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18/09/2019 08:27 -03 | Atualizado 18/09/2019 08:27 -03

Dominic Cummings pode moldar o Brexit e a eleição antecipada no Reino Unido

Vale ficar de olho: Um deputado conservador o descreveu como “sujeito tosco e boca-suja que ninguém elegeu”.

Um deputado conservador o descreveu como “sujeito tosco e boca-suja que ninguém elegeu”. O ex-primeiro-ministro John Major disse que ele “um anarquista político que está pouco se lixando para o futuro do partido”. E agora David Cameron lhe deu o epíteto que para ele talvez seja o pior de todos: “bad spad”, em tradução livre “um mau assessor político”.

Sim, Dominic Cummings é um bad spad e uma pessoa perigosa de se conhecer, para parafrasear o novo livro de memórias de David Cameron. No livro, o ex-premiê britânico acusa Cummingsvde transmitir “briefings cheios de fel” à mídia e de “gotejar veneno” nos ouvidos de seu antigo chefe Michael Gove.

Cameron – ele próprio um antigo assessor político especial – relata que ficou totalmente espantado um dia em 2013 quando Gove, incentivado por seu antigo spad, tentou dar para trás de um acordo pelo qual seria transferido do cargo de secretário da Educação para o de chief whip conservador (um whip é um deputado encarregado de assegurar o comparecimento e a disciplina de voto dos outros eleitos pelo partido, em conformidade com as orientações partidárias, e o chief whip é o principal entre os whips).

Sabemos agora que Cameron enviou um torpedo a Gove dizendo: “Faça-me o favor de não ser babaca”. Gove obedeceu, mas está claro que o antigo premiê ainda enxerga Dominic Cummingscomo um exemplo rematado de filho da p...

Associated Press
Dominic Cummings

Para Cummings e seus aliados, todas essas críticas não fazem mais que confirmar que ele está fazendo alguma coisa certa: irritando ao máximo o establishment que ele tanto odeia.

Instalado no mês passado na posição de estrategista e assessor chefe de Boris Johnson, o homem que arquitetou a campanha a favor do Brexit em 2016 hoje tem mais poder nas mãos do que nunca.

Mas, com a Suprema Corte prestes a decidir pela legalidade ou não de uma suspensão do Parlamento por cinco semanas que muitos desconfiam que tenha sido fruto de uma “ideia genial” de Dominic Cummings, seria interessante saber o que pensa de verdade esse independente político de 47 anos.

E que papel ele vai exercer, se é que vai exercer algum, depois do prazo final de 31 de outubro que Boris Johnson se deu para tirar o Reino Unido da União Europeia?

ASSOCIATED PRESS
O ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon.

Alguns deputados britânicos apelidaram Cummings de “o Bannon de Boris”, numa alusão a Steve Bannon, o ex-consigliere de Donald Trump.

Do mesmo modo que Boris Johnson (formado em Oxford, amante dos textos da antiguidade clássica, dotado de memória enciclopédica) é muito mais inteligente que Trump, DominicCummings (formado em Oxford com diploma da mais alta categoria, louco por dados, obcecado por matemática e física) é sob vários aspectos muito mais inteligente que o autodidata Bannon.

Mesmo assim, os dois perturbadores-em-chefe têm vários pontos em comum. Nenhum dos dois esconde a repulsa que sente pelo partido político que governa seu país. Ambos têm um fascínio por revolucionários e por inteligência artificial. E ambos adoram espezinhar seus adversários.

Cummings não é nacionalista branco abertamente racista, como o antigo diretor do Breitbart, mas críticos dizem que o modo como durante a campanha pelo Brexit ele alardeou a possibilidade fantasiosa de milhões de turcos estarem a caminho do Reino Unido mostrou que ele não hesita em ser provocador.

Em novos trechos de seu livro publicados no Sunday Times, David Cameron não mede palavras ao criticar Michael Gove, na época o chefe de Dominic Cummings, por dar rédeas soltas a um “faragista tão incendiário” (faragista: seguidor de Nigel Farage, político britânico de direita, principal proponente do Brexit e atual líder do Partido do Brexit). Diz que Cummings cozinhou “um caldeirão de toxicidade” e que ele e Nigel Farage “possuem um quê das trevas”.

