ENTRETENIMENTO
31/01/2019 11:57 -02 | Atualizado 31/01/2019 12:19 -02

Por dentro de ‘Leaving Neverland', filme sobre os supostos abusos de Michael Jackson

O diretor Dan Reed fala do seu novo documentário, que traça o perfil de dois homens que dizem ter sido molestados sexualmente pelo Rei do Pop antes da puberdade.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: Getty
Michael Jackson nos bastidores de um show em Bremen, Alemanha, em 1997.

O documentário de quatro horas de duração Leaving Neverland, que deixou a audiência boquiaberta depois de estrear no Festival de  Cinema de Sundance, apresenta uma perspectiva inatacável sobre os supostos abusos sexuais de crianças cometidos por Michael Jackson, efetivamente afundando o legado já complicado do ícone do pop.

O filme de Dan Reed se concentra em dois homens, Wade Robson e James Safechuck, que entraram para o círculo íntimo de Jackson sob o pretexto de mentoria artística. Robson, que se tornaria coreógrafo de vídeos e shows de Britney Spears e N’Sync, tinha 7 anos quando conheceu Jackson depois de participar de uma competição de dança; Safechuck, que participou de um comercial da Pepsi, tinha 10 anos.

O que realmente aconteceu, dizem Robson e Safechuck, foi uma predação gradual, que apresentou aos meninos beijos, pornografia, masturbação, sexo oral e mais. Ao longo de vários anos, começando em 1987, Jackson teria se aproximado das famílias de ambos, a ponto de as mães acharem que o fato de seus filhos dormirem na mesma cama de Jackson era um gesto inocente de amizade. Quando chegaram à puberdade, afirmam Robson e Jackson, eles foram trocados por meninos mais jovens. Ambos dizem ter ficado confusos e arrasados.

Só depois dos 30 anos que Robson e Safechuck, que se conheceram brevemente quando eram crianças, perceberam que as experiências mudaram suas vidas para sempre.

Leaving Neverland, que será exibido pela HBO (ainda sem data definida), é dividido em duas partes. A primeira detalha as experiências de Robson e Safechuck, incluindo as perspectivas de vários parentes que conheceram Michael Jackson naquela época e consideravam o cantor uma estrela solitária e de personalidade infantil. A segunda parte trata dos traumas sofridos por Robson e Safechuck. Os relatos que eles fazem dos abusos estão entre os mais tristes e detalhados da era #MeToo.

Isso não impede a família de Jackson de chamar Neverland de “linchamento público”, tampouco desestimula fãs superleais do cantor de lançar uma cruzada para atacar a credibilidade do filme – mesmo antes de assisti-lo. Reed, que disse em Sundance que Robson e Safechuck não receberam dinheiro para participar do documentário, defende as acusações lançadas pelo filme.

Conversei com Reed, cujos créditos incluem os filmes The Pedophile Hunter e Frontline Fighting: Battling ISIS, sobre o legado de Jackson, as pesquisas que ele fez e como nosso entendimento elementar de abuso sexual faz com que muita gente siga enxergando o cantor como um mestre do entretenimento.

Taylor Jewell/Invision/AP
Da esquerda para a direita: Wade Robson, Dan Reed e James Safechuck, de “Leaving Neverland”, no Festival de Cinema de Sundance.

Quando você começou a trabalhar no filme, quão ciente você estava – e quão ciente está agora – do fato de que Michael Jackson é quase indiscutivelmente o mais famoso, celebrado e adorado entre os homens acusados de ataques sexuais nos últimos anos?

Eu não era fã de Michael Jackson quando criança, não ouvia muita música pop. Então, de certa maneira, era meio que agnóstico em relação a ele. Acho que ele é um grande entertainer – isso não dá para negar ―, e ele atingiu um nível de estrelato que não acredito que possa ser superado. Hora certa, lugar certo, cara certo. Então eu não me sentia particularmente intimidado pela estatura de Michael. Estava focado nesses dois caras e em suas famílias. Na história, Michael é um personagem periférico. Ele é importante, mas está no fundo, e você descobre algumas coisas sobre ele, mas não é um filme sobre Michael Jackson.

Estou percebendo agora a magnitude da influência dele e quanta gente o adora, como ele faz parte da vida de tanta gente. [Agora estamos] contestando a reputação dele, e não somos os primeiros a fazê-lo. Mas acredito que esse filme tenha uma completude e uma credibilidade que não vimos até aqui. Essa é a primeira vez que sobreviventes de abuso sexual na infância por parte de Michael falaram publicamente. Eu sabia que seria um negócio grande.

