COMIDA
21/11/2019 03:00 -03

Dieta: Por que essa cultura me fez odiar meu corpo

Ouvir o que meu corpo quer, e não insultá-lo, me possibilitou enxergar meu corpo gordo sob uma nova ótica.

HuffPost UK

Me recordo de dobrar a embalagem vazia de batatinha chips e escondê-la atrás da minha cama, torcendo para minha mãe não a encontrar. Minutos antes disso eu havia descido a escada silenciosamente, aberto o armário da cozinha e pego o saquinho de batatinha, tomando cuidado para não fazer barulho nenhum.

Eu era apenas uma criança, mas pensava que devia ser viciada em comida. Por que outro motivo eu pensaria em comida constantemente, esconderia comida, daria tanto valor a ela? O que eu não sabia na época é que meu comportamento era totalmente previsível. Eu não era viciada em comida – mas minha relação com a comida era desordenada.

Com 10 anos de idade, eu ainda não era seguidora crônica de regimes e dietas, mas já aprendera todas as regras que pautam o comportamento de quem era: batatinhas chips são ruins, fazem mal à saúde. Comer brócolis faz bem, embora ninguém goste realmente. Não coma depois das 19h. Chocolate é uma guloseima que você pode ganhar como recompensa por ter se comportado bem. Ter um corpinho menor faz com que você seja desejável, saudável e digna de apreço. Ser gorda é um fracasso pessoal.

Quando eu era criança, minha família era pobre. Não tínhamos acesso a uma abundância de comida, especialmente não a comidas deliciosas do tipo que me diziam para não comer demais para não ser tachada de gulosa ou, pior ainda, engordar. Mesmo assim, éramos adeptos da cultura da dieta, assim como muitas famílias em todo o país, senão todas.

Eu levaria anos para desaprender todas as mensagens adversas e destrutivas da cultura das dietas.”

Para minha cabeça ingênua, meu corpo, maior que o de outras pessoas, era a prova evidente de que havia algo de seriamente errado comigo. Eu levaria anos para desaprender todas as mensagens adversas e destrutivas da cultura das dietas.

Eu fazia regimes religiosamente; em dado momento, perdi tanto peso que comecei a distribuir opiniões para outras devotas de dietas na reunião semanal de nosso clube de emagrecimento, dando conselhos ou palavras de incentivo, dependendo do número que aparecia na balança.

Nas épocas em que eu conseguia emagrecer, sentia prazer em julgar as pessoas que não faziam dieta, tachando-as de preguiçosas e insuficientemente dedicadas. Bastaria tentarem para se tornarem como eu: pessoas esbeltas e que tinham valor.

Mas a verdade triste era que não importava quanta força de vontade, dedicação e desespero eu tivesse; para 95% a 97% da população é impossível modificar seu peso corporal significativamente. É essa a porcentagem de fracasso entre as pessoas que fazem dieta.

A outra verdade triste era que mesmo quando eu estava com um corpo menor eu não me sentia atraente ou digna de ser amada. Mesmo magra eu não tinha autoconfiança e não me sentia feliz.

Meu senso real de valor próprio não havia mudado nadinha. E eu tinha aprendido uma tonelada de novas maneiras de ser desordenada em relação à comida. E mais: com o tempo, o peso perdido voltava – com mais um pouco ―, como volta para dois terços das pessoas que fazem regime.

Mais gorda do que nunca e profundamente envergonhada por não conseguir controlar meu corpo, fui à internet em busca de uma solução. Pensei que precisasse de outra dieta novinha em folha que realmente funcionasse dessa vez. Por sorte, porém, em vez de topar com a nova mania de comer aipo e mais nada, me deparei com algo incrível: a alimentação intuitiva.

SALMAN ALI KHAN

O termo foi cunhado por Elyse Resch e Evelyn Tribole na década de 1990. A alimentação intuitiva ensina os seguidores crônicos de regime a fazer as pazes com a comida. Foi apenas quando aprendi sobre a alimentação intuitiva que me dei conta de quão problemático é o modo como nossa sociedade encara o comer e as dimensões corporais.

Alimentar-se intuitivamente é, para mim, me alimentar como se eu nunca tivesse tido minha cabeça perturbada pela cultura das dietas. Todos nós somos comedores intuitivos quando nascemos, mas a sociedade nos rouba dessa habilidade e, em vez disso, nos ensina a desconfiar da comida e restringir nossa alimentação “descontrolada”.

Insultamos o corpo e lhe passamos sermões, quando o que deveríamos fazer é dar ouvidos a ele, respeitar o que ele quer e necessita. Nosso corpo é tremendamente sábio e nos informará o que precisamos. Só temos que deixar de criar obstáculos a isso.

