COMIDA
06/06/2019 01:08 -03

Os perigos de seguir uma dieta igual à das influencers do Instagram

Especialistas explicam por que não deveríamos copiar cegamente os hábitos alimentares dessas não-profissionais (em sua maioria).

Reprodução/Instagram/@elsas_wholesomelife

Lori Jane Anthony, uma das influenciadoras veganas mais conhecidas do Instagram, com mais de 400 mil seguidores, muitas vezes se refere a uma situação de saúde séria de seu passado: depois de passar o começo da vida adulta comendo porcarias e bebendo muito, ela cortou todos os produtos animais de sua dieta e passou a ingerir apenas frutas, verduras e legumes crus.

Segundo Anthony, problemas como candidíase, inchaço, eczema, perda de cabelo e dores pelo corpo foram curados milagrosamente. Hoje em dia, o Instagram dela é uma coleção de fotos coloridas das suas refeições, compostas apenas de vegetais (desde então, ela incorporou algumas preparações cozidas), poses de biquíni com seus dois filhos e receitas de smoothies de superalimentos.

Anthony, que não respondeu aos pedidos de entrevista do HuffPost, é uma figura central no movimento de bem-estar que está tomando conta do Instagram – e gerando polêmica.

Ela foi criticada por manter a alimentação vegana durante a gravidez e por dar basicamente frutas e vegetais para o filho. Um artigo do Daily Mail se referiu a ela desdenhosamente como “mamãe blogueira” (ela escreveu dois livros de receita) e entrevistou médicos que disseram que algumas das afirmações de Anthony a respeito de saúde são “puro lixo”.

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More about gluten /overly processed food and what it does to me - THIS PHOTO IS 3 DAYS APART! The left photo is a result of 4 days eating 'normal' gluten (vegan) foods and the right photo is 3 days after stopping the foods and detoxing. I did this test on myself for 4 days of eating 'normal' gluten containing vegan foods. I ate wheat bread, mock-meats, cereals, pasta, vegemite, regular peanut butter, regular tomato sauce, which all contain some type of gluten. I also switched my Celtic seas salt (which contains 83 minerals) to table salt (2 concentrated minerals) and regular tap water instead of filtered. This was the result after 4 DAYS! I was in physical pain from my body aching all over, the bloating and because my clothes were so tight from the added water retention and inflammation of my ceIls, I slept terribly (woke up what felt like all night long during this test, gluten is a potential neurotoxin), I ended up with perioral dermatitis around my chin and nose area (which il share in the next post) and my mind was very depressed. Feeling this way reminded me of how I used to feel before I transitioned to a healthy lifestyle, that constant ache. I felt server lack of motivation. I also craved more and more of these foods the more I ate them, even when I was eating a current meal I was thinking about what was next! and I didn't want or feel like fresh produce like salads and fruit- AT ALL. Which was really disturbing. For me, gluten/ overly processed food takes over my mind and body. This is why I choose to eat the way I do now. It is not worth it for me to go back to that way of eating and now you can see why. x

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Ela não é a primeira influenciadora a ser atacada. Essena O’Neill, chamada pelo The Cut de “modelo australiana, estrela do Instagram e entusiasta do estilo de vida vegano” deletou abruptamente suas contas nas redes sociais em 2015, depois de afirmar que as plataformas a deixavam “perdida” e “doente”.

A reação da comunidade vegana foi rápida: ela afirmou que estava recebendo ameaças de morte. Ella Woodward, do Deliciously Ella, condenou a expressão “alimentação limpa” depois de ser criticada por declarações em relação a dietas que poderiam levar a transtornos alimentares.

Algumas tendências que se proliferam no Instagram agora estão sendo desmistificadas (mais recentemente o suco de aipo se tornou a sensação).

A preocupação é que esse foco em uma “alimentação limpa” signifique não só recomendações de comer mais frutas e legumes – mas também contribuir para transtornos alimentares como a ortorexia e disseminar informações que não foram validadas por médicos.