Me pergunto como as pessoas vão reagir e como vão lidar com o que descobrirem depois de assistirem ao nosso filme de quatro anos, se seguirem nessa jornada. E como vão reconciliar isso tudo com o amor pela música dele. Não sei a resposta.

Sempre esteve claro para você que o filme não seria um julgamento do legado cultural de Jackson? A série do canal Lifetime sobre R. Kelly, por exemplo, examina as letras das músicas dele, sua infância. A fama de Jackson desde pequeno é muito bem documentada. Você considerou falar mais do legado e da vida dele antes de 1987?

Sim, mas muito brevemente, e logo concluí que não era o caminho certo para mim. Michael morreu. Não posso entrevistá-lo. Não tenho como lidar com algumas das questões levantadas por Wade e James. Não sei por que ele fez as coisas que ele fez e acho que não tenho autoridade para especular sobre elas.

E isso é assunto para outro filme. É assunto para outra época, quando talvez as pessoas em torno dele, as pessoas que trabalharam com ele na época da história [relatada no filme] aceitem a realidade do que de fato aconteceu, o que talvez elas estejam tentando fazer agora. O filme tem um foco muito estreito, repito, na história desses dois caras bastante comuns. Eles não foram parte do fenômeno Michael Jackson. Wade fez carreira no show business, mas, quando eles se conheceram, ele era um menino de 7 anos. O pai dele tinha um supermercado pequeno. O pai de James trabalhava numa empresa de coleta de lixo. Não estamos falando de celebridades.

Então não vi uma ligação entre a música de Michael e a pedofilia. Não posso fazer essa associação. O filme se foca, humildemente, no que sabemos e conta a história de pessoas que eu conheci e que tiveram a coragem de falar diante das câmeras. Para por aí.

Courtesy of Sundance Institute
Michael Jackson e Robson em uma cena de “Leaving Neverland”.

Outra particularidade da história de Jackson em relação às de outros homens acusados recentemente é que ele está morto e não pode se defender. Como você lidou com este fato?

A visão de Michael sobre essa história – suas negativas e suas declarações – estão incluídas no filme. As opiniões dos advogados que o defenderam no processo criminal [em 2005] e no caso civil de 1993 são mostradas com destaque no filme. Então há vozes o defendendo no filme.

Acredito que, se Michael estivesse vivo, seus advogados teriam dito algo semelhante – “É por dinheiro”. Essa é a principal linha de ataque deles, sempre atribuindo aos acusadores o desejo de tirar vantagem financeira. Não acho que é verdade dizer que ele está morto e não pode dizer nada. Bem, é verdade no sentido literal. Mas nos esforçamos muito [para incluir os advogados falando] porque isso deveria estar representado no filme, Michael dizendo: “Amo crianças de um jeito apropriado”. Será que ele acreditava que estava prejudicando as crianças? Não sei. Talvez não. Talvez ele achasse que aquilo não era prejudicial. E, portanto, quando ele dá essa declaração em Neverland dizendo que “jamais faria mal a uma criança”, talvez ele acredite naquilo.

Então acho que Michael está no filme e fala por si. Seus advogados falam por ele, seus fãs falam por ele. Alguns fãs [em imagens de arquivo] dizem: “Wade, te odeio”. Apesar do fato de ele estar morto, fizemos o melhor para incluí-lo em tudo – e não só de forma simbólica, mas de uma maneira que realmente refuta as acusações que pesam contra ele.

No filme, membros da equipe de Michael são mencionados em vários contextos, especificamente um assistente pessoal, uma secretária e uma empregada que entraram em contato com as famílias representando Jackson. E, obviamente, ele tem uma rede de irmãos muito conhecidos. Com quantos deles você conversou? Você considerou incluir o relato dessas pessoas para corroborar aspectos mais específicos das acusações de forma a se defender daqueles que querem encontrar buracos nas informações apresentadas?

Não considerei, como você menciona, a família, porque o filme é sobre o abuso sexual sofrido por James Safechuck e Wade Robson. Pessoas sem conhecimento direto dessa história ou daqueles eventos não têm lugar no filme. Elas podem se manifestar, como têm feito. Mas não vejo por que incluir pessoas que não teriam como saber a verdade sobre o que se passou com essa criança.