O irônico é que o próprio Cummings encarava Farage como sendo tóxico demais para fazer parte da campanha oficial favorável ao Brexit e insiste que foi precisamente porque a campanha não deixou que Farage a liderasse que ela conseguiu conquistar a adesão de eleitores indecisos.

Mas Cummings está acostumado a ser descrito como gênio do mal, e seus amigos se divertem com alguns cartazes recentes de ativistas anti-Brexit que o mostram com chifrinhos de diabo na cabeça. Um cartaz chegou a usar um meme online de Game of Thrones, com a legenda “Winter is Cummings.

Anúncio Tory no Facebook.

É na internet que Cummings ainda adora se manifestar. Esta semana o Partido Conservador anunciou que vai rever seus anúncios no Facebook, depois de denúncias de que teria deturpado uma reportagem da BBC sobre gastos com a educação.

Enquanto a BBC informou que as escolas britânicas receberiam uma injeção de £ 7 bilhões, o anúncio conservador super impôs uma manchete dizendo que a verba seria um valor recorde, £ 14 bilhões.

Um ex-colega de Cummings fala que, assim como a controvérsia gerada por alegações de que o Tesouro saudaria cigarros e bebidas duty-free após o Brexit, a disputa foi uma controvérsia armada com cuidado para gerar ainda mais publicidade. “Parece uma jogada clássica de Dom”, diz o colega. E o fato de o tema escolhido ter sido a educação não constituiu surpresa, dado que Cummings passara seis anos assessorando Michael Gove, na oposição e no governo, na questão da política educacional.

Quando ele resolve brigar com alguém, é para fins recreativos. Ele curte o que se poderia chamar de brigas com facas.

Na realidade, um antigo insider lembrou de um episódio que não chamou muita atenção na época, mas exemplificou o modus operandi de Cummings.

Enquanto trabalhou para o governo, ele encomendou a produção de um “filme” curto que destacou todas as realizações de Gove como secretário da educação. Como o filme foi feito com dinheiro dos contribuintes, e não do Partido Conservador, Cummings o manipulou intencionalmente para provocar reações de indignação com a politização do governo. Mas a tática não deu em nada nessa ocasião, já que poucas pessoas sequer viram o filminho propagandístico.

Foi durante seu tempo trabalhando no Departamento de Educação que o spad de Michael Gove aprimorou sua abordagem combativa.

Uma vez, quando um estudo especialmente crítico estava começando a fazer manchetes, seus assessores receberam ordens de partir para o ataque e dizer a jornalistas que o estudo não passava de “bobajada histérica”. Em questão de segundos a frase apareceu num canal de TV 24 horas e então o estudo foi rebaixado nos jornais da TV, passando a ser mencionado só de passagem.

“Ele é extremamente focado sobre os objetivos e os resultados, é um sujeito que se concentra exclusivamente sobre suas metas”, diz um ex-colega de Cummings. “Quando ele resolve brigar com alguém, é para fins recreativos.

“Cummings curte o que se poderia chamar de briga com facas. Mas não é alguém que procura confrontos apenas pelo prazer de brigar.”

Bloomberg
Pôsters mostram Dominic Cummings como o diabo do Brexit.

Outros antigos colegas acham que as brigas atrapalhavam o trabalho deles. Sam Freedman, no passado assessor político sênior que trabalhou para Gove, comenta: “Acho que uma das falhas de Cummings é que, mesmo no caso de briguinhas sem importância, ele não consegue deixar quieto.

“É evidente que isso atrapalha o trabalho de tentar empreender uma grande reforma no departamento de educação. E acho que estamos vendo isso acontecer um pouco agora, outra vez. Dominic Grieve (deputado expulso do Partido Conservador por Boris Johnson no início de setembro por ter se oposto à saída britânica da UE sem acordo no dia 31 de outubro próximo) é alguém de quem Cummings realmente não gosta e nunca gostou.

“Acho que Cummings se envolveu na briga com alguns indivíduos, em vez de dar um passo para trás e enxergar o quadro maior.”

Outro ex-colega de Cummings comenta: “A grande pergunta é se ele é um tático fantástico ou se é estrategista também. Ele próprio se enxerga como estrategista.”