A gordofobia é a última forma de discriminação socialmente aceitável. [As tendências de bem-estar] na realidade se baseiam nessas estruturas sociais que têm de ser denunciadas.Kristi Hall, terapeuta de casais e famílias especializada em transtornos alimentares

Será que é legítimo esse medo de que as redes sociais representem um filtro através do qual as mulheres, em particular, enxergam seus corpos?

Dentro da comunidade do bem-estar do Instagram, a história é muito diferente. Algumas das figuras centrais desse movimento afirmam que só apresentam dietas ou estilos de vida que funcionam para elas e jamais pressionam os seguidores a fazer escolhas que possam trazer problemas de saúde.

“Não faço pregação, não julgo, não sou extremista, mas tenho formação. Tenho diploma em nutrição e dietética”, diz por email ao HuffPost Ellie Bullen, a nutricionista por trás do Elsa’s Wholesome Life. “Minha mensagem é simples: coma mais plantas”.

Charlotte Markey, psicóloga e fundadora do Centro de Ciências de Saúde da Universidade Rutgers, que estuda os efeitos das redes sociais na imagem corporal, diz que Bullen é exceção. A maioria dos influenciadores de bem-estar do Instagram não têm formação médica.

“A maioria é gente bonita dentro dos padrões (e que parece saber disso), que acha que encontrou o cálice sagrado da saúde e da perda de peso”, diz Markey. “É por isso que fazemos pesquisas sobre esse negócio. Centenas, milhares de pessoas participam desses estudos. O que os pesquisadores aprendem com essas pesquisas provavelmente vai ser mais útil que as recomendações de um guru do Instagram.”

Alguns influenciadores nem sequer seguem o estilo de vida que promovem no Instagram e no YouTube. A youtuber celebridade Rawvana foi flagrada comendo peixe. Bonny Rebecca, outra youtuber vegana famosa, recentemente revelou para os seguidores que teve de abandonar a dieta vegana porque ela e o namorado tinham desenvolvido problemas de saúde sérios.

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Elsa’s Healthy Tips 🌈🍉💦 Here’s some of my favourite ways to stay healthy, if you have some favourite health tips please share below 👇🏼 I’d love to hear them!! ⚡️• keep only healthy whole foods in your fridge and pantry. ⚡️• prep some healthy meals or snacks so you have something healthy to grab when hunger hits (eg veggie juices, soup, bircher, bliss balls, hummus or leftovers) ⚡️• hydrate all day. Often when you feel hungry your actually not truely hungry. Have a big glass of water before reaching for food and see if that fixes it. ⚡️• plan your meals for the week - this is the best way to ensure you get everything you need from the markets or store for the week and try to use recipes that utilise the same ingredients. ⚡️• write shopping lists - this will save you wandering every aisle and landing in the choccie aisle convincing yourself you need that chocolate bar 😝 - in fact, try to avoid this aisle all together! ⚡️• if possible, start your day with exercise. Just 30 minutes a day is beneficial to your health. ⚡️• water first! Always drink water over other liquids. If you don’t like plain water, try squeezing in some lemon or lime juice. Personally I love chilled soda/sparkling water. It’s 100% sugar free and I find it really thirst quenching- a great swap from soft drink 👍🏼 #healthytips #health #plantbased #elsaawholesomelife #health #whatsinmyfridge #healthyfridge #wholesome #fitness

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Carlie McKibben, responsável pela conta Plantifully Nourished, adotou o estilo de vida vegano quando se recuperava de um transtorno alimentar.

Ela reconhece que a questão é muito mais complicada do que simplesmente recomendar comer mais plantas. Ela enfatiza que sua mensagem não é “meu estilo é o mais saudável” e que ela não quer ser uma influência “negativa ou estressante” na vida dos seguidores.

Mas ela encontrou pessoas no Instagram que acham que uma dieta vegana vai automaticamente resultar num “corpo dos sonhos”. Ela afirma que a dieta à base de plantas pode virar uma obsessão perigosa.

