NOTÍCIAS
18/09/2019 07:43 -03

O que já se sabe sobre o discurso de Bolsonaro na ONU

Presidente promete declarações diferentes de antecessores, com defesa da soberania e do potencial do País. Assessores temem temperamento imprevisível do mandatário.

Adriano Machado / Reuters
Presidente Jair Bolsonaro estreará na Assembleia Geral da ONU em menos de uma semana.

A seis dias de estrear na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, Jair Bolsonaro disse que já começou a “rascunhar” seu discurso. Sua postura diante dos demais 192 chefes de estado (ou representantes) no próximo 24 de setembro é, porém, uma incógnita. Com a promessa de uma fala “diferente” dos antecessores — “conciliatória”, mas que também “vai reafirmar a questão da soberania” —, há no Planalto um clima de temor de novas crises diplomáticas. 

“Como será o tom do discurso, ao certo, ninguém sabe. Acredita-se em algo mais moderado após toda a repercussão negativa dos últimos tempos. Porém, é tudo muito imprevisível”, disse um palaciano ao HuffPost. 

“Imprevisível”, afirmam interlocutores, é o “temperamento” do presidente. “Se ele notar que alguns chefes de Estado não estão presentes [para seu discurso], ou que alguns, porventura, se levantaram... Ninguém sabe ao certo o que pode acontecer... Ele pode largar o discurso escrito no meio [parar de ler] e começar a improvisar. Isso pode ser uma catástrofe total”, avaliou um integrante da comitiva presidencial à reportagem. 

Em entrevista veiculada na TV Record na segunda (16), Bolsonaro deixou clara sua intenção: “Já comecei a rascunhar o discurso, um discurso diferente dos que me antecederam. É conciliatório, sim, mas vai reafirmar a questão da nossa soberania e do potencial que o Brasil tem para o mundo, coisa que poucos ou quase nenhum presidente teve na ONU”.

Os maiores discursos que fez até hoje, porém, foram elaborados pelo assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins. Foi ele quem escreveu as páginas lidas em cerca de 10 minutos por Bolsonaro na posse e também a fala relâmpago de 6 minutos do mandatário em Davos, em 25 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial — havia, na ocasião, 45 minutos reservados para o discurso e uma rodada de perguntas. 

Arnd Wiegmann / Reuters
Bolsonaro em Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial. 

Atenção especial para a ONU

Com os olhos do mundo sobre o Brasil, especialmente após os incêndios na Amazônia, toda oportunidade tem sido usada para tratar da ocasião. Em viagem oficial a Washington semana passada, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, esteve com Steve Bannon, o ex-estrategista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o encontro ocorreu na última quarta, dia 11 de setembro, em um jantar oferecido na embaixada brasileira nos EUA. Também participou o encarregado de Negócios, Nestor Foster.

A relação de Bannon com a família Bolsonaro teve início no ano passado, quando o filho do presidente que almeja a vaga de embaixador em Washington, Eduardo, reuniu-se com o ex-estrategista e Trump - ele foi demitido da Casa Branca em 2017. 

Bannon liderou a campanha de Trump à Presidência dos EUA em 2016 com uma retórica anti-imigração e de escárnio às minorias. Bannon usou esse tom no site de direita Breitbart desde 2012. Um tom semelhante foi adotado por Jair Bolsonaro em sua campanha. 

Ponto central do discurso na ONU

Independentemente de a quantas mãos as linhas que Bolsonaro deve ler forem escritas, Amazônia é um tema que estará, com certeza, entre elas.

Para o ex-ministro do Meio Ambiente Rubens Ricupero porém, o presidente não tem credibilidade para levar sua política ambiental para a Assembleia da ONU.

“Vamos ver nos próximos dias, na assembleia, a intensificação da retórica do governo invocar a soberania, única defesa que encontram nessa situação indefensável. Ele não tem credibilidade de dizer que se interessa, se embrulhar na bandeira como sempre faz. Como diz Samuel Johnson, ‘o último refúgio do canalha é o patriotismo’. A verdade é que em 99,99% dos casos documentados, atentados contra a Amazônia, os atores sempre foram brasileiros. Essa ameaça do mundo exterior é, em grande parte, uma paranoia que infelizmente tem raízes profundas entre militares, sobretudo no Exército, que cultivam isso. E vai ser invocado mais uma vez.”, disparou o diplomata que chefiou os ministérios do Meio Ambiente e da Fazenda durante o governo Itamar Franco.