Um exemplo disso foi a tentativa fracassada de Cummings de abolir o GCSE (o diploma de conclusão do ensino secundário), colocando em seu lugar uma qualificação para alunos mais adiantados e um exame mais simples para os alunos de aproveitamento acadêmico mais baixo. O plano foi vazado para um jornal dominical britânico, mas em poucos dias a reação contrária explodiu, com críticos avisando que seria o retorno de um sistema de exames em dois níveis.

O então vice-premiê Nick Clegg telefonou a David Cameron para reclamar, e em dez dias o plano inteiro caiu por terra. Cummings ainda acha que o maior erro de Michael Gove foi não levar seu plano adiante.

Mas outras figuras do governo consideram que no final foi seguido um caminho muito mais inteligente. O GCSE foi reformado e ficou mais difícil de conseguir, novas notas foram acrescentadas para os alunos que optam por isso – mas sem que ficasse configurado um exame em dois níveis, com todos os problemas políticos que isso encerraria.

O que é bacana nele é que ele não sente nostalgia nenhuma, ele é totalmente voltado ao futuro.

Um dos grandes sucessos de Cummings foi a criação de escolas especializadas de matemática em Londres e Exeter. Em poucos anos, os alunos dessas escolas já superaram os da maioria das escolas particulares, tanto em seus resultados de exames quanto em admissões em universidades, e as escolas recebem um misto diverso de alunos.

Cummings, ele próprio diplomado em história, contratou um professor particular de matemática para chegar ao nível de pós-graduação nessa disciplina. Ele queria criar uma versão britânica da Escola Kolmogorov de Física e Matemática, de Moscou.

Um colega conta: “Sempre que Dominic estava passando por um momento especialmente difícil, com os problemas no Departamento de Educação se acumulando, a gente o ouvia dizer ‘estou de saída, vou estudar na escola de matemática, depois disso vou ficar bem’. E ele passava três ou quatro horas estudando matemática.

“O que é bacana nele é que ele não sente nostalgia nenhuma, ele é totalmente voltado ao futuro. Ele realmente tem uma visão do Reino Unido como o melhor lugar do mundo para se fazer ciência e estudar.”

Outra proposta de Cummings – um diploma novo de “matemática para o dia a dia” para jovens de 16 a 18 anos, mas que não daria direito ao ingresso numa universidade – não decolou. A ideia era que ajudasse a combater o “analfabetismo em estatística” da sociedade de modo mais geral.

Para algumas pessoas, isso resume as contradições de Cummings: o homem que, para promover seus objetivos políticos, citou o valor bruto em lugar do valor líquido que o Reino Unido repassa à União Europeia por semana (dizendo que o país economizaria £ 350 milhões por semana se saísse da UE, dinheiro que poderia investir no sistema nacional de saúde), é também o homem que quer educar a nação para evitar erros básicos de matemática.

E Cummings sempre se dispõe a comprar uma briga. Nick Clegg comentou certa vez que “é evidente que ele tem uma dificuldade séria em controlar sua raiva”. Em 2014, em comentário que ficaria cérebro, David Cameron disse que Cummings passou de “comentarista político a assessor especial e depois a psicopata profissional”,

Para Freedman, porém, Cummings acertou em muitas coisas. “Acho que ele tem uma compreensão muito arguta das falhas do estado britânico e do porquê de as coisas não funcionarem com eficácia no governo. E isso está por trás de seu desejo de simplesmente jogar por terra muitos dos processos burocráticos confusos que, para ele, atrapalham a tomada de decisões.”

Ele também acha que o sistema de mensagens ministeriais do governo britânico é uma relíquia da era vitoriana, algo com o qual muitos concordariam. Nenhuma empresa privada manda seu CEO para casa no final de cada dia com uma lista de decisões menores que precisam ser tomadas em casa enquanto ele toma alguns copos de vinho, disse Cummings a amigos seus.

Foi também Cummings quem percebeu imediatamente que as chamadas Free Schools, ou escolas livres (financiadas pelo governo, mas que independem das diretrizes e normas dos governos locais) teriam a liberdade de pagar salários enormes a seus diretores e tomou medidas para impedir que isso acontecesse.

Seu dom de prever como o público vai reagir foi ressaltado em 2008. “Dominic percebeu imediatamente, acho que antes de qualquer outra pessoa que eu conhecia em Westminster na época, que o povo ficaria furioso com o escândalo das despesas excessivas de parlamentares”, recorda Freedman.