“Ficava mal ao ver certas contas que postavam ‘o que eu comi hoje’, mostrando só frutas e vegetais, em pequenas quantidades”, diz McKibben. “Muitas meninas que nem sequer entendem a ciência e a ética por trás de uma dieta à base de plantas decidem comer assim por causa das influenciadoras. Isso é um problema.”

Especialistas em imagem corporal afirmam que, talvez involuntariamente, muitas dessas influenciadoras fazem as mulheres se sentirem envergonhadas e culpadas por sua alimentação.

“A cultura do bem-estar do Instagram é danosa porque se baseia no medo. A mensagem é: ‘se você não comer de uma certa maneira, vai ficar com a pele ruim ou ter um corpo feio’”, diz Kristi Hall, terapeuta de casais e famílias especializada em transtornos alimentares. “É uma ideia que se disfarça de saúde e bem-estar, quando, na verdade, é a mesma mensagem de sempre: menor é mais saudável.”

As influenciadoras não estão fazendo afirmações que necessariamente causem problemas físicos nas pessoas (suco de aipo, no fim das contas, é saudável). Mas elas roubam das pessoas a autonomia de tomar decisões a respeito do próprio corpo, diz Hall.

Ela pede cuidado com as contas de Instagram que (intencionalmente ou não) te pressionam a mudar seu estilo de vida ou a ignorar seus instintos. Em geral, isso não é sustentável – e pode ter consequências para sua saúde mental também.

[A cultura do bem-estar no Instagram] se disfarça de saúde e bem-estar, quando na verdade é a mesma mensagem de sempre: menor é mais saudável.Kristi Hall, terapeuta de casais e famílias especializada em transtornos alimentares

“Acaba virando uma questão moral, de alimentação ‘certa’, que pergunta: ‘Você é disciplinado? Você é uma boa pessoa?’ O Instagram contribui com isso”, afirma ela.

Os influenciadores podem acreditar que estão falando apenas por si mesmos em suas contas, mas não é tão simples.

“Pode parecer sua jornada pessoal, mas, na realidade, é uma questão de justiça social”, diz Hall. “A gordofobia é a última forma de discriminação socialmente aceitável. [As tendências de bem-estar] na realidade se baseiam nessas estruturas sociais que têm de ser denunciadas.”

Se os influenciadores vieram para ficar, Markey diz que eles têm de ser “mais responsáveis”, por exemplo incluindo links para estudos que sustentem suas afirmações – dos benefícios do jejum às vantagens de comer sementes de chia.

Mas até mesmo essa solução simples pode não ser suficiente. Hall observa que há tanta ciência de má qualidade na internet, que praticamente qualquer afirmação pode ser “comprovada” com estudos.

Por mais cuidadosas que sejam as celebridades do mundo do bem-estar no Instagram, não há como fugir da reprovação pública.

Markey diz que esse movimento, basicamente composto por mulheres, surgiu, em parte, graças à “crença enraizada de que tem algo errado com as mulheres se elas não se preocuparem com sua aparência”.

Ela também afirma que é errado considerar essas mulheres “superficiais” e que temos de levar em conta que elas respondem a pressão social intensa.

Muitas das mulheres por trás dessas contas são bem-intencionadas e querem divulgar informações que genuinamente acreditam que possam mudar para melhor a vida dos seguidores.

Mas a cultura dos regimes, que existe desde muito antes da invenção do Instagram, sempre puniu as mulheres por serem magras demais, ou por não serem magras o bastante, por não se preocuparem com sua aparência, ou por não se preocuparem o bastante.

A tendência do bem-estar no Instagram pode beneficiar algumas poucas mulheres que viraram celebridades na plataforma.

Mas, para a maioria das outras, as redes sociais só reforçam as mesmas expectativas injustas de sempre – que, no fim das contas, minam a autoestima, em vez de contribuir para uma saúde melhor.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.