Comportamento

Agora você tem de se preocupar com o ‘cause-playing’

A nova tendência do mundo dos relacionamentos é pedir ajuda e doações para os ex

Alguns anos atrás, Kathleen Lee, designer que mora na Califórnia, estava olhando seus e-mails quando tomou um susto: um cara que tinha simplesmente sumido depois de meses saindo juntos queria se conectar com ela no LinkedIn.

Sim, aquele LinkedIn, a rede social de trabalho em que as pessoas reafirmam as competências de comunicação e liderança de colegas e conhecidos da vida profissional, não um LinkedIn de alguma realidade alternativa, em que caras imbecis fazem uma última e desesperada tentativa de contato.

“O pedido veio meses depois de ele dizer que se sentia um idiota por ter estragado tudo comigo”, diz Lee, que é uma das apresentadoras do podcast Say Bible, centrado nas Kardashian. “Não respondi. Comunicação não era uma competência dele que eu pudesse recomendar.”

Já inventaram uma palavra para esse fenômeno (porque tudo que tem a ver com relacionamentos tem uma palavra hoje em dia): cause-playing.

O cause-playing se configura basicamente toda vez que um ex faz algum pedido em uma rede social. Pode ser um pedido de contribuição no Patreon ou uma doação caridosa no Facebook, um convite para assistir a uma performance (já que ele precisa encher o lugar), ou então uma recomendação profissional no LinkedIn.

Se o relacionamento acabou em bons termos, tudo bem. Mas quando as coisas não ficaram bem entre vocês, nada poderia ser mais constrangedor. Lee sabe bem o que é isso.

“Talvez minha memória seja seletiva, mas gostaria de acreditar que nunca fiz cause-playing com ninguém”, diz ela ao HuffPost. “Em geral, gosto de manter distância dos meus ex. Prefiro não ter de fazer nem pedir favores, nem mesmo para aqueles com quem mantive uma relação semiplatônica.”

Claramente, nem todo mundo pensa do mesmo jeito. Segundo uma pesquisa do site Plenty of Fish, 61% dos solteiros entrevistados disseram ter recebido algum pedido do tipo de seus ex.

Pedidos de emprego ou de ajuda na carreira são incrivelmente comuns. Alex Ludwig, de San Antonio, no Texas, diz que foi vítima de cause-playing várias vezes. Mas um caso em especial foi memorável.

“Tinha terminado com meu ex fazia uns três meses. Aí ele me mandou uma mensagem de texto perguntando seu meu pai, que é paisagista, tinha algum emprego disponível”, diz ela. “Tínhamos acabado em bons termos, mas não a ponto de eu ficar à vontade com ele trabalhando no negócio da família.”

O ex não tinha nenhuma chance de aparar grama para o pai de Alex, mas recebeu uma resposta educada. “Sinceramente, nem perguntei pro meu pai, mas respondi que não tinha nenhuma vaga naquele momento e desejei boa sorte para ele.”

Ludwig não se incomodou demais porque quem nunca pelo menos considerou pedir ajuda para um ex quando se trata de algo tão complicado como encontrar um emprego?

“Fui promoter por uns cinco anos, então com certeza mandei flyers para alguns dos meus ex”, diz ela. “Mas nunca pedi grandes favores... até agora.”

Acabo de reparar que uma ex-namorada criou uma conta de GoFund para pagar a festa do casamento.

Escapei dessa.

Poderia ser pior. Pelo menos o cause-player vai direto ao assunto. Outra tendência recente do mundo dos relacionamentos, o “orbiting”, pode ser ainda mais frustrante.

Orbiting significa ficar na sua órbita mesmo depois do fim do relacionamento: acompanhando seu Instagram, por exemplo, ad infinitum, como a Lua dando voltas ao redor da Terra. O cause-player ao menos é mais sincero: eles são mercenários e têm um interesse muito claro.

E nem sempre o cause-playing é algo negativo. Às vezes o ex ou a ex não tem nenhum problema em fazer doações, especialmente se o outro não espera. Isabella, uma solteira de Chicago, diz que esse tipo de atitude é uma jogada de mestre no xadrez pós-relacionamentos.

“Fiquei dois anos com minha ex. Um dia ela pediu uma doação para uma causa do seu time de futebol americano, que era relacionada à ELA (esclerose lateral amiotrófica)”, diz ela. “Doei meio que para estabelecer uma posição de dominação; não nos falávamos havia um tempo, mas achei que seria engraçado que a única notícia que ela tivesse de mim fosse minha doação para a causa dela.”

Adicionando meu ex no LinkedIn pra recomendá-lo por traições.

Além disso, afirma Isabella, “meio que fui demonizada na nossa separação e queria provar que, apesar de não estar mais a fim do relacionamento, ainda sou uma pessoa boa”.

Às vezes temos de admirar a determinação do cause-player.

Do nada, Alessandra Conti, uma casamenteira de Los Angeles, foi procurada por um cara com quem tinha saído anos atrás. As coisas acabaram naturalmente, mas desde então ele nunca mais tinha aparecido.

Algumas semanas atrás, ela recebeu uma mensagem de texto de um número desconhecido, pedindo uma avaliação de cinco estrelas num podcast sobre criptomoedas. Conti fez uma busca pelo número de telefone e descobriu que era o cara com quem ela tinha mantido uma relação nada mais que casual.

“Não respondo porque foi um pedido estranho e bizarro, mas admiro a coragem”, diz ela. “Foi uma coisa de bom gosto? Não. Mas fiquei sabendo do podcast, e ele tentou usar minha rede de contatos, o que acho natural.”

Como a maior parte das pessoas que entrevistamos, Conti acredita que o cause-playing só funciona se as coisas terminaram bem entre os ex.

“Você pode não estar tentando magoar a pessoa com quem teve uma história – a ideia é só usar a rede de contatos dela ―, mas a maneira de fazê-lo é completamente errada”

- Alessandra Conti, casamenteira de Los Angeles

“Se você estiver se separando e quiser manter contato profissional, isso deve ser dito claramente” afirma ela. “Aí, contatos futuros serão muito mais aceitáveis.”

Se a separação não foi amistosa – ou se você fez ghosting com o ex ―, melhor não pedir nada.

“Parece coisa de gente desesperada e diminui a causa que você está promovendo, mesmo que ela seja incrível”, diz Conti. “Você pode não estar tentando magoar a pessoa com quem teve uma história – a ideia é só usar a rede de contatos dela ―, mas a maneira de fazê-lo é completamente errada.”

Se você receber um pedido desses, não leve para o lado pessoal. Revire os olhos, leve numa boa – e doe, se achar que a causa merece seu apoio. Dê o benefício da dúvida para seu ex: ele ou ela provavelmente não estavam mal-intencionados nem queriam algo a mais.

“É como um email para um grupo grande de pessoas, não uma tentativa de retomar o relacionamento”, afirma Conti.

Pedir ajuda para causas nobres é OK, dependendo de como acabaram as coisas. Mas pedir recomendação no LinkedIn é um pouco demais. “Não faça isso”, diz Conti. E, se por acaso você for parar na página do seu ex (“foi sem querer, não estava stalkeando”), use o modo privado. (Você não sabia que as pessoas podem ver quando você faz buscas no LinkedIn? Vá mudar suas definições de privacidade agora!)