“Acho que Michael Gove poderia ter tido problemas maiores com essa história se Dominic não tivesse feito muito do que fez para tentar afastar Gove desse escândalo.” (Gove promoveu uma reunião pública em que pediu desculpas aos eleitores de sua base eleitoral de Surrey Heath e devolveu aos cofres públicos algumas das despesas injustificadas principais que tinha cobrado do governo.)

Mas Chris Cook, antigo jornalista do Financial Times que escreveu extensamente sobre a era de Gove e Cummings, diz que o desejo de Cummings de passar por cima do sistema frequentemente entra em choque não apenas com a burocracia, mas também com os freios e contrapesos normais criados para impedir abusos do sistema.

“Acho que desde seus tempos no Departamento de Educação até hoje, Cummings é basicamente alguém que acredita no poder executivo. Ele não se sente na obrigação de obedecer às normas institucionais, como as outras pessoas.

“Acho que ele tem um problema de falta de empatia. Ele tem autoconfiança enorme. Basicamente, ele acha que um argumento que seja convincente para ele será convincente para todos.

“E aliás, acho que é por isso que ele vive perdendo processos na justiça – porque não consegue enxergar as fraquezas de seus próprios argumentos. Além disso, ele não entende as motivações de outras pessoas.”

Olhe para muitos dos heróis intelectuais de Cummings, eram pessoas que não operaram em democracias... pessoas como Bismarck, como Lenin.

Freedman acrescenta: “Quando há barreiras no sistema que não têm razão especial de existir, para conseguir avançar é preciso uma pessoa que acredita em derrubar barreiras.

“Mas às vezes as barreiras estão ali por um motivo. Temos instituições e tradições. Elas podem ser muito frustrantes, mas não são uma mera irritação – são um elemento integral de qualquer democracia moderna. É preciso contar com freios para não deixar que o poder seja irrestrito.

“Acho que se você olha para muitos dos heróis intelectuais de Cummings, eles eram pessoas que não operaram em democracias. Eram pessoas que assumiram muito poder nas próprias mãos.

“Pessoas como [o chanceler alemão Otton von] Bismarck, pessoas como Lenin. Não estou dizendo que Cummings concorde com o que essas pessoas fizeram ou com as ideias deles, mas ele sempre gostou muito do fato de que elas conseguiram passar por cima de um sistema arcaico.”

Pouco depois de começar a trabalhar em Downing Street, neste verão, Cummings queria mostrar que sua intenção de agitar tudo no governo era séria. Ele rapidamente centralizou a rede de assessores especiais, convocando uma reunião para as 7h55 de uma segunda-feira que foi avisada às pessoas apenas na noite anterior.

Um dos presentes àquela primeira reunião recorda que muitos dos assessores jovens evitaram se aproximar dele. “Ninguém queria chegar perto dele. As pessoas realmente pareciam estar com medo dele.”

“Há um círculo interno de tipos pró-Brexit em Downing Street, mas entre outras pessoas, embora elas respeitem Cummings como estrategista, elas não respeitam o estilo dele. Muitas pessoas estão irritadas e magoadas. E há uma rede crescente de ex-spads furiosos com ele – não surpreende, já que muitos foram bloqueados por ele.”

Press Association
O primeiro-ministro Boris Johnson com seu assessor sênior DominicCummings saindo de Downing Street, na zona central de Londres.

Uma fonte bem informada diz que hoje Cummings “desperdiça muito tempo com RH”, incluindo coisas como contratos e aumentos salariais. É claro que foi seu desejo de intervir pessoalmente junto aos assessores especiais que levou ao caso agora infame de como ele demitiu Sonia Khan, a assessora de mídia de Sajid Javid (o atual ministro das Finanças).

Como revelou o HuffPost na época, Khan foi demitida sumariamente e escoltada para fora da sede do governo por um policial armado. “Foi como uma execução pública”, recordou um assessor. “Deixou as pessoas realmente incomodadas.”

Quando se reuniu com Boris Johnson, no dia seguinte, Javid tornou-se o primeiro ministro a prestar uma queixa oficial contra Cummings. O caso de Khan ainda está sendo resolvido, mas parece provável que ela vai sair sem qualquer menção negativa em seu currículo e que receba um abono compensatório.

Em palestra que deu em 2014, quando não estava trabalhando para o governo, Cummingschegou a falar da irritação que sentia com os processos usuais de RH no governo, especialmente os dos funcionários do governo.

