ENTRETENIMENTO
12/11/2019 15:46 -03 | Atualizado 14/11/2019 10:59 -03

'Todos nós já fizemos burradas na vida', diz Fernando Meirelles sobre o papa Francisco

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, diretor fala sobre o filme "Dois Papas", perdão, sua admiração pelo papa e a polêmica sobre Netflix no cinema.

Inspirado em fatos reais, Dois Papas, filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus) que estreia no catálogo da Netflix no dia 20 de dezembro, faz uma reflexão sobre um momento único da História da Igreja Católica: a primeira vez em que um papa, no caso Bento XVI, renunciou.

Com roteiro do neozelandês Anthony McCarten (O Destino de uma Nação, Bohemian Rhapsody), o filme utiliza algumas situações que realmente aconteceram na vida real para imaginar um hipotético encontro entre o alemão Joseph Ratzinger (Anthony Hopkins) - que viria a se tornar Bento XVI - e o argentino Jorge Mario Bergoglio (Jonathan Pryce) durante o conclave de 2005, após a morte de João Paulo II.

É nesse momento, aliás, que Bergoglio precisa lidar com um fantasma que o assombrava há décadas. Ele perdeu a disputa para o conservador Ratzinger por conta da circulação de um dossiê que apontava sua conduta questionável durante o período da ditadura militar na Argentina.

Segundo seus acusadores, em 1976, Bergolio não teria protegido dois sacerdotes jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, que, segundo o governo da época, usavam o trabalho social em comunidades carentes de Buenos Aires para doutrinar fiéis. Eles terminaram sendo sequestrados e foram torturados por quatro meses. 

Peter Mountain/Divulgação
Fernando Meirelles dirige o ator britânico Jonathan Pryce em "Dois Papas".

“O filme é muito honesto. Ele fala tanto da Igreja conservadora quanto da reformista mostrando os podres. O papa Francisco tem um peso no passado muito grande. Algo pelo qual a esquerda na Argentina não o perdoa. O filme mostra isso. Mas o tema central é o perdão. Talvez por isso o filme esteja funcionando tão bem, porque todos nós fizemos grandes burradas na vida, mas a gente tem que perdoar as pessoas e a nós mesmos”, disse Meirelles em entrevista exclusiva do HuffPost.

A renúncia de Bento XVI, que aconteceu em fevereiro de 2013, foi o estopim para uma mudança radical nos rumos da igreja. Cada vez mais afastado de questões urgentes do mundo moderno e mergulhado em escândalos sexuais e financeiros, ao Vaticano só restava optar por um substituto liberal e progressista. E o escolhido não poderia ser outro que não Bergoglio, que em março de 2013 se tornou o papa Francisco, o primeiro pontífice não europeu em mais de 1.200 anos.

Com um discurso bem mais autocrítico sobre a Igreja que seus antecessores, Francisco se tornou uma figura extremamente popular e iniciou um processo de retomada dos fiéis, que estavam se afastando da fé católica. Porém, sua visão liberal e suas posições diretas contra injustiças sociais também geraram uma pressão conservadora contrária com a qual ele precisa lidar constantemente. 

“Hoje eu entendo muito mais como ele [papa Francisco] não pode fazer o que ele quer. Como aquele mundo onde ele está inserido, por mais que ele tente sair dali, ele está preso naquele sistema. Mas continuo admirando ele. Ele é uma das poucas vozes que enxerga o mundo como uma coisa só, que é de todos nós. Ele é contra essa ideia de nacionalismo, de muros, de ‘meu país’, ‘eu primeiro’... Ele faz um discurso muito contra o sistema econômico que está destruindo o planeta e está construindo duas sociedades, uma muito rica e uma muito pobre. Sou muito alinhado com o que ele diz”, diz Meirelles.

Dois atores

Divulgação
Anthony Hopkins e Jonathan Pryce são grandes apostas para o Oscar em 2020.

Mesmo longe de ser uma unanimidade, Dois Papas vem ganhando críticas bem favoráveis, principalmente por conta de seus protagonistas. Tanto que Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão muito bem cotados para constar na lista final dos concorrentes ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante em 2020.

“Eu já tinha trabalhado com o Anthony Hopkins e a gente tinha se dado muito bem. Ofereci o papel e ele topou. Ele é impressionante. Já o Pryce, cheguei nele pela razão obvia dele ser fisicamente parecido com o papa Francisco. Ele não é um nome tão grande quanto o Hopkins, mas ele entregou tudo. Talvez tenha sido uma das melhores atuações da vida dele.”

A polêmica das salas de cinema

Divulgação
"Dois Papas" será exibido em salas de cinema no Brasil, mas a data ainda não é confirmada pela Netflix.

Além de todas as questões delicadas em que toca, Dois Papas também está inserido em outra grande polêmica: afinal, a Netflix é cinema ou televisão?

A empresa já confirmou que o filme de Meirelles ganhará exibições especiais em algumas salas de cinema do País — ainda sem data definida — antes de estrear na plataforma, mas isso não é uma regra para grande parte de suas produções.

“Isso é uma falsa polêmica. Esse filme [Dois Papas], por exemplo. Ele vai acabar na plataforma, mais ele está indo para 37 festivais, já ganhou até alguns prêmios, inclusive, vai entrar em cartaz aqui no Brasil e no mundo inteiro de duas a três semanas e depois, quando o filme ainda está quente, ele entra na plataforma e as pessoas podem assistir na TV. É o melhor dos mundos. Ele vive os festivais, nas salas de cinema e nas casas. E se vai bem na plataforma, pode continuar nas salas. Essa polêmica não existe”, conclui o cineasta.