Minha mãe era espiã da CIA, e essas eram as roupas que ela usava no trabalho

Em uma carreira que durou de 1975 a 2007, minha mãe – uma agente da CIA – se disfarçava assim.
<i>Suzanne Matthews em um caf&eacute; de Atenas, em 1981.</i>
Suzanne Matthews em um café de Atenas, em 1981.

Lembro claramente de minha mãe chegando do trabalho todos os dias, por volta das 16h. Ela corria para seu quarto antes de dar oi para a gente – sapatos voando para um lado, o blazer para outro. Sempre achei curioso que a primeira coisa que ela fizesse ao entrar em casa era trocar de roupa.

Em retrospecto, essa rotina reflete a necessidade que ela tinha de passar da persona de espião do pós-Guerra Fria para a de mãe. Trabalhar como agente operacional da CIA já era exigente demais para ela, e isso explicava a pressa para chegar ao armário. Apesar disso, ela trazia o estresse do trabalho para dentro de casa, como um rastreador discretamente colocado na lapela de suas camisas.

Ao longo de uma carreira que durou de 1975 a 2007, essas eram as roupas que minha mãe – uma agente da CIA – usava no trabalho.

<i>Suzanne Matthews e o marido, Jason, em Atenas, 1979.</i>
Suzanne Matthews e o marido, Jason, em Atenas, 1979.

Minha mãe nasceu em Cheyenne, estado de Wyoming. Como a personagem de uma famosa música country, ela queria ter a experiência da vida em uma cidade grande. “Passei um verão viajando com meu irmão pela Europa”, me disse ela. “Estava decidida a voltar, mas não sabia muito bem como. Um amigo sugeriu tentar carreira na CIA, pois a mãe dele era recrutadora, então fiz uma entrevista e consegui um emprego de secretária.”

Minha mãe se mudou para Washington nos anos 1970, trabalhando numa atmosfera bem corporativa. As roupas tinham de ser adequadas. “Como estava começando a carreira logo depois da faculdade, não tinha muito dinheiro para gastar com roupas”, disse ela. “Morando na região de Washington, onde os funcionários do governo federal são conhecidos por se vestir de maneira conservadora, fiz o mesmo. Meu ‘uniforme’ era um paletó com saias ou calças e sapatos confortáveis. Nada muito memorável, só beges, brancos e pretos básicos. Assim, eu conseguia mesclar as peças com meu orçamento limitado.”

Mas, mesmo tendo começado como secretária, ela fazia trabalhos operacionais também, especialmente quando surgiam necessidades em consulados ou embaixadas.

Em 1982, Suzanne foi promovida a Oficial Operativa Especial, o que significou uma mudança drástica em seu trabalho – e também em suas roupas. É claro que o estereótipo dos espiões são blusas de gola rolê pretas, Ray Bans e uma capa Burberry. Mas, ao contrário dessa imagem estereotipada (e de todos os filmes de Jason Bourne), misturar-se no ambiente faz mais sentido do que aparecer demais. E capa e óculos escuros não ajudam nada no mundo da contra-inteligência.

<i>A foto do crach&aacute; de Matthews em 1980.</i>
A foto do crachá de Matthews em 1980.

“Encontrar fontes clandestinas ‘na rua’ pode ser muito intimidador”, diz Suzanne. “Nosso objetivo principal era proteger as fontes. Isso significa ‘desaparecer’ no ambiente, não chamar atenção. Dependendo do lugar, usávamos um disfarce simples ou uma personalidade que parecesse fazer parte dali. Se a cidade fosse popular com turistas, por exemplo, usávamos tênis, shorts e boné.”

“Às vezes, na tentativa de despistar possíveis agentes adversários, tentávamos trocar de roupa, tirando ou colocando uma peça de roupa, trocando um sapato ou botando uma peruca.”

Minha mãe conseguia se camuflar de acordo com o ambiente se vestindo como turista – mas sem perder de vista o objetivo de todo agente da CIA, que é ser o mais “neutro” o possível.

<i>Matthews em Atenas, em 1981.</i>
Matthews em Atenas, em 1981.

Conforme sua carreira avançava, as obrigações de Suzanne também mudavam. Não é simples manter a separação entre o trabalho de espião no exterior e a vida familiar. Isso é especialmente complicado para as agentes mulheres. Minha mãe fazia tinha de dar conta das exigências da carreira e também da criação dos filhos.

“Normalmente, as crianças não são incluídas em operações clandestinas”, diz Suzanne. “Se temos de vigiar casualmente alguma pessoa, uma ida a um restaurante ou a uma sorveteria ajudavam a manter o disfarce. Somos treinados para operar à plena vista dos outros. Em geral, não recomendo levar crianças para operações. Muita coisa pode dar errado, e é essencial proteger as fontes nos encontros.”

Minha mãe sofria para decidir que roupas usar. Ela evitava sapatos de salto a qualquer custo. Ela também tinha de adaptar o “uniforme” corporativo à moda das ruas das cidades europeias pelas quais ela circulava.

<i>Matthews com o marido, Jason (ele tamb&eacute;m um veterano da CIA), no baile anual dos fuzileiros navais, em Budapeste, 1986.</i>
Matthews com o marido, Jason (ele também um veterano da CIA), no baile anual dos fuzileiros navais, em Budapeste, 1986.

“Trabalhar no escritório em Washington é uma coisa. Trabalhar ‘na rua’ em outro país exige um senso aguçado da moda e do comportamento local”, diz ela.

Em uma profissão em que as roupas podem te tornar alvo dos governos inimigos, as roupas escolhidas por Suzanne toda manhã tinham muita importância.

<i>Matthews com a fam&iacute;lia em Hong Kong, em 1996.</i>
Matthews com a família em Hong Kong, em 1996.

Para certas pessoas, vestir-se para o trabalho é algo puramente utilitário: jeans, camiseta e um suéter. Para outros, o uniforme é obrigatório. Para Suzanne, uma veterana aposentada da CIA, a moda era uma maneira de misturar-se ao ambiente – de ruas escuras de um país exótico aos corredores da sede da CIA nos anos Reagan.

Se ela não fosse capaz de fazer as escolhas adequadas, sua carreira poderia ter fracassado. Depois de 30 anos, agora ela pode usar colares e brincos dourados sem a preocupação de perder uma fonte importante.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.