Reuters
Soberania do Brasil e a Amazônia estarão presentes no discurso de Bolsonaro.

Ricupero ressalta que a Amazônia inclui oito países e, segundo ele, há pouquíssimos relatos na História que demostram interesse internacional no setor. “Ao contrário do que se costuma dizer, a pressão internacional não é só necessária como indispensável. Quanto mais forte, melhor.”

Ele, no entanto, criciou o presidente da França, Emmanuel Macron, pelas declarações sobre Amazônia. “As declarações do presidente [Emannuel] Macron foram infelizes, questionando a soberania, porque quanto a isso ninguém vai discutir. Mas soberania significa responsabilidade e não irresponsabilidade.”

Ainda de acordo com o ex-ministro, o grande setor que pode influenciar mudanças nas políticas ambientais do governo é o agronegócio. “Se eles se convencerem que, de fato correm risco, eles se mexerão”, completou Ricupero. 

Causador de polêmicas internacionais

Em sua última entrevista coletiva como presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, a diplomata equatoriana María Fernanda Espinosa aconselhou aos chefes de estado estreantes uma “atitude construtiva”. “Esta é a casa do diálogo. Esta é a casa da concordância. Esta é uma casa para se conversar. Esta é uma casa onde nos reunimos e fazemos acordos sobre coisas que faremos para melhorar o mundo. Então, eu diria que, quem quer que venha, tem que ter uma atitude construtiva. Com uma atitude que compreenda que todos fazemos parte da comunidade global e que todos pertencemos à mesma espécie, a espécie humana”, afirmou, de acordo com a BBC.

A 74ª reunião que será aberta com o discurso do presidente Jair Bolsonaro será chefiada pelo nigeriano Tijjani Muhammad-Bande. 

Desde agosto, Bolsonaro protagonizou várias frentes de crises a partir de suas falas, sejam pessoalmente, ou via redes sociais. 

Em meio às polêmicas sobre a política ambiental do governo, o presidente mirou a chanceler alemã, Angela Merkel, e a Noruega. Ambos os países suspenderam suas contribuições para o combate ao desmatamento da Amazônia após a divulgação de dados que mostraram a elevação do percentual de desmate - aos quais Jair Bolsonaro criticou e chamou de mentirosos.  

Seguiram-se as trocas de farpas e acusações com o presidente francês, Emannuel Macron, sobre as queimadas que tomaram a Amazônia. Em meio a essa guerra, o mandatário brasileiro endossou um comentário de um internauta que zombava da primeira-dama da França, Brigitte Macron, por ser 24 anos mais velha que o marido. O comentário de Jair Bolsonaro repercutiu na imprensa internacional. Nos jornais franceses, foi chamado de sexista.

Houve ainda os ataques feitos à alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Após ela afirmar que o espaço democrático está encolhendo no Brasil, o mandatário investiu contra o pai dela, Alberto Bachelet, torturado e morto pela ditadura militar de Augusto Pinochet.

Última avaliação médica para NY 

Recém-operado - o presidente foi submetido a uma cirurgia para correção de uma hérnia na região do abdômen em São Paulo no dia 8 de setembro, ainda resultante da facada que sofreu há mais de ano -, Bolsonaro repetiu na entrevista à TV Record sua disposição de participar do evento da ONU a qualquer custo. “Falei há um tempo atrás que iria de qualquer maneira, nem que fosse de cadeira de rodas”. 

Na sexta-feira (20), porém, ele deve passar por mais uma avaliação médica. A viagem para Nova York, inicialmente prevista para domingo (22), foi adiada para segunda-feira (23), justamente pelo quadro de saúde do mandatário. Ele se recupera bem, mas os médicos pediram que ele reduzisse as atividade nos Estados Unidos.