Em relação aos investigadores e às pessoas que estavam envolvidas ou testemunharam [algo] nas casas, entrei em contato com algumas delas e li muitos, muitos depoimentos. Nas duas grandes investigações acerca de Michael, há uma enorme quantidade de material, documentos e assim por diante. Explorei tudo muito detalhadamente. Muitas dessas coisas estão disponíveis na internet. Também procurei alguns responsáveis pela investigação – procuradores etc. – e funcionários da casa. Alguns deles morreram. Em geral, o que eles tinham a dizer era: “Vi de relance”, “Vi Michael e James juntos na banheira, e pareciam estar nus”, “Vi Wade e Michael no chuveiro”, “Peguei a cueca de Wade”, esse tipo de coisa – que é meio uma corroboração oblíqua, imagino, das histórias de Wade e James. 

“Nunca encontrei um único investigador que fosse que não achasse que Michael era culpado, e nunca encontrei nada que fizesse duvidar de Wade ou James.”

É muita corroboração circunstancial, mas o que temos no filme saiu direto da boca dos dois. Temos a criança falando do que aconteceu com ela, e não sei se teria mais credibilidade se uma empregada dissesse: “Bom, sim, eu vi Wade”. Alguns desses relatos foram contestados pelos advogados nos tribunais e, de maneira genérica, pelo frenesi dos tabloides na época. Os pagamentos feitos a vários funcionários da casa mancharam ligeiramente essa dimensão da história, na minha opinião e acho que na de várias outras pessoas também.

Então tentei ficar longe disso e me basear em relatos consistentes e confiáveis de duas décadas de história dessas famílias. Passamos meses olhando documentos antigos, tudo o que foi publicado, conversas com investigadores. Nunca encontrei um único investigador que fosse que não achasse que Michael era culpado, e nunca encontrei nada que fizesse duvidar de Wade ou James. Nos últimos 30 anos, construí a reputação de uma pessoa que não faz concessões quando se trata de falar a verdade. Por que arriscaria essa reputação se achasse que a história tem buracos? Tudo tinha de ser muito sólido. Acho que fiz um trabalho muito zeloso e completo.

Kimberly White via Getty Images
Michael Jackson na saída do tribunal do condado de Santa Barbara, depois de ser absolvido das dez acusações em um julgamento por abuso sexual. Ele está acompanhado de seu pai, Joe Jackson, seu irmão Randy Jackson e seu advogado, Thomas Mesereau Jr.

Concordo. Todas as pessoas com quem conversei concordam. Mas, como percebi no Twitter nos últimos dias, muita gente não vai concordar. Também não estou convencido de que muita gente que já tirou conclusões antecipadas vá mudar de opinião depois de ver o filme. Nosso entendimento de trauma sexual ainda é tão rudimentar.

Você tem razão, e essa é um dos temas que queríamos abordar. Não vou dizer que o filme é uma tentativa de educar o público sobre abuso sexual de crianças, mas espero que sirva para isso.

Mas para os fãs ferrenhos de Jackson que não querem acreditar, ou porque não entendem a ideia de que uma pessoa possa ter dito anos atrás “Ele não abusou de mim” mas depois tenha percebido que, sim, foi vítima de abuso...

Isso é muito típico.

É muito típico, mas a maioria das pessoas não sabe disso, e alguns superfãs de Jackson não vão aceitar. Você está ciente de que, como a corroboração é limitada no que vemos nas quatro horas, as pessoas ainda vão se recusar a acreditar e a entender a epidemia por trás das ideias que estão no documentário?

Sim, acho que as duas coisas principais que as pessoas não entendem a respeito de abuso sexual de crianças são: um, elas não entendem que nem sempre, mas muitas vezes, a relação é parecida com uma relação adulta, uma relação amorosa. A criança se apaixona pelo abusador. E elas criam um laço emocional muito forte, que tem várias dimensões. O abusador é mentor; figura paterna, como Michael era; uma supernova deslumbrante de talento, como Michael era; e parceiro sexual. E a criança se apaixona por tudo isso. Michael tinha muita coisa boa.

Robson e Safechuck começam dizendo que ele era uma das pessoas mais gentis e bondosas que eles conheceram, e que tudo começou como a experiência mais feliz de suas vidas.