“Quase ninguém é demitido, nunca”, ele disse. “Quantas vezes, quando eu estava no Departamento de Educação, a televisão não falava do ‘desastre mais recente de Michael Gove’ ou ‘Gove mete os pés pelas mãos de novo’. E eu olhava pela tela de vidro e via o funcionário responsável pela mancada indo para o elevador, voltando para casa tranquilamente às 15h30, sem se preocupar com nada. Por quê? Por que falhas são vistas como normais, não algo que precise ser evitado.”

“Quando se somam os horários flexíveis, os horários comprimidos e uma cultura na qual é perfeitamente aceitável sair de férias no dia antes de um anúncio no qual você passou os últimos seis meses trabalhando, é muito difícil conseguir reunir todo o mundo numa sala ao mesmo tempo para trabalhar juntos. Tivemos que proibir anúncios nas segundas-feiras porque sabíamos que muita gente não ouviria.”

Também já houve casos em que Cummings transmitiu mensagens ambíguas. Ele disse a seu staff que se eles ou seu ministro achassem que o governo estava cometendo um erro, que lhe dissessem. Qualquer feedback seria incentivado. Desde então, contudo, várias pessoas sentiram que qualquer departamento ou ministro que não cumpra com precisão as ordens emitidas porCummings vai sentir o peso da ira de Downing Street.

Mesmo assim, os admiradores de Cummings dizem que uma grande qualidade positiva dele é que ele não cede quando as situações se complicam.

Na reunião mais recente de assessores especiais, na semana passada, Cummings parecia estar antevendo com prazer a semana seguinte, quando o governo enfrentaria o veredito da Suprema Corte, além de haver anúncios ligados à eleição antecipada previstos para serem feitos.

Cummings chegou a brincar com colegas na sexta-feira, dizendo que se a decisão da Suprema Corte for contrária ao governo, este poderia usar seu poder executivo para suspender o Parlamento de novo.

A divulgação do livro de memórias de David Cameron também já foi levada em conta nos cálculos do assessor principal de Johnson, para quem o ressurgimento do ex-premiê vai lembrar aos leitores por que eles votaram por tirar o país da União Europeia, em primeiro lugar.

O próprio Cummings fez um raro comentário público na semana passada quando jornalistas o emboscaram diante de sua casa: “Vocês deveriam sair de Londres e conversar com pessoas que não são ricas e remainers (a favor de o Reino Unido continuar dentro da UE)”.

Talvez não sejam os remainers, mas os brexiteers (a favor do Brexit) que estejam mais em sua mira nas próximas semanas, se Boris Johnson realmente levar adiante um acordo modificado com Bruxelas.

Cummings nunca se furtou de expressar seu desprezo pelo European Research Group (ERG), uma organização de deputados conservadores de linha dura favoráveis ao Brexit. Em frase que ficou célebre, ele descreveu o deputado David Davis, ex-secretário do Brexit, como “burro, preguiçoso e vaidoso como Narciso”.

Davis rebateu essas críticas com um ataque próprio. “Não foi muito inteligente da parte de muitas pessoas em Downing Street fazerem coisas que são ou imprudentes, ou insensatas ou até arrogantes”, ele me disse.

“Vamos ter uma eleição em tal dia, vamos fazer tal coisa’ – para quê fazer isso? De que serve esse tipo de briefing, exceto para fazer algum spad se sentir importante? Em termos gerais acho que Boris Johnson vem agindo corretamente, mas acho que ele anda tendo alguns problemas causados pelo excesso de falação em Downing Street.”

Davis se nega a fazer comentários diretamente sobre Cummings, mas sua opinião fica clara. “Cummings e eu não somos amigos. Por isso vou recusar o convite para continuar a criticá-lo.

“Um dos lados negativos, lamento dizer, vem sendo o fato de que o próprio governo vem provocando todo tipo de ações desnecessárias, quer seja a expulsão de 21 conservadores do partido, quer seja a opção de suspender o Parlamento. Todas essas coisas foram agravadas pelo fato de Downing Street ter falado delas.”

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Cummings (extrema direita) enquanto Boris Johnson troca um aperto de mãos com o secretário do gabinete sir Mark Sedwill e é aplaudido em seu primeiro dia em Downing Street.

