e seus seguidores. Talvez A Dona do Pedaço tenha sido a novela certa para o público certo: aquele que, além de não estar interessado em refletir, vê graça em um português de piada apaixonado pela figura “esdrúxula” (aos seus olhos) de uma trans, e aprova a paixão do matador pela mocinha indefesa à mercê do vilão, que é um policial. Se a polícia não protege, quem protege? O justiceiro, a milícia...

Popularesca, A Dona do Pedaço é uma novela de sucesso, mas com texto, tramas e personagens um tanto fora do que convencionou-se chamar “padrão Globo de qualidade”. Penso que, nos anos 80, Walcyr Carrasco não passaria do horário das seis - faixa em que o autor já apresentou novelas muito melhores e com audiência igualmente nas alturas: O Cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea e Êta Mundo Bom.

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