Sim, não estou atacando Michael Jackson com um taco de beisebol. Estou contando a história do ponto de vista da criança. Mas as pessoas precisam entender que foram histórias românticas, mas criminosas, e que o que motivava as crianças era o desejo de manter esse relacionamento, de ser amado por Michael. Elas se sentiam escolhidas, ungidas. Ele as fazia sentir-se muito especiais. E esse sentimento durou muito tempo – até mesmo depois do fim do relacionamento sexual. Esse amor, essa ligação emocional profunda com Michael, é umas das coisas que acho que os fãs não entendem. E isso levou Wade a mentir em defesa de Michael [no julgamento de 2005] em detrimento de uma criança [Gavin Arvizo] que teve a coragem de falar no tribunal. É uma decisão enorme, mas Wade a tomou.

Quanto ao fato de o abuso somente ser reconhecido ou denunciado anos depois, isso é muito comum. Conversei com um investigador da polícia de Los Angeles que trabalhou num caso de 1993, uma investigação criminal contra Jackson, que obviamente nunca chegou aos tribunais. O policial esteve envolvido em mais de 4 000 casos de abuso sexual contra crianças e hoje está aposentado. Ele disse que o modus operando de Jackson era muito comum, e o fato de Wade e James só entenderem anos depois o real contexto do que se passou também é muito comum. Um dos detetives que entrevistou a família Safechuck na época, no começo dos anos 1990, quando eles negavam tudo e diziam que Michael era maravilhoso, disse: “Quer saber? Seu filho vai voltar a procurar vocês quando tiver 30 anos e vai dizer: ‘Michael abusou de mim’”.

Você acha que tem ideia da totalidade dos abusos cometidos por Michael? Há outros potenciais sobreviventes mencionados no filme e outros que ainda afirmam que não foram vítimas de abuso. Obviamente, não temos como saber quantos outros casos possam ter ocorrido.

Sim, Jordan Chandler e Gavin Arvizo fizeram acusações formais contra Michael, então isso está estabelecido. Eles mantêm as acusações. Eram meninos pequenos na época, que passaram várias noites na cama com Michael, isso é fato. Ele os molestou? Não sei. Eles é que têm de dizer. E, se foram molestados, vão lidar com isso a seu tempo. Mas o fato é que Michael trocou Wade e James, sexualmente ou não, por outros meninos [como Macaulay Culkin e Brett Barnes], que aparentemente tinham o mesmo tipo de relacionamento [com Jackson]. Não posso falar se havia uma dimensão sexual. Eles negam de forma categórica e veemente. Acho que houve vários outros? Sim, acho. Quem são? Não vou dar nomes.

Você conversou com algum deles?

Sim, falei com um deles.

E essa pessoa reconhece que foi vítima de abuso?

Sim.

Mas não quer  falar publicamente.

Sim, não quis aparecer diante das câmeras.

Associated Press
Manifestantes diante do cinema na estreia de “Leaving Neverland”, 25 de janeiro.

Se você tivesse apenas um dos dois – ou seja, Robson ou Safechuck, mas não ambos ―, ainda assim teria feito o filme? Ou era importante ter pelo menos dois relatos?

Boa pergunta.

Pergunto não para questionar as experiências de cada um deles, mas uma das coisas de maior impacto no filme é como as histórias são parecidas. A progressão dos atos sexuais, os contextos e circunstâncias, são parecidos, apesar de eles não se conhecerem até agora.

Sim, boa pergunta. E, sem as mães, haveria filme? Como documentarista, trabalho nesse formato de longa duração, que exige tantos elementos e tantos ângulos diferentes. As histórias são contadas por meio de personagens e experiências pessoais. É por isso que gosto de contar histórias importantes usando experiências e testemunhos individuais.

Então, se falta alguma parte, é um pesadelo para mim. Ter um filme potencialmente incrível, mas faltando uma pessoa chave, isso não me deixa dormir. Mas, até hoje, sempre consegui a maioria das pessoas de que precisava para fazer meus filmes. Então, respondendo sua pergunta, teria feito o filme somente com um deles? Acho que teria sido um filme mais fraco.

Até que ponto você trabalhou para ter um terceiro relato, para que o filme ficasse ainda mais inatacável? Pergunto sabendo que não deve ser nada fácil convencer uma vítima a falar diante das câmeras.

Bem, se tivéssemos uma terceira família, seria um filme de seis horas. Talvez fosse demais. Acho que a história de ambos é muito completa e funciona muito bem. Para mim, ela é persuasiva, e acho que o público da estreia pensou o mesmo.

