COMIDA
31/08/2019 12:30 -03

A dieta cetogênica é segura para crianças?

Se você tem filhos e está fazendo dieta keto, nem sequer considere em fazê-los seguir regras rígidas.

Quando você está fazendo dieta cetogênica, também conhecida como dieta keto, será que é boa ideia que sua família coma da mesma maneira?

A popularidade desse tipo de dieta é inegável, e com ela vêm as contas de Instagram, blogs e receitas do estilo de vida cetogênico, que se baseia em uma alimentação com pouquíssimos ou nenhum carboidrato. Quando recebemos um livro de receitas cetogênicas para crianças, nos perguntamos: será que é boa ideia colocar as crianças nessa dieta? 

Consultamos especialistas para descobrir três coisas: 1) se a dieta cetogênica é segura para crianças; 2) se é boa ideia que os filhos comam a mesma dieta restritiva dos pais; e 3) qual é a melhor maneira de conversar com os filhos sobre essas dietas restritivas. Eis o que eles nos disseram.

Crianças e dietas cetogênicas: uma combinação que existe há décadas

“A dieta cetogênica apareceu na década de 1920, para tratar um certo tipo de epilepsia em crianças quando os remédios não surtiam efeito”, diz Alyssa Pike, nutricionista e responsável pelas comunicações da International Food Information Council Foundation. “Com exceção dos casos em que há orientação médica, não se recomenda essa dieta para as crianças.”

Pike afirma também que não existem diretrizes para toda a população que recomendem a dieta keto para crianças ou que “sugiram que essa dieta traga benefícios para a saúde da criança”. Citando as diretrizes alimentares do governo americano para 2015-2020, um documento de 144 páginas que não inclui o termo “cetogênico”, Pike diz que nenhum dos três padrões de alimentação recomendados levaria uma pessoa à cetose, processo pelo qual o organismo queima gordura em vez de carboidratos para gerar energia.

As diretrizes de alimentação recomendam que as crianças tenham uma dieta variada, que forneça as quantidades corretas de todos os nutrientes (macro e micro) necessários para o desenvolvimento do corpo.Alyssa Pike, nutricionista

Pike também menciona as Recomendações Nutricionais Nórdicas de 2012, que “determinam requerimentos médios de carboidratos glicêmicos em níveis que impediriam a cetose entre adultos e crianças”, bem como as Recomendações da American Heart Association para Crianças Saudáveis – que, se seguidas, também não levariam à cetose.

A dieta keto não fornece os macronutrientes necessários para que a criança tenha uma alimentação saudável

Quando se comparam as dietas keto e tradicional, existem vastas diferenças entre as recomendações de consumo de macronutrientes – carboidratos, gorduras e proteína.

Além disso, a dieta keto que se conhece hoje tem diferenças importantes em relação ao tratamento da epilepsia. Acima de tudo, este último implica “uma dieta prescrita e supervisionada por médicos e calculada com precisão para induzir a cetose e ao mesmo tempo fornecer nutrição adequada, para promover o crescimento e desenvolvimento da criança”, diz Carol Kirkpatrick, doutora e especialista voluntária em ciência e nutrição da American Heart Association.

“Dietas keto seguidas por adultos – normalmente para perda de peso e, mais recentemente, também para administração de diabetes tipo 2 e como parte do treinamento de alguns atletas – tipicamente não são calculadas tão precisamente como as dietas cetogênicas prescritas para crianças com epilepsia que resiste a medicações”, afirma Kirkpatrick. “A ênfase primordial [da dieta keto dos adultos] é a limitação do consumo de carboidratos a 20-50 gramas diárias e o de proteínas a 1-1,5 gramas por quilo de peso corporal – ou o peso ideal, caso a pessoa esteja acima do peso – para induzir a cetose.”

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Muitas comidas que fazem parte da dieta keto – como um bife como manteiga, por exemplo – não fornecerão todos os nutrientes necessários para o corpo em desenvolvimento da criança.

Em termos dos macronutrientes numa dieta keto contemporânea, a composição é mais ou menos a seguinte: 70%-80% da energia vem de gorduras, 15% vem de proteínas e 5% de carboidratos.

“Essa divisão de macronutrientes não reflete as quantidades recomendadas para crianças de 4 a 18 anos, segundo as diretrizes do governo americano – 25%-35% das calorias diárias totais de gorduras, 10%-30% de proteínas e 45%-65% de carboidratos”, afirma Kirkpatrick.

A dieta keto pode levar a deficiências nutricionais e outros problemas de saúde

“Mesmo quando recomendada para crianças com epilepsia intratável e com supervisão médica, há possíveis efeitos adversos da dieta cetogênica, incluindo aumento do colesterol composto por lipoproteínas de baixa densidade (conhecido como o colesterol ruim), de triglicérides e do risco