COMIDA
28/04/2019 02:00 -03

A busca de Gandhi pela dieta perfeita

Ele prometeu parar de comer sal (mas depois voltou atrás) e rejeitava carne. Mas Gandhi nunca tentou fazer ninguém mudar a dieta.

Mahatma Gandhi era conhecido por ser pacifista, ativista, líder espiritual e herói. O homem, nascido Mohandas K. Gandhi, ajudou a Índia a conquistar a independência em 1947 e jejuou dezenas de vezes para acabar com a violência generalizada. Embora a sociedade conheça Gandhi como um modelo para protestos pacíficos, ele também passou seus 78 anos estudando uma paixão pessoal: nutrição.

Algumas das escolhas alimentares de Gandhi tinham base em protestos, tais como jejuns que duravam dias. Outras estavam associadas à sua dedicação à nutrição, incluindo sua desconfiança pelos alimentos processados.

Segundo Nico Slate, autor do novo livro Gandhi’s Search for a Perfect Diet (a busca de Gandhi pela dieta perfeita, em tradução livre), a alimentação saudável sempre foi parte da vida de Gandhi.

“O interesse de Gandhi por uma alimentação saudável começou na infância; sua mãe era muito religiosa, fazia jejuns com frequência e prestava muita atenção no que comia e no que servia”, disse Slate ao HuffPost. “Ele era um homem curioso e, como em outras esferas de sua vida, ele gostava de pensar profundamente sobre o que comia.”

Embora Gandhi tenha morrido há mais de 70 anos, sua alimentação estava à frente de seu tempo. Virtualmente todos os elementos da dieta dele – que causavam espanto entre seus pares – são comuns, ou até mesmo “dietas da moda”, hoje. Slate, que passou 5 anos pesquisando a história de Gandhi com a nutrição, percebeu vários temas centrais.

Dinodia Photos via Getty Images
Mahatma Gandhi faz uma última refeição antes de jejuar no Rashtriyashala Ashram, em março de 1939.

Gandhi era cético em relação ao sal, mas depois mudou de opinião drasticamente

Embora Gandhi soubesse que suas frutas e vegetais favoritos contivesse sal naturalmente, ele evitava ferrenhamente adicionar sal ao que comia. Segundo Slate, Gandhi parou de comer sal em 1911, mas mudou de ideia depois de ouvir seus médicos. No final da década de 1920, Gandhi passou a aceitar um pouco de sal – não mais de 30 grãos por dia – em sua dieta.

A nutricionista americana Ashley Lytwyn concorda com os médicos.

“Sal é um dos eletrólitos absolutamente necessários para que o organismo funcione”, disse ela ao HuffPost. “Temos medo do sal em nossa cultura, mas, se sua alimentação é balanceada, o organismo vai naturalmente consumir a quantidade adequada de sal.”

Depois de entender a importância do sal – particularmente para quem trabalhava nos campos ―, Gandhi protestou contra as altas tarifas que incidiam sobre o produto e o mantinham essencialmente fora do alcance da população mais pobre do país. A Marcha do Sal, que reuniu 60 000 manifestantes em 1930, foi parte essencial do movimento de independência.

O veganismo era muito restritivo, então Gandhi abandonou apenas as carnes

A família de Gandhi era vegetariana, mas ele sempre quis ser vegano. Ele tentou na vida adulta, mas, depois de ter sérios problemas de saúde, foi forçado a mudar de ideia.

“A experiência me ensinou que, para manter-se perfeitamente em forma, uma dieta vegetariana tem de incluir leite e produtos derivados de leite, como coalhada, manteiga, ghee etc.”, escreveu Gandhi em seu livro “The Moral Basis of Vegetarianism” (a base moral do vegetarianismo, em tradução livre). “Excluí o leite de minha dieta durante seis anos. ... Mas, em 1917, como resultado de minha própria ignorância, sofri com disenterias severas. Fui reduzido a um esqueleto, mas teimosamente continuei me recusando a tomar leite ou soro. ... Na minha cabeça, só poderia tomar leite de vaca e de búfala; por que o juramento me impediria de tomar leite de cabra?”

Segundo Lytwyn, dietas altamente restritivas como o veganismo são possíveis, mas exigem suplementação de vitaminas e planejamento nutricional.

“Nutrientes como B12 podem ser difíceis de ingerir numa dieta vegana, e o ferro em verduras e legumes não é tão biodisponível quanto o dos produtos animais”, afirmou Lytwyn. “Mesmo que ele comesse vegetais ricos em ferro em quantidades suficientes, o corpo nem sempre conseguiria absorver o que é necessário.”

Universal History Archive via Getty Images
Gandhi toma café da manhã com o vice-rei da Índia, lorde Mountbatten, em 1947.

Depois de aceitar a necessidade de leite de cabra em sua dieta, Gandhi levou uma vida ferrenhamente vegetariana – e saudável. Na realidade, o vegetarianismo levou Gandhi a descobrir sua vocação para o ativismo.

“Durante a faculdade de direito, Gandhi passou por uma experiência transformadora, morando com vegetarianos progressistas em Londres”, disse Slate. “No começo, ele era muito tímido e não era politicamente ativo, mas esses vegetarianos tinham opiniões fortes contra o imperialismo e o racismo; eles deram a Gandhi a confiança para se tornar ativista, palestrante e escritor.”