A história que ainda não foi contada – e a história que me fascina, mas depende da participação de Jordan Chandler e Gavin Arizo – é a história desses dois casos. É a história dos bastidores desses casos – o julgamento civil, de 1993, e o criminal, de 2005. O caso de 2005 foi um evento mundial, enorme. 

Lembro vividamente.

Tudo foi conduzido em público, com câmeras no tribunal. Como é que o júri não acreditou numa criança que deu um depoimento tão claro? O que aconteceu nos bastidores. Tem muita coisa que não sabemos, mas acho que isso tem mais a ver com a interação entre as autoridades e o público. Acho que seria um filme fascinante de fazer, mas também acho que Jordy e Gavin teriam de dar um passo adiante e permitir-se contar suas versões.

Que tipo de aconselhamento jurídico você recebeu? Os advogados assistiram ao filme antes que ele fosse exibido ao público?

Obviamente meus filmes não passam por aprovações, mas eles são vistos e recebem comentários. Temos muito cuidado para nos certificar de que as coisas que vamos fizer são sólidas e consistentes para exibição.

O que você quer dizer com “são vistos e recebem comentários”? Especificamente, você tem aconselhamento de um advogado?

Isso acontece em todo filme que eu faço e, até onde eu saiba, com qualquer filme, com certeza no caso da HBO ou da BBC. Tínhamos um advogado que atuou como consultor. Ele não nos diz o que temos de fazer, mas aconselha aqui e ali, dá opiniões sobre a maneira de articular uma história.

Isso é rotineiro. Se sua pergunta é “este filme deu mais trabalhos pros advogados que os outros?”, a resposta é não. Para o bem ou para o mal, a maioria dos meus documentários exige atenção e cuidado por parte dos advogados. Simples assim.

A parte mais difícil do filme são os detalhes do suposto abuso, que vão ficando cada vez mais gráficos ao longo das duas primeiras horas. Vemos um padrão de abuso e manipulação – tenha Jackson visto as coisas assim ou não. Você teve algum tipo de ressalva em relação ao nível de detalhes, para que a gente pudesse entender a situação, mas, ao mesmo tempo, lidar com elas?

Sim, pensei muito nisso. Foi uma das minhas grandes preocupações. Não é um documentário obsceno. Não acho que as descrições dos atos sexuais sejam excitantes. E foi isso o que eu disse para Wade e James antes das entrevistas. “Temos de falar disso, e você tem de ser o mais detalhista possível. Prometo tratar seus relatos com respeito. Mas temos de ser explícitos, porque temos de deixar claro que o que aconteceu com você não foi intimidade afetuosa”. Não foi um beijo na bochecha ou dormir de conchinha apertado.

Também não foi andar de mãos dadas na rua, como vemos no filme.

Não. Foi sexo. E é por isso que tínhamos de incluir essas partes. Agora, a dosagem, por assim dizer, decidir o quanto incluir antes de o público pensar “Ai, não aguento mais ouvir isso”, aí trata-se de uma decisão. Espero que tenhamos dosado bem. Poderíamos ter incluído mais, poderíamos ter incluído menos. Vai variar de pessoa para pessoa. Algumas vão dizer: “É demais para mim”, outras vão achar revelador: “OK, realmente aconteceu. Não tem outra maneira de descrever, foi sexo”.

Então foi uma decisão que tomamos, espero que tenha sido acertada. E vocês é que vão dizer. 

Até que ponto a família de Jackson ou os fãs estão se manifestando sobre o filme, mesmo sem ter assistindo ainda, e qual sua disposição de interagir com eles? Você está interessado em dialogar ou tentar ajudá-los a entender seus possíveis erros de julgamento? Ou você tem de dizer: “O filme fala por mim”?

A segunda opção. O filme fala por mim.

A história é complexa. É por isso que você precisa de quatro horas para conta-la. Não vou corrigir as opiniões da família Jackson. Eles amam Michael. Eles vão defendê-lo. Não é surpresa. O patrimônio [dele] é uma enorme fonte de renda e riqueza, e eles vão se defender. Isso também é esperado e completamente normal. Não estou aqui para discutir com a família Jackson.

Mas acho que, se aprendemos alguma coisa nos últimos tempos, é que temos de prestar atenção e ouvir as histórias das vítimas de abuso sexual. Não sei se o primeiro instinto da família é ouvir. 

Entrevista editada e condensada.