COMPORTAMENTO
04/05/2019 09:58 -03

Eles não se divorciaram 'pelo bem dos filhos'. Mas nem sempre o casamento é a melhor opção

Como você se sente quando seus pais se separam assim que você sai de casa.

Nikodash via Getty Images
Quais as implicações de um casamento sem amor apenas por conta dos filhos?

Muito já se pesquisou sobre como o divórcio pode afetar o desenvolvimento emocional das crianças pequenas, mas sabe-se relativamente pouco sobre os efeitos emocionais de um filho crescido cujos pais decidem se divorciar assim que ele sai de casa – some-se a isso o modo como a relação conjugal dos pais já pode ter moldado o filho há anos.

Alguns pais esperam para se divorciarem até seus filhos se tornarem jovens adultos, determinados a não se separarem durante os anos de formação da personalidade das crianças ou quando estes são adolescentes, uma fase que já é emocionalmente turbulenta.

Em outros casos, casais cujos filhos saíram de casa e ficaram com o “ninho vazio” de repente se depararam com a perspectiva de viver décadas ainda (especialmente quando se leva em conta o prolongamento da expectativa de vida) com um cônjuge de quem já haviam se distanciado.

Sejam quais forem os motivos que os levaram a continuar juntos até agora, há razões para se analisar melhor o efeito do divórcio sobre os filhos mais velhos.

Os índices de divórcio nos Estados Unidos estão caindo, exceto entre os adultos na faixa dos 50 anos ou mais. A taxa de divórcio entre esse setor da população basicamente dobrou desde a década de 1990. Isso significa que o número de americanos que eram quase adultos ou adultos quando seus pais se separaram também vem crescendo.

Mas ninguém sabe qual é o efeito disso.

“Não existe apenas um ângulo sob o qual analisar essa questão”, comentou Constance Ahrons, professora emérita de sociologia na University of Southern California e autora de The Good Divorce.

“Os pais que estão tentando decidir se esperam ou não para se separar precisam se perguntar: ‘Como é que nosso casamento está afetando nossos filhos?’. Tendemos a enfocar principalmente o efeito do divórcio sobre os filhos, mas é bom lembrar que antes de sair de casa eles já terão passado 18 anos vivendo com seus pais e sob o efeito do casamento deles.”

A seguir, 5 pessoas que já eram adultas quando seus pais se divorciaram revelam como foi essa experiência para elas – e como isso os influenciou em seu papel de cônjuges e pais.

“Dizer que fomos pegos totalmente de surpresa é pouco.”

Em nenhum momento da relação de meus pais, eu e meus irmãos imaginamos que eles pudessem se divorciar. Não havia brigas, não houve separações temporárias, nada. Dizer que fomos pegos totalmente de surpresa é pouco. Mas parece que nosso pai vinha planejando isso havia algum tempo, a tal ponto que já estava com um apartamento pronto e montado para se mudar assim que saímos de casa. Ele nos falou que pensou que, se continuasse com minha mãe até eu e meus irmãos termos completado 18 anos, não teria a obrigação de pagar pensão alimentícia para nós.

Não sei se eu teria sabido o que fazer se ele tivesse ido embora quando eu era criança, assim como fiquei sem saber o que fazer quando eu tinha 19 anos e ele foi embora. Alguma coisa teria sido diferente? Ele foi embora no fim de semana do Dia das Mães. Quando perguntei por que ele escolheu justamente aquele dia, meu pai falou que simplesmente não aguentava mais representar um papel e satisfazer as expectativas alheias.

O divórcio mudou completamente minha relação tanto com meu pai quanto com minha mãe. Não falo com meu pai há 13 anos. Minha mãe hoje mora num anexo à nossa casa e participa tremendamente na vida de meus filhos. De vez em quando, em algum momento quando estamos todos juntos, ela comenta: “Será que ele faz ideia do que está perdendo?” —Laura, 34, Massachusetts

Um amigo de infância me falou: “Acho tão bom poder ir à sua casa, assim tenho uma ideia de como é uma família normal”.

Quando eu era criança, meu relacionamento com meus pais era de muito amor. Me lembro de um amigo de infância que me disse “acho tão bom poder ir para sua casa, assim posso ver como é uma família normal”. Fast-forward para quando eu estava na pós-graduação e recebi uma ligação de minha mãe dizendo “seu pai e eu resolvemos que vamos começar a nos separar”. Aquilo me pegou totalmente de surpresa. Então comecei a conversar com minha irmã – eu estava com 22 anos na época e ela tinha 16 – e ela me disse: “A situação por aqui ficou muito complicada. Eles vivem brigando. Mamãe está supertriste”.

Eles se separaram, mas só formalizaram o divórcio 2 anos atrás, então foi um processo que levou uma década. As coisas entre eles viraram muito pesadas, com muitas desavenças. Os 2 não podem ficar na mesma sala. Às vezes fico pensando: esta é a família na qual cresci, a gente vivia fazendo coisas juntos, íamos ao rio juntos, e agora a situação chegou a esse ponto?