Mas as pessoas que já trabalharam com Cummings acham que este sente que tudo isso vai valer a pena. Se a tentativa de Johnson de chegar à liderança conservadora não tivesse implodido em 2016, o plano tinha sido que Cummings o acompanharia a Downing Street e eles cumpririam imediatamente sua promessa de dar £ 350 milhões por semana ao NHS (o Serviço Nacional de Saúde).

Cummings compartilha com Johnson um sentimento de impaciência, porque, para eles, os últimos três anos quase acabaram com o Brexit.

“Uma coisa que não é suficientemente apreciada é que o Brexit é fruto de anos de trabalho, desde que Dominic fazia parte do Business for Sterling (a organização de 1999 que se opôs à proposta de o Reino Unido adotar o euro como sua moeda).

“Ver tudo isso sendo jogado fora da maneira que o governo de Theresa May parecia estar fazendo, de maneira incompetente, descuidada, indolente – aquilo foi muito grave para ele e para todos que trabalharam na campanha pelo Brexit.

“Mas, depois de ver o Brexit ser entregue aos cuidados de David Davis e Liam Fox, poder agarrar a chance de concretizá-lo foi irresistível.”

O financista milionário e ativista político pró-Brexit Stuart Wheeler foi um dos que ajudouCummings a se envolver no referendo.

Wheeler ainda é admirador tremendo de Cummings, tanto que foi aventado um plano para o chefe do governo “entrevistar” o financista em um evento para o lançamento de sua nova autobiografia, ainda este mês. Não está claro se isso será feito.

Mas para os deputados conservadores, ministros e mesmo algumas pessoas do governo, a grande pergunta que paira no ar é por quanto tempo Dominic Cummings vai continuar presente e se sua política de “terra arrasada” (conforme a descrição feita pelo ex-ministro conservador e atual deputado do Partido Liberal Democrata Sam Gyimah) é sustentável.

Um ex-colega de Cummings comenta: “Para muitos de nós, a pergunta mais interessante não é o que Boris vai fazer a seguir, é qual será o próximo passo de Dominic?”

Uma fonte do governo diz que o modo como o próprio Cummings fala de seu futuro mudou. Inicialmente ele sugeriu que não permaneceria no governo depois de o Brexit ser concretizado, mas depois deu a entender que pode permanecer no longo prazo.

Mais recentemente, algumas pessoas estão achando que seu objetivo real é comandar a campanha de Boris Johnson numa eleição geral a ser marcada. A tentação, para Cummings, seria a possibilidade de vencer, e de modo decisivo.

Mas existe um grande problema, segundo alguns conservadores: sir Lynton Crosby quer retomar sua parceria vencedora com Boris Johnson (eles conquistaram a prefeitura de Londres duas vezes juntos).

No momento, haveria um impasse entre Crosby e o ex-chefe da campanha do Brexit para decidir quem será o comandante da campanha de Johnson na eleição antecipada.

Para um ex-ministro, o argumento contra Cummings é evidente: “Ele não venceu o referendo – ele sujou o referendo. Migrantes turcos? Promessa de £350 milhões por semana estampada nas laterais dos ônibus? Tudo isso foi ideia dele.”

Outros dizem que Cummings, que tem um problema de saúde mas adiou seu tratamento para cumprir seu papel em Downing Street, poderá se afastar e apenas oferecer conselhos sob medida, quando forem precisos. Mas uma fonte conservadora diz que Cummings adoraria a oportunidade de comandar a campanha.

Falando reservadamente, alguns deputados conservadores torcem para Cummings terminar como Steve Bannon, exilado do poder depois de extrapolar seu papel.

O que mais os preocupa é o descaso evidente com que Cummings encara o Partido Conservador. Em seu blog post pessoal final antes de entrar para o governo este ano, Cummings escreveu que um segundo referendo sobre a saída britânica da UE seria “muito possível” em 2020.

E, ele avisou, um novo referendo “pode funcionar como a plataforma ideal para o lançamento de um novo tipo de entidade, entre outras razões porque é muito possível que o Partido Conservador deixe de existir de qualquer modo significativo (quer haja ou não um novo referendo)”.

Se o governo de Boris Johnson vai continuar a existir de qualquer modo significativo nas próximas semanas é algo que pode muito bem depender do próximo passo de Dominic McKenzie Cummings.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.