MULHERES
20/10/2020 04:00 -03 | Atualizado 20/10/2020 04:00 -03

8 filmes e documentários para entender o que é o movimento feminista (e por que ele é importante)

“Infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas mulheres às vezes não são nem mulheres, para falar o português claro”, disse o jogador Robinho em entrevista.

A luta das mulheres por autonomia, emancipação, direitos e uma vida sem violência atravessa séculos e é amparada pelo movimento feminista. Ao longo dos anos, este caminho mexeu com estruturas de poder e, talvez, por isso, gere tanto incômodo, inúmeros estereótipos e rejeição de homens e mulheres.

O exemplo mais recente de desinformação sobre o movimento foi uma fala do jogador de futebol Robinho, em entrevista ao UOL, neste fim de semana.

Condenado em primeira instância na Itália pelo estupro coletivo de uma jovem albanesa, ele teve seu contrato suspenso pelo Santos na última sexta-feira (16), após pressão do movimento feminista e, em especial, de patrocinadores. “Infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas mulheres às vezes não são nem mulheres, para falar o português claro”, disse em entrevista ao site.

Diferentemente do que o atleta disse, com certo incômodo, segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa a palavra “feminismo” significa “teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos”.

Victor Moriyama via Getty Images
Vários grupos feministas protestam contra o governo e por direitos durante uma grande marcha no Dia da Mulher, celebrado em 8 de março.

Há também quem entenda este movimento como uma busca incessante por autonomia em um contexto, como o do Brasil, por exemplo, em que uma mulher é assassinada a cada duas horas, e em que a cada 8 minutos um estupro é registrado - e clubes de futebol contratam agressores e estupradores.

Para além de uma explicação formal e com dados, existem filmes e documentários que cumprem a função de mostrar a realidade das mulheres no mundo e, assim, traçar um entendimento sobre o que é, de fato, o movimento feminista e por que ele é importante para todas as pessoas. 

O HuffPost separou 8 produções disponíveis em serviços de streaming no Brasil para entender por que, felizmente, existe o movimento feminista:  

1. Chega de Fiu Fiu, Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão

Divulgação
Produzido em parceria com a Brodagem Filmes, o filme nasceu da pesquisa realizada pelo Think Olga e contou com um crowdfunding para coletar recursos de forma independente.

Em sua fala ao UOL, Robinho completou, após criticar o movimento feminista: “E se levantam [mulheres] contra porque coisas que homens... Acabei de responder agora. Eu não sou bonito, sou casado com a minha esposa, mas se eu sair na rua, e a mulher falar: “Oi, lindo, gostoso” tem uma conotação. Se eu mexer com você com falta de respeito é totalmente diferente”.

E é diferente, mesmo. Andar de ônibus. Circular a pé pelas ruas de uma cidade. Andar de bicicleta. Voltar da universidade de transporte público. Pegar um táxi. Subir escadas. Descer escadas. Entrar em um elevador. Nenhuma dessas situações parecem estar associadas à violência, mas sim, à banalidade do cotidiano. Parece surreal, mas esse é o desafio de grande parte das mulheres que vivem no Brasil: sair de casa. Se você é mulher, a violência caminha ao seu lado e mostra que o espaço público não é feito para você.

É com a pergunta “as cidades foram feitas para as mulheres?” que o longa-metragem Chega de Fiu Fiu, dirigido por Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão, coloca luz sob o espectro do assédio sexual nas ruas das cidades brasileiras. O filme amplia a discussão ao expor a intersecção entre racismomachismosexismo e transfobia que cada uma das personagens vive diariamente.

Produzido em parceria com a Brodagem Filmes, a produção nasceu da pesquisa realizada pelo Think Olga e contou com um crowdfunding para coletar recursos de forma independente, em 2015. Na época, o projeto alcançou recorde de arrecadação na plataforma de financiamento coletivo Catarse, atingindo a meta inicial em menos de 24 horas.

Disponível no GloboPlay.

2. A filha da Índia, de Leslee Udwin

Reprodução
Ela passou os últimos dois anos e meio entrevistando os envolvidos no crime — condenados, seus advogados, a família dos estupradores e familiares da vítima.

Em dezembro de 2012, o estupro coletivo de uma jovem mobilizou a Índia e chocou o mundo. A estudante de medicina Jyoti Singh, de 23 anos, voltava do cinema com um amigo por volta de 20h30 em Nova Déli, quando foi espancada, mutilada e estuprada por seis homens dentro de um ônibus. Singh morreu duas semanas depois, em um hospital de Singapura, pedindo desculpas à família por “causar transtornos”.

O crime repercutiu mundialmente e motivou uma onda de protestos que pediam a revisão das leis sobre violência sexual e clamavam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres na Índia. Os protestos, que duraram cerca de um mês, foram a motivação para que a documentarista britânica Leslee Udwin, de 58 anos, mergulhasse na história para “amplificar as vozes” de quem clamava por mudanças.

Ela passou os últimos dois anos e meio entrevistando os envolvidos no crime — condenados, seus advogados, a família dos estupradores e familiares da vítima. Indian’s Daughter (A Filha da Índia) foi lançado em março deste ano, exibido em vários países, mas banido na Índia.

Disponível na Netflix.

3. Absorvendo o Tabu, de Rayka Zehtabchi

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O documentário entremeia conversas com mulheres de um vilarejo de Uttar Pradesh com entrevista com homens do mesmo vilarejo, mostrando as dificuldades que elas enfrentam.

De jovens que acham que a menstruação é uma doença a homens mais velhos que não admitem falar do assunto em público e a homens que ficam encarando mulheres que compram absorventes íntimos na lojinha do bairro, Rayka Zehtabchi, em Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence, em inglês) consegue revelar o drama vivido pelas mulheres indianas. O maior desafio delas são os homens e sua incapacidade de lidar com o tema. 

