ENTRETENIMENTO
29/06/2019 08:43 -03

'O Brasil precisa de provocações e eu quero provocar', diz Dira Paes sobre 'Divino Amor'

Atriz fala de maternidade, corpo e do motivo de ter pedido para o universo pelo papel no sci-fi erótico/religioso de Gabriel Mascaro.

Divulgação
Dira Paes em sua passagem pelo Festival de Berlim com Divino Amor, em fevereiro de 2019.

O que poderia ser mais explosivo que a combinação de erotismo e religião? É exatamente essa fórmula volátil que Dira Paes procurava para dar uma “renovada” em sua carreira. Em Divino Amor, uma ficção científica que mostra um Brasil futurista que se transformou em uma teocracia cristã, a atriz paraense, que completa 50 anos neste domingo (30), não tem medo de se expor de corpo e alma com o objetivo de provocar.

“Aqui no Brasil, nós estamos precisando de provocações que nos tirem do lugar comum, do lugar de conforto. Não é a primeira vez que eu mergulho em processos desafiadores e que deixam as pessoas com essa sensação de provocação. Porque às vezes é exatamente isso que eu quero fazer: provocar”, esclarece Dira, que diz nem ter pensado na possibilidade de sofrer qualquer tipo de perseguição por parte de setores conservadores que vêm ganhando cada vez mais força e espaço no País. “Se isso acontecer, será público e notório que estamos vivendo uma ditadura.”

Muito sincera e aberta, ela fala sobre suas claras diferenças em relação à sua personagem, a burocrata extremamente religiosa Joana, mas também da experiência semelhante que as duas viveram: a busca pela maternidade que, segundo a atriz, chega a cegar.

Dira, que teve seu primeiro filho aos 38 anos, teve de recorrer à fertilização in vitro para ter seu segundo filho. “Meu corpo de atriz está a serviço da minha arte, ele é meu escritório e eu tenho total liberdade de dar roupagens diferentes para ele. Fazendo um paralelo com a Joana, o corpo dela também vive em função de algo sagrado.” 

Veja aqui a entrevista exclusiva que o HuffPost Brasil fez com Dira sobre vida, carreira e principalmente seu papel no explosivo Divino Amor:

HuffPost Brasil: Quem é a Joana?

Dira Paes: Se tivesse que responder em apenas uma frase: uma mulher de fé. Mas uma mulher podada, cercada por regras, uma mulher sem espontaneidade. Uma mulher que engole os sentimentos porque tem que viver conforme os dogmas vigentes daquele 2027 que a gente retrata no filme. Uma mulher que não tem liberdade de dar uma gargalhada no trabalho, que até dentro de casa ela se poda. E aí vem esse tom bem diferenciado da minha espontaneidade. Para mim, a Joana foi um grande desafio nesse sentido. Porque era a construção de um outro olhar, de expressão. Aliás eu até brinquei com o Gabriel [Mascaro, diretor de Divino Amor]. Falei para ele: ‘Se eu soubesse mexer minha sobrancelha aí eu realmente teria feito um grande trabalho [risos].’ A Joana me provocou uma tentativa que é muito contrária a mim, que é de interiorização mesmo. Como se fosse uma contenção. É uma represa de gente que tem que ser igual a todos, porque o diferente não cabe dentro desse espectro de 2027 que estamos propondo.

Por mais diferente que a Joana seja de você, como você mesma acabou de dizer, assim como ela, você passou por uma situação semelhante como mãe também, essa busca por ter um filho. Como é experimentar isso? Você coloca sentimentos que viveu em sua vida pessoal na personagem?

Eu, na verdade, na hora do sentir, de fazer a cena, você não sabe muito bem o que o seu corpo, através desse sentimento, vai acessar. Às vezes o corpo não reconhece que a cena acabou. A gente tem uma confusão entre corpo e mente quando você está em cena. Mas eu entendo a Joana nesse afã de ter um filho. Eu tive esse mesmo afã quando percebi que estava entrando na maturidade e aquilo [ter um filho] ainda não tinha acontecido. E não só com o primeiro, mas com o segundo filho também.

O primeiro veio de forma natural e o segundo eu fui até onde eu pude e consegui realizar esse sonho na última chance. Aí eu me encontro com a Joana. Eu conheço esse lugar. É um lugar que cega, um lugar de foco, um lugar-meta, porque ser mãe tem a ver com uma necessidade biológica que algumas mulheres têm e outras não têm.

