MULHERES
31/07/2019 20:56 -03

Estas cineastas querem expor as barreiras que as mulheres enfrentam na política

Mulheres são 52% do eleitorado no Brasil, mas são subrepresentadas na política. Documentário "Me Farei Ouvir" quer mostrar esta vulnerabilidade.

Reprodução/Facebook
Quatro mulheres lançam financiamento coletivo para produzir filme sobre representatividade feminina nos espaços de poder.

Em Brasília, a cidade símbolo do poder no Brasil, quatro mulheres se reuniram para lançar luz sobre os desafios da representatividade feminina na política. Para isso, querem produzir o documentário Me farei ouvir; para viabilizá-lo, lançaramcampanha de financiamento coletivo disponível até dia 12 de agosto.

O objetivo é entender os entraves para aumentar a participação das brasileiras nos espaços de poder. Apesar de representarem 52% do eleitorado, os números no Legislativo e no Executivo bem mais baixos. Na Câmara, são 15%, patamar semelhante no Senado. Entre os governadores, apenas uma é mulher.

“Vamos conversar com mulheres que tenham narrativas sobre a experiência enquanto candidatas para que a gente possa compreender os motivos para que, mesmo por que depois de 20 anos da Lei de Cotas, a gente não tenha conseguido superar 15% dentro das Câmaras e assembleias legislativas e também um patamar inferior no Executivo e no Senado, que foge à Lei de Cotas”, afirmou, ao HuffPost Brasil, Dandara Lima, roteirista do filme.

Em vigor desde 1997, a Lei Eleitoral indicou a reserva de 30% das candidaturas dos partidos ou coligações para cada gênero em eleições proporcionais (vereador, deputado estadual, distrital e deputado federal). A cota foi cumpria pela primeira vez apenas em 2018. 

Desde o último pleito, há também a exigência de que pelo menos 30% do Fundo Eleitoral seja destinado a candidaturas femininas.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Na lista de futuras entrevistadas do documentário está Joenia Wapichana (Rede-RR), primeira indígena a ser eleita deputada federal.

Na lista de futuras entrevistadas está Joenia Wapichana (Rede-RR), primeira indígena a ser eleita deputada federal, e Erica Malunguinho (PSol-SP), primeira deputada transgênero na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), além de candidatas que não conseguiram se eleger.

“Também acho interessante a gente compreender a narrativa de, por exemplo, mulheres como Luisa Canziani (PTB-PR), deputada federal mais jovem eleita na história. Eleita com capital político que herdou do pai e ainda assim com certeza enfrenta dificuldades por ser mulher”, destaca Lima.

A roteirista chama atenção para o caráter suprapartidário do documentário. “Principalmente nesse momento de polarização extrema que o Brasil está vivendo, a gente entendeu que perderia muito se tentasse fazer um filme ideológico, ainda que fosse mais fácil para construir uma narrativa”, diz.

Para ela, a luta das mulheres está historicamente atrelada à esquerda. Mas acredita que as mulheres que se posicionam politicamente à direita têm tanto direito de estar nesse espaço quanto. “Se a gente só defendesse candidaturas de mulheres de esquerda não seria uma democracia”, pontua.

O resgate da história das mulheres na política

ASSOCIATED PRESS
Me farei ouvir também quer ouvir figuras históricas, como Rita Camata, integrante da Assembleia Constituinte.

Me farei ouvir também quer falar com figuras históricas, como Rita Camata, integrante da Assembleia Constituinte. “Na época ela foi taxada pela imprensa como ‘musa da Constituinte’ e conta histórias sobre esse lugar que colocaram ela. Essa é uma narrativa que a gente acredita que vai aparecer, ele lugar da mulher como musa, mesmo dentro da política”, ressalta Lima.

Outro nome que inspira o curta é o de Eunice Michiles, primeira senadora do País, cargo que ocupou na década de 1980. Em seu mandato, a parlamentar tentou derrubar a previsão legal para homens pedirem o divórcio caso constatasse que as mulheres não eram virgens. A mudança só foi concretizada com o novo Código Civil, em 2002. 

Para a roteirista, a história exemplifica a importância da representatividade feminina. “Esse é um exemplo de como há pontos na lei tão absurdos e que é preciso um olhar feminino para compreender o quão absurdo essas coisas são para mulheres. Existem muitos homens com olhar atento e que são nossos aliados e lutam por demandas femininas. Mas ao mesmo tempo é muito diferente quando uma mulher luta pela sua própria existência, pela sua própria dignidade. Tem outro ímpeto. Tem outro interesse”, afirma.

Lima está na produção do documentário ao lado de Bianca Novais e Flora Egécia, responsáveis pela direção e direção de arte; e de Bárbara Rodarte, diretora de foto. A iniciativa também conta com apoio das agências criativas Estúdio Cajuína e Düo Photo.

O plano da equipe é lançar o filme no mês da mulher, em março de 2020, junto com a Cartilha Manual da Mulher Candidata, a fim de incentivar candidaturas nas eleições municipais.

Para que o projeto saia do papel, a meta é arrecadar R$ 87 mil até agosto deste ano. As contribuições do financiamento coletivo com recompensas começam a partir de R$ 25, que incluem produções artísticas feitas por mulheres.