A verdade é que podemos confiar em nós mesmos. Nosso corpo precisa apenas saber que vai poder ter acesso a tudo que ele quer, e em abundância, para então pararmos de exaltar determinados tipos de alimentos.

Hoje eu como o que quero, quando quero. Quando as pessoas ouvem isso, ficam nervosas. Elas imaginam que, se experimentarem seguir a alimentação intuitiva, comerão todos os alimentos “ruins” para sempre, todos os dias, ficarão muito gordas, adoecerão e morrerão.

A coisa não funciona assim, na realidade. Em vez disso, imagine que seu alimento “proibido” favorito seja chocolate. Você acorda um dia de manhã e encontra a despensa cheia de chocolate: chocolates de todos os tipos, todos seus favoritos e todos os que você nunca experimentou.

Você abre a geladeira, e também ela está cheia de bolo de chocolate, musse de chocolate, pastéis de chocolate, brigadeiros. Você abre a torneira e o que sai dela é um jorro constante de chocolate quente ou gelado. E cada vez que você come um chocolate ele reaparece magicamente; o estoque de chocolate nunca diminui. Você come chocolate no café da manhã, almoço e jantar.

Na realidade, se você não comer chocolate, as pessoas te insultam e te dizem para não fugir de sua dieta de chocolate. Em pouco tempo o prazer em devorar chocolate desaparece e você começa a recear a próxima refeição. Você percebe que está sentindo desejo intenso por outros alimentos, mas está comendo chocolate porque é que você “deve” fazer.

Meu corpo não é aquela coisa rebelde e desagradável que eu enxergava antes – ele estava ali comigo, me conservando viva, apesar do ódio profundo que eu nutria por ele”

Nesse ponto você daria tudo por uma salada fresquinha, mas todo o mundo lhe diz que você é uma pessoa má se você come verduras, de modo que você se esgueira sorrateiramente até o bufê de saladas para encher uma tigela de tomates, cenouras e pepinos pecaminosos sem que ninguém veja. Você os devora às pressas,  esconde as evidências e se sente culpada. Amanhã você vai compensar, comportando-se direitinho e comendo mais chocolate para compensar pelo “deslize” que cometeu hoje.

Pode parecer ridículo, mas é exatamente isso o que nos fazemos quando nos negamos determinados alimentos. Se nos autorizássemos a comer chocolate e mais salada e mais qualquer outro tipo de comida em quantidade ilimitada, talvez não sentíssemos tanto desejo por alimentos “ruins”, não sonhássemos com eles, não tivéssemos fantasias sobre quando voltaríamos a encontrá-los. Essa é a alimentação intuitiva.

Pergunto a meu corpo “o que você quer almoçar hoje?’, e ele pode me dizer que precisa realmente de folhas verdes ou, quem sabe, de uma sopa quentinha.

Hoje em dia faço coisas que a Victoria “viciada em comida” jamais teria sonhado serem possíveis, tipo dar uma mordida num donut, ficar satisfeita e não sentir vontade de comer o donut inteiro. Ou talvez eu o coma inteiro, porque é exatamente isso que estou querendo no momento. Mas não me repreendo por isso depois.

A alimentação intuitiva exerce muitos outros efeitos positivos, além de promover uma relação melhor com a comida. Ela eleva nossa autoestima e satisfação corporal. Melhora nossa saúde geral e nosso bem-estar mental.

Entre seus benefícios, para citar apenas alguns: queda na pressão sanguínea, queda nos níveis de colesterol, diminuição dos hábitos alimentares desordenados, melhora da satisfação corporal, redução da depressão, aumento da autoestima e aumento da atividade física.

Para mim, o fato de não ter mais aquela relação desequilibrada com a comida abriu a porta para eu encarar meu próprio corpo gordo através de uma lente nova. Vejo que meu corpo não é aquela coisa rebelde e desagradável que eu enxergava antes – ele estava ali comigo, me conservando viva, apesar do ódio profundo que eu nutria por ele.

Apesar de eu tê-lo feito passar fome, tê-lo castigado com rotinas de exercício físico brutais e perigosas, mesmo quando eu o comprimia em cintas e modeladores, sentindo vergonha de minhas dobras e não suportando ver meu corpo no espelho. Mesmo com tudo isso, ele ficou ali, me dando vida.

Ter uma relação sadia com a comida me ajudou a construir uma relação sadia com meu corpo. Sempre agradecerei à alimentação intuitiva por me conduzir ao caminho da aceitação corporal e do amor-próprio.

Victoria Welsby é especialista em imagem corporal e autoconfiança, palestrante do TEDx e autora de best-sellers. Para maiores informações, acesse o fiercefatty.com

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.