E eu percebi que eu precisava não só de um, mas de dois filhos. Isso tudo não é lógico, racional. Passa pela irracionalidade do seu corpo pedindo alguma coisa. E da sua mente fazendo que seu corpo queira alguma coisa. Eu tive algumas gravidezes que não evoluíram. Ou seja, eu estava querendo, estava indo por aquele caminho. Da mesma forma que a Joana.

Eu fui a um laboratório para engravidar. Você vai em direção ao seu desejo, sua vontade. Também entendo na Joana quase uma solidão nesse desejo máximo da vida dela. O marido também quer um filho, mas nesse desejo ele é levado pela mão dela. 

O meu corpo de atriz está a serviço da minha arte; está a serviço do cinema, da televisão, do teatro, do circo. Meu corpo é o meu escritório e eu tenho total liberdade de dar roupagens diferentes para ele.

Você nunca teve medo de se arriscar em papéis desafiadores. Nunca teve receio de expor até o seu corpo, como expõe aqui em Divino Amor. Mas o filme tem a religião como um ponto central da história, que no Brasil hoje pode ser uma questão bem delicada. Você não teme ser perseguida caso o filme repercuta de forma negativa com comunidades ou pessoas com uma visão mais radical?

Não. Eu espero que não. Se isso acontecer, será público e notório que estamos vivendo uma ditadura. Espero que as pessoas possam articular sobre o filme, até contestar o filme, mas perseguir quem está envolvido no filme é um absurdo.

Quem acompanha minha carreira sabe que o cinema é o meu berço. Eu fiz mais de 40 longas na minha carreira e eu experimentei o Brasil como um todo. Neste ano estou em Divino Amor e também em Pureza, um filme do Renato Barbieri que ainda será lançado que fala sobre trabalho escravo na Amazônia. Isso mostra o quanto eu busco a variedade nos papéis. Diversificar; a provocação é parte disso.

Em Divino Amor, eu mostro o corpo de uma mulher de 50 anos, não é uma garota plena de toda a sua beleza querendo se mostrar. O meu corpo de atriz está a serviço da minha arte, está a serviço do cinema, da televisão, do teatro, do circo. Meu corpo é o meu escritório e eu tenho total liberdade de dar roupagens diferentes para ele.

Fazendo um paralelo com a Joana, o corpo dela também vive em função de algo sagrado. Eu me sinto assim também em relação ao meu corpo. Aqui no Brasil, nós estamos precisando de provocações que nos tirem do lugar comum, do lugar de conforto. Eu sei que eu tenho um público que gosta de mim e que respeita o meu trabalho e minhas escolhas.

Como você mesmo falou, não é a primeira vez que eu mergulho em processos desafiadores e que deixam as pessoas com essa sensação de provocação. Porque às vezes é exatamente isso que eu quero fazer; provocar. Mas é muito importante deixar claro que eu não estou nem contando com essa possibilidade de ser perseguida por conta do filme.

Espero que as pessoas possam articular sobre o filme, até contestar o filme, mas perseguir quem está envolvido no filme é um absurdo.

O que mais te chamou atenção no filme e no seu papel quando você recebeu o roteiro?

Eu vinha de uma novela, Velho Chico, onde a gente viveu uma experiência incrível e aterrorizante. Incrível pela novela em si, porque foi uma novela muito bem pautada, muito bem interpretada. Dividi cena com o Irandhir Santos, que é um grande parceiro do cinema.

Mas aí tivemos aquele momento da perda do Domingos Montagner [ator que morreu afogado em um intervalo entre gravações da novela]. E aquilo me provocou profundas reflexões. Acabei me retirando. Tentei ficar fora da TV pelo máximo de tempo possível porque eu queria experimentar de novo o cinema, mas queria um papel especial.

Lembro de pedir muito isso para o universo. Ao ponto de ficar mentalizando isso. Quando o roteiro do Divino Amor chegou até mim, era exatamente por aquilo que eu estava pedindo para o universo.

Divino Amor meu deu vitalidade, ele me resseta, me recoloca como atriz e reafirma meus valores. E me desafia também. Não estou fazendo um filme para ficar em um lugar de conforto. Eu sei que ele não mostra a Dira que o público espera.

É uma subversão do olhar em relação ao meu trabalho. Depois de uma longa caminhada, estou fazendo 35 anos de carreira, eu preciso destes momentos, é preciso ter uma injeção dessas para seu frescor brotar de novo. Eu preciso do meu frescor. Eu trabalho com ele. Ele é um trunfo que eu guardo como meu cristal.