OPINIÃO
08/06/2020 03:00 -03 | Atualizado 08/06/2020 12:41 -03

A São Paulo de Gilberto Dimenstein é para sempre

Artigo escrito ao fim da shiva em homenagem ao jornalista que morreu no fim de maio.

Divulgação

Sexta-feira passada, ao pôr-do-sol, concluiu-se a shiva ou shivah de Gilberto Dimenstein, período de sete dias de luto da religião judaica, dessa vez vivido de forma quase inteiramente digital.

Todos os dias, rezas pela manhã e por volta das 18 horas, durante as quais familiares e amigos prestavam depoimentos. Gilberto faleceu na sexta-feira, dia 29 de maio, no mesmo dia em que seu avô Marcos tinha falecido muitos anos antes.

Em abril, Gilberto concedeu uma entrevista para o Museu da Pessoa, e você pode assistir a um trecho aqui.

Gilberto era meu concunhado, casado com a minha cunhada. Conheci Gilberto Dimenstein aos 11 anos, numa escola restrita e cheia de verde da Bahia. Lembro das carteiras de madeira molhada, do apoio coberto com cerâmica branca. O livro era Cidadão de Papel.

Eu não gostava de não-ficção, nem podia imaginar que um dia me formaria em jornalismo e muito menos que teria a chance de conviver com Gilberto ao longo de nove anos. Nove anos é muito tempo para quem só viveu 11. Mas o título chamou a atenção. Era literário. Mais do que isso: naquela época e naquela vida, não podia acreditar que outras crianças, talvez até mais jovens do que eu, vivessem uma realidade tão diferente.

O livro foi meu primeiro passo na descoberta do outro, que levou outras décadas para avançar de verdade.

A Liberdade do Outro

Para Gilberto, a ideia do outro já estava incorporada, em seu sentido mais abrangente. Ao encontrar alguém pela primeira vez, tinha urgência em descobrir não quem a pessoa era, mas o que podia fazer por ela (embora, claro, as duas coisas andem juntas). São vários os relatos de conversas a mesas despretensiosas de fim de dia. Para fazer possível: uma exposição, um patrocínio, um concerto.

Algumas chamadas telefônicas ou mensagens de WhatsApp e pronto. Um de nossos papos durou a distância de ida e volta de Itacimirim a Guarajuba, praias do litoral baiano. Ele me disse o que podia fazer, bem, o que devia fazer. Sol a pino, sem pressa nenhuma, e eu só pensava que, embora a princípio concordasse com o que ele dizia, era muito para se esperar de mim. Ainda mais daquele jeito, sem deadline.

O mais curioso é que muitas das coisas que ele disse aconteceram de lá para cá, num encontro entre o outro e a liberdade. Gilberto era alguém de grandes conceitos. Grandes virtudes, como no livro de Natália Ginzburg.

À Luz da Sombra

Foi só no fim de fevereiro que me dei conta de que ele poderia não viver mais tanto assim. A uma mesa com outras 20 pessoas da minha empresa. Muitas nem sabiam do encontro e pararam tudo o que estavam fazendo para ouvi-lo. A ideia era falar sobre projetos com propósito, acelerando o desenvolvimento de nossa saúde e educação.

As pessoas o rodeavam, como se desse para tocar o que ele tinha feito antes de chegar àquela sala. Todos os projetos, todas as pessoas, toda a comunicação. Queriam ouvi-lo, mas também falar, esperando que ele desse alguma luz. Em homenagens passadas, Fabio Barbosa, do Itaú Cultural, conta que ele dizia que quem vive à sombra não resiste à luz. Parece que muitos projetos se materializaram a partir da luz que se pode fazer matéria.

O Legado do Espaço

Uma amiga escreveu recentemente que, nesses dias de quarentena, sentia falta do Beco do Batman, do Armazém da Cidade, da Choque Cultural, daquela atmosfera, em meio à qual podia interagir com gente do mundo todo.

Aos domingos, eu comia acarajé ou sorvete no Armazém, às vezes atravessávamos a rua para comprar vinhos na loja em frente, ou ver uma exposição de fotos na Ceres Art. Ouvi João Carlos Martins pela primeira vez num concerto democrático do último andar da Choque Cultural. Lembro da emoção da gente que enchia a rua. Poucas pessoas ocupam a cidade, menos ainda a transformam. Espaço transforma. A São Paulo de Gilberto é para sempre.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.