Acho que não notei que eles estavam infelizes em parte porque quando você é criança, mesmo que seja uma criança dotada de percepção emocional, há muita coisa que você não vê. E meus pais claramente fizeram um esforço para esconder os problemas deles de nós. Queriam que eu e minha irmã primeiro terminássemos nossos estudos, porque achavam isso importante. Acho que isso de certa forma foi uma atitude nobre da parte deles. Mas quando olho para trás tenho um sentimento de culpa, especialmente agora que estou ficando mais velho e tendo uma ideia mais clara do custo, em termos de tempo e oportunidades, das decisões que tomamos. Tendo passado por isso, acho que se as pessoas estão prontas para se divorciarem, deveriam se divorciar de fato. Um casamento é uma coisa importantíssima, preciosa. Mas estou convencido de que todos podem ser mais felizes se não ficarem arrastando um casamento que não funciona mais. — Nick, 34, Califórnia

“Eu já tinha idade suficiente para que tanto meu pai quanto minha mãe me fizessem confidências. E isso me levou a ter ataques de pânico.”

Meus pais esperaram para se divorciar quando meu irmão e eu já estávamos na faculdade. Sempre digo que eles deveriam ter se divorciado quando éramos crianças, porque o relacionamento deles não era bom. Meu pai era altamente controlador. A expectativa dele era que quando ele voltasse para casa depois do trabalho a casa estivesse arrumada e o jantar estivesse na mesa – apesar de minha mãe também trabalhar, mesmo que ela fizesse o trabalho dela em casa.

Eu não sabia na época, mas minha mãe estava economizando o dinheiro que ganhava e esperando até a hora de meu irmão e eu termos saído de casa. Sou 2 anos mais velha que meu irmão, por isso eu saí primeiro. Quando meu irmão saiu também, minha mãe deixou meu pai. Eu já tinha idade suficiente para que os 2 me fizessem confidências. Isso foi super difícil e na realidade me levou a ter ataques de pânico.

Não sei ao certo como tudo isso me influenciou como adulta. Eu encaro o divórcio como algo muito sério, mas eu não sujeitaria minha própria filha a um relacionamento tóxico. Penso no fato de que o modo como me comporto no relacionamento com meu marido tem impacto sobre minha filha. Ao mesmo tempo, porém, acho dificílimo mudar meus comportamentos. Meu marido e eu temos um bom relacionamento, mas eu poderia fazer melhor, sem dúvida alguma. — Anônima, 42, Flórida

“Não entendi por que ela continuou casada com ele”

Meus pais sempre se davam as mãos e diziam “eu te amo” um ao outro antes de saírem de casa. Até os 12 anos de idade eu não tinha consciência de que houvesse algum problema. Um dia acordei para me arrumar para ir à escola e encontrei minha mãe chorando no sofá. Perguntei qual era o problema, e ela disse que estava doente. Percebi claramente que ela não estava doente, então fiquei insistindo. Ela acabou me contando que meu pai havia voltado de uma viagem de negócios e lhe dito “não te amo mais há anos”. Minha mãe acabou me contando que ele a havia traído muitas vezes, a primeira vez quando ela estava grávida de mim.

Sou uma pessoa de pensamento muito lógico. Eu não entendi por que ela continuara casada com ele. Perguntei isso a ela depois que a separação foi finalizada, e ela me disse que era porque não queria ver outra mulher “criando seus filhos”... Fico triste por minha mãe ter se sentido obrigada a continuar com um casamento em que não se sentia amada, mas foi uma decisão que ela própria tomou. Talvez tenha sido motivada pelo medo. Talvez ela tenha sentido que o amor de seus filhos lhe bastava. Em todo caso, me sinto grata por possuir a autoconsciência suficiente para aprender com os erros de meus pais – e por querer compreendê-los.

Meu marido e eu somos completamente abertos com nossos filhos. Contamos a eles que papai e mamãe às vezes discordam, mas que sempre conversamos sobre nossas discordâncias, chegamos a um acordo e que nos amamos de qualquer maneira, aconteça o que acontecer. Às vezes nossos filhos nos veem discutindo problemas; às vezes esperamos para fazer isso depois de eles terem ido dormir. Quando eu era criança, ouvi muita gritaria unilateral. Então hoje presto muita atenção ao meu tom de voz. — Anônima, 31, Denver

“Acho que foi uma coisa geracional, cultural.”

Quando eu era criança e adolescente, meus pais viviam mudando de ideia. Uma hora diziam “vamos nos divorciar!”, depois falavam “não vamos nos divorciar!”. Quando eu estava na quinta ou sexta série me levaram para a casa da minha nonna, sentaram-se na minha frente e me disseram que iam se divorciar. Fiquei perturbada, tão perturbada que comecei a ter crises na escola. Então eles resolveram que não ia acontecer. Mais tarde, porém, em casa, eles ainda ficavam falando disso. A discussão se arrastou por anos. Eu queria que eles tivessem se divorciado antes.

Eu perguntava a eles: “Por que vocês dois ainda estão casados?” Minha mãe me dizia que queria que meu irmão, que era o mais novo, crescesse numa casa com pai e mãe. Quando eles finalmente se divorciaram, quando eu tinha 21 anos e estava na faculdade, não foi surpresa nenhuma. Acho que foi em parte uma coisa geracional, cultural.

Os primeiros 10 anos foram superdifíceis e todo mundo estava tentando definir como as coisas iam ficar. Mas hoje meus pais se conversam, eles trocam mensagens de texto. Nas festas de aniversário de meu filho de 5 anos, os dois comparecem. Hoje eles estão se dando muito melhor do que quando estavam juntos. Eu queria que eles tivessem se divorciado antes, porque assim teríamos chegado a este ponto antes. — Christina, 38, Nova Jersey

As conversas foram editadas e condensadas para permitir maior clareza.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.