OPINIÃO
27/06/2019 07:17 -03 | Atualizado 27/06/2019 10:18 -03

'Divino Amor': Religião, Estado e sexo se confundem no Brasil de 2027

Ficção científica de Gabriel Mascaro é uma reflexão sem receios e pudores sobre um futuro cada vez mais próximo.

À primeira vista, ou dependendo de um ponto de vista, Divino Amor, novo filme de Gabriel Mascaro, que estreia nesta quinta-feira (27), parece apenas uma crítica ácida ao crescimento exponencial da cultura evangélica no Brasil. Como se em um futuro próximo, no caso 2027, não fosse nada demais um presidente da República sugerir que está na hora de o STF ter um juiz evangélico.

Mas o terceiro longa de ficção do diretor pernambucano é bem mais complexo do que isso. Como ele próprio coloca, Divino Amor — projeto que nasceu anos antes da eleição de Jair Bolsonaro — não quer apontar dedos, mas sim discutir (e pensar) a relação entre Estado, religião e corpo.

No âmbito do namoro — que no Brasil atual parece fadado ao casamento — entre Estado e religião, o filme desfila referências culturais e estruturais de um país onde o limite entre essas duas estruturas de poder foi totalmente ultrapassado. Uma realidade de raves gospel, drive thru religioso, aconselhamento matrimonial em cartórios, batismos em massa… Tudo envolto em uma atmosfera de neon quase fantasmagórica da fotografia do mexicano Diego Garcia, que já imprimiu esse estilo em suas parcerias com o dinamarquês Nicolas Winding Refn em Drive (2011) e Demônio de Neon (2016).

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Joana (Dira Paes) sofre com a infertilidade de seu marido, Danilo (Julio Machado).

Até aí, nada que possa chocar o público, por mais bizarro que isso possa parecer. Vivemos tempos bizarros. Porém, quando se adiciona o corpo, a terceira parte dessa santíssima trindade, a história ganha em densidade e, principalmente, provocação. Aqui, Mascaro coloca sal em uma ferida ainda aberta. Ele utiliza o erótico inerente da pornochanchada brasileira em união com o sagrado, como se o evangelismo chegasse a tal ponto de apropriação que até o pornográfico foi acrescentado aos rituais religiosos.

Esse controle biopolítico do corpo, como Mascaro definiu em uma de suas coletivas antes da estreia de Divino Amor no circuito, é a peça que une as engrenagens entre Estado e religião, personificado na figura de Joana — a excelente Dira Paes. Ela interpreta uma burocrata extremamente religiosa que tenta a todo custo cumprir seu papel de mulher temente a Deus e formar uma família.

No Brasil de 2027, a manutenção da família cristã é o arco e a flecha de um Estado teocrático. Por conta disso, Joana sente a pressão que ela mesma, como mulher de fé, se impõe, e que afeta seu casamento. Ela quer ter um filho, mas seu marido tem problemas de fertilidade. Enquanto tenta salvar sua própria união, Joana, que é escrivã em um cartório, aconselha casais que entram com pedidos de divórcio a desistir do processo de separação, levando-os a uma tipo de terapia de casais de cunho religioso chamada Divino Amor.  

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Reunião do Divino Amor: "Quem ama não trai. Quem ama, divide".

Diferentemente das distopias tradicionais, tão em voga hoje em dia, Joana não luta contra o sistema. Ao contrário de June, da série O Conto da Aia, Joana acredita viver uma utopia. Mas ela acaba aprendendo que a força de sua fé será sua ruína. Em uma sociedade em que Cristo funciona mais como um Big Brother [do livro 1984] do que seu salvador, sua volta é louvada, mas indesejada. 

Divino Amor é um mergulho em uma reflexão cheia de contradições que, por mais que fale do futuro, diz, sem receios e pudores, muito sobre o Brasil de hoje. É uma ficção científica com a nossa cara, de um sincretismo religioso e profano incrível que só sendo brasileiro mesmo para compreender. Mas, prepare-se, essa viagem no tempo não será fácil.