LGBT
05/10/2019 08:00 -03

Documentário inédito mostrará a vida de gays vistos numa festa dos anos 1940

O diretor Geoff Story espera que “Gay Home Movie” seja um retrato da vida LGBTQ no Meio-Oeste americano mais de 20 anos antes do levante de Stonewall.

 

Quando tinha 20 e poucos anos, Geoff Story passava boa parte do seu tempo em garagens, lojas de artigos usados e eventos do tipo “família vende tudo”, em busca de fotos e câmeras antigas. Foi numa dessas visitas que ele encontrou algo incomum, a inspiração de um projeto pessoal que continua em andamento mais de duas décadas depois.

Em 1996, Story visitou uma casa onde ocorria a uma venda dos artigos que pertenciam a uma família de St. Louis. Ele comprou dois rolos de filme 8 mm encontrados num sótão. O fotógrafo e diretor de arte, na época com 27 anos, ficou intrigado com as latas que continham os filmes: o rótulo dizia “a gay party” (uma festa gay). Dada a idade do filme, ele se perguntou, será que “gay” significava “homossexual” ou “alegre” (este outro sentido da palavra caiu em desuso em inglês)?

Não demorou para que Story tivesse a resposta. Os 22 minutos de filmagem, em cores, mostram vários homens nadando e tomando sol em volta de uma piscina, num lugar remoto do estado do Missouri. Alguns estão sem camisa, outros estão vestidos de drag ou usando uniformes militares. Vários formam pares de dança, tomam cerveja e se beijam.

É uma cena corriqueira hoje em dia em lugares como Provincetown ou Palms Springs – mas ela aconteceu no Meio-Oeste rural dos Estados Unidos, longe de qualquer resort frequentado por gays, e em 1945. (Veja trechos da filmagem acima.)

Courtesy of Geoff Story
“Gay Home Movie” vai mostrar cenas gravadas numa festa numa piscina que aconteceu por volta de 1945. O diretor Geoff Story encontrou as imagens misteriosas numa venda de artigos de uma família.

“A primeira coisa que vi foi um homem de drag, se pavoneando para a câmera com um cigarro na mão”, disse Story ao HuffPost. “Não sabia quem eram os donos [do filme]; estava tudo sem contexto. Não sabia quantos anos tinham as imagens, mas sabia que era algo especial. Não sei se ficaria muito à vontade hoje em dia dando uma festa dessas em certas áreas rurais do Missouri.”

Depois de assistir aos filmes algumas vezes, Story decidiu guardar os rolos, com medo de danificá-los. As imagens também mexeram com ele: Story é gay e na época ainda não tinha saído do armário para os pais. Em 2017, ele digitalizou tudo e começou a exibir as imagens para amigos e conhecidos, na esperança de saber mais sobre aqueles homens. 

Beth Prusaczyk foi uma das pessoas que viram os filmes. Como Story, ela ficou fascinada com as perguntas sem resposta. Desde então, os dois se uniram num projeto de documentário para incorporar as imagens originais e o que eles conseguissem descobrir. Intitulado Gay Home Movie (filme gay caseiro, em tradução literal), o filme será a estreia de Story na direção. Prusaczyk será produtora e codiretora.

Se tudo der certo, Gay Home Movie vai oferecer um olhar sobre a vida dos gays nos Estados Unidos mais de 20 anos antes do levante de Stonewall, em 1969, mencionado como começo simbólico do movimento moderno em defesa dos direitos LGBTQ. O projeto também terá um lado semiautobiográfico, contando a história de como Story encontrou os rolos e, possivelmente, sua hesitação em assisti-los, já que ele próprio tinha sentimentos confusos em relação a sua sexualidade na época.

Mas é claro que a falta de informações sobre as imagens é um desafio enorme.

“Fomos inocentes e achamos que seria um projeto de fim de semana”, diz Prusaczyk. “Pensei: ‘Amanhã entro no Google e passo os nomes e lugares para o Geoff’. Dois anos depois, sei que o mistério é muito mais complicado.”

Courtesy of Geoff Story
Story pretende lançar “Gay Home Movie” em festivais de cinema do ano que vem e quer que o filme seja uma “ferramenta de aprendizado para famílias”.

Observando rótulos de cerveja, tíquetes de racionamento de combustível e até mesmo marcas nos uniformes militares, Story diz que ele e Prusaczyk determinaram que as imagens devem ter sido registradas entre 1943 e 1945. Os filmes são montagens de várias festas diferentes. Por enquanto, cinco dos homens foram identificados. Entre eles está o cabeleireiro de celebridades Buddy Walton e seu parceiro, Sam Micotto, que era dono da casa onde Story comprou os dois rolos.

A piscina já não existe mais – mas registros imobiliários e de zoneamento ajudaram Story e Prusaczyk a encontrar onde ela ficava: perto da cidade de Hillsboro, Missouri, a uns 60 km de St. Louis.

Amigos e parentes dos homens deram entrevistas para o documentário, garantindo um lado profundamente humano – e inesperado – para Story.

“Achei que iríamos dar com a cara em muitas portas”, diz ele, observando que os entrevistados “não tinham vergonha nem ficaram sem graça” de ver seus parentes num tipo de festa impensável para a época. “Virou uma história sobre família, amigos e amor incondicional.” 

O plano é lançar o filme em festivais de cinema do ano que vem. O que Gay Home Movie não mostra também diz muito – a reduzida presença de não brancos, por exemplo. E Story e Prusaczyk gostariam de contar com o depoimento em primeira pessoa de pelo menos um dos homens vistos na gravação histórica.

Walton e Micotto já morreram, e se algum dos homens ainda está vivo teria entre 80 e 90 anos hoje. Story e Prusaczyk criaram uma galeria de fotos com as pessoas que eles ainda esperam identificar. Os dois dizem que a intenção não é tirar ninguém do armário e sabem que alguns dos homens podem não querer lembrar de certas histórias pessoais. Mas, com base nas respostas que tiveram até agora, eles esperam que pelo menos uma pessoa dê um passo adiante.

Virou uma história sobre família, amigos e amor incondicional.Geoff Story, diretor de “Gay Home Movie”.

“No dia que nosso filme estrear, alguém vai mandar um e-mail dizendo: ‘Ah, é meu pai’. Sabemos que são grandes as chances de que isso aconteça”, diz Prusaczyk. “Mas queremos esgotar todas as possibilidades antes disso.”

Story quer que Gay Home Movie seja “uma ferramenta de aprendizado para famílias”. Mas ele não consegue não se sentir um pouco melancólico ao ver aqueles homens, para sempre congelados no tempo em suas versões jovens.

 “Quando assisti pela primeira vez, tinha a mesma idade deles”, afirma Story. “Fiz 50 anos e continuo envelhecendo, mas esses homens nunca envelheceram. Para mim, é uma perspectiva estranha em relação à vida.”

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.