Gandhi lia rótulos e adorava alimentos não-processados e crus

Como vários americanos preocupados com a saúde, Gandhi evitava os ingredientes cujos nomes não conseguia pronunciar. Quando as empresas começaram a importar alternativas vegetarianas para o ghee – manteiga clarificada muito consumida na Índia ―, nos anos 1930, muitos acharam que ele aceitaria a novidade sem questionamentos. Não foi o que aconteceu.

“Como as alternativas ao ghee são produzidas em fábricas, Gandhi se opôs fortemente a elas”, disse Slate. “Ele queria comidas simples, com ingredientes simples. Se você desse para ele uma barra de proteína vegana de hoje, com 25 ingredientes obscuros, ele não comeria.”

Mais uma vez, a dieta de Gandhi estava à frente de seu tempo; o ghee Vanaspati, que contém alto teor de gorduras trans, é notoriamente pouco saudável. Gandhi expressou sua preocupação em seu livro “Diet and Diet Reform” (dieta e a reforma da dieta, em tradução livre): “Na realidade, o ghee é um produto puramente animal. Usa-se sem pensar a expressão ghee vegetal ou Vanaspati, mas é uma contradição em termos. O Vanaspati é um substituto pobre para o ghee. Ele não só não é bem absorvido pelo sistema humano, mas não tem a potência de vitaminas.”

Lytwyn concorda com a abordagem simplista de Gandhi em relação aos alimentos, mas observa que os tempos mudaram, bem como nossos horários de comer.

“Alguns alimentos são melhores em preparações simples”, disse ela. “Considere a aveia. É um carboidrato complexo lindo e delicioso – por que alterá-lo? Ao mesmo tempo, as pessoas precisam de alternativas na cultura acelerada de hoje. Se você vai deixar de fazer uma refeição porque não vai comer aquela barra de granola, melhor comer. Você precisa se alimentar.”

Os fatos eram essenciais para a dieta política e nutricional de Gandhi

Os jejuns de Gandhi podem ter mudado o curso da história – inclusive seu famoso “jejum até a morte” pela par, em Nova Déli ―, mas ele também jejuava por motivos religiosos e nutricionais. Gandhi fez dezenas de jejuns, incluindo um de 21 dias.

Lytwyn, que é especialistas em transtornos alimentares, diz que é preciso considerar com cuidado a moda dos jejuns, especialmente porque eles são focados em perda de peso, não em ativismo.

“A abordagem não-violenta de Gandhi era tocante e teve muito impacto”, disse ela. “Mas, como já vi acontecer com muitos clientes, o jejum pode causar sérios problemas para quem tem predisposição a transtornos alimentares. Se você está criando muitas restrições, é claro que seu corpo vai compensar com ciclos de jejum seguidos por excessos.”

Dinodia Photos via Getty Images
Gandhi, que adorava frutas, recebe um coco na frente de sua tenda, no Sevagram Ashram, janeiro de 1942.

Gandhi evitava açúcar, mas não conseguia abrir mão de um “doce” específico

Gandhi evitava açúcar em sua dieta, mas havia uma exceção: frutas. Ele adorava frutas. Embora fosse muito estrito em relação a açúcares processados ou refinados, ele tinha dificuldade em dizer não a “doces” como manga.

“Gandhi se esforçava para não comer nada em exagero; ele achava que desfrutar demais da comida o distrairia de seus objetivos espirituais”, disse Slate. “Mas ele era humano. Uma vez ele ganhou uma caixa de mangas como remédio para um grupo de pacientes que ele estava ajudando. Ele não aguentou e cedeu à tentação.”

Conhecido por manter-se firme diante dos desejos de comida, Gandhi comeu várias mangas antes de dividi-las com seus pacientes. Mais tarde, ele se lamentaria.

“A manga é uma fruta amaldiçoada”, escreveu ele em 1941. “Ela chama mais atenção que as outras frutas. Temos de nos acostumar a não tratá-la com tanto afeto ... mas eles [os pacientes] todos vão comer, pois temos três caixas.”

Embora caísse em tentação de vez em quando, ele não abandonava sua dieta. Ele reconhecia o deslize, lamentava e seguia em frente. Lytwyn recomenda que seus clientes façam o mesmo.

“Quando meus clientes exageram, digo que eles têm de aprender com o que aconteceu e depois esquecer do ocorrido”, disse ela. “Não temos de nos prender a essa experiência como um julgamento moral. Não existe alimentação perfeita. Buscar a perfeição vai nos enlouquecer. Trata-se de moderação.”

Cada um lida com comida de maneira diferente, e Gandhi aceitava isso 

Segundo Slate, Gandhi não tentava convencer os outros sobre sua dieta restrita ou suas crenças a respeito de nutrição. Ele escreveu sobre suas experiências em cartas e livros, mas reconhecia com humildade que não sabia tudo e estava sempre disposto a ouvir os outros.

Embora não seja algo diretamente relacionado à dieta, Lytwyn acredita que essa seja a maior lição de Gandhi sobre alimentação. 

“Temos essa obsessão cultural na qual as pessoas projetam suas dietas e sua forma física nos outros. Mas, se você observar outras culturas, não existe essa busca incansável da magreza”, disse ela. “Se você der os mesmos alimentos e o mesmo plano de exercícios para cinco pessoas diferentes, elas não terão o mesmo corpo no final do processo. Temos de aceitar nossos corpos como eles são, em vez de mudá-los de acordo com os ideais e a pressão que os outros fazem sobre a gente.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.