O filme ganhou o Oscar de melhor documentário em curta-metragem, mostra a preocupação de profissionais de saúde e ativistas dos direitos da mulher que tentam melhorar o acesso das indianas a produtos de saúde menstrual. O documentário entremeia conversas com mulheres de um vilarejo de Uttar Pradesh com entrevista com homens do mesmo vilarejo, mostrando as dificuldades que elas enfrentam.

Disponível na Netflix.

4. She is beautiful when she’s angry, de Mary Dore

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Documentário de 2014 que resgata a história do movimento feminista dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970.

She’s Beautiful When She’s Angry (Ela fica linda quando está com raiva, em tradução livre) é um documentário de 2014 que resgata a história do movimento feminista dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 - e que, surpreendentemente, diz muito sobre os dias atuais.

Dirigido por Mary Dore e estrelado por figuras fundamentais da construção da episteme feminista moderna, como Kate Millet e Eleanor Holmes Norton, primeira mulher a presidir o Comitê de Igualdade de Oportunidades de Emprego nos EUA.

O filme está disponível na Amazon Prime.

5. Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi

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A trama se passa no auge da segregação racial nos EUA. E um de seus pontos positivos é mostrar o preconceito racial de uma perspectiva bem próxima do espectador.

O longa Estrelas Além do Tempo é baseado em uma história real. A trama acompanha a trajetória de três mulheres negras especialistas em cálculos complexos que desafiaram a segregação e o machismo dentro da NASA, a agência espacial dos EUA. Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan foram fundamentais na corrida especial americana. Foram elas as responsáveis pelos cálculos que levaram o astronauta John Glenn a orbitar ao redor da Terra, em 1962 - durante a Guerra Fria.

A trama se passa no auge da segregação racial nos EUA. E um de seus pontos positivos é mostrar o preconceito racial de uma perspectiva bem próxima do espectador. Quer um exemplo? Pense num dia de expediente comum em seu trabalho. Agora, imagine que o banheiro que você usa não existe mais. Ou melhor, existe, mas agora para usá-lo você precisa andar alguns bons quarteirões. Imaginou? Pois bem, Katherine, Mary Jackson e Dorothy tinham que enfrentar esse tipo de situação simplesmente porque eram mulheres e negras.

Disponível no Looke.

6. Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig

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Adoráveis Mulheres é muito mais uma trama sobre a importância da emancipação da vida de uma mulher, do que sobre simples "mulherzinhas”.

Como fazer uma versão para o cinema de um livro clássico depois que outras sete já foram feitas antes e seu filme ainda soar novo? Pode parecer uma tarefa das mais complicadas, mas que a cineasta e atriz Greta Gerwig tirou de letra em Adoráveis Mulheres. 

A trama, que se passa em plena Guerra Civil americana (1861-1865), conta a história das irmãs March. Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen) passam pelo processo da adolescência para a vida adulta tendo de se virar sozinhas com sua mãe Marmee (Laura Dern), pois seu pai (Bob Odenkirk) foi lutar no front.

Meg quer entrar na alta sociedade local, enquanto Jo não quer saber de nada disso e só pensa em ser escritora. Já Amy, que pensa ser uma artista talentosa, quer mesmo é arranjar um marido rico e Beth quer se dedicar a música. Mas a chegada do jovem Laurie (Timothée Chalamet) à casa de seu avô, o rico Sr. Laurence (Chris Cooper), vizinha a modesta moradia da família March, vai mexer com o destino das quatro moças. Mas ele é muito mais uma trama sobre a importância da emancipação da vida de uma mulher, do que sobre simples “mulherzinhas”.

Disponível no Looke.

7. Em nome de Deus, de Monica Almeida, Gian Carlo Bellotti e Ricardo Calil

Stringer . / Reuters
Série documental sobre ascensão e queda de João de Deus, e as dezenas de acusações contra ele, está disponível no Globoplay.

Como um dos mais conhecidos líderes espirituais brasileiros foi de ídolo de milhares, força-motriz de uma cidade inteira no interior de Goiás, admirado e seguido por celebridades brasileiras e estrangeiras, a criminoso, responsável por abusos e estupros, e algoz de dezenas de mulheres? 

João de Deusa quem se atribui a cura de centenas de enfermos, foi condenado a quase 60 anos de prisão, em regime fechado, por crimes sexuais contra mulheres de Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ele foi preso em dezembro de 2018 e está em prisão domiciliar desde março deste ano por conta da pandemia do novo coronavírus.

A história de sua ascensão e queda, da infância ao sucesso até sua prisão, é o enredo de Em nome de Deus, série documental disponível no Globoplay.

8. The Mask You Live In, de Jennifer Siebel Newsom

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“Seja forte”, “seja homem”, “homem não chora”: os protagonistas do documentário se confrontam com essas mensagens.

O documentário The Mask You Live In (A máscara em que você vive, em tradução livre) segue meninos e jovens que tentam permanecer fiéis a si mesmos enquanto negociam com a estreita definição de masculinidade nos Estados Unidos.

“Seja forte”, “seja homem”, “homem não chora”: os protagonistas se confrontam com essas mensagens. O documentário, que está disponível na Netflix, explora as consequências dessas cobranças impostas aos meninos e ilustra, com a ajuda de especialistas, como a sociedade pode criar gerações mais saudáveis de meninos e rapazes.

“Eu diria que a maior emoção sentida pelos homens americanos é a ansiedade. Por que? Porque você precisa provar sua masculinidade o tempo todo”, diz o professor de sociologia Michael Kimmel, um dos entrevistados no filme.

Também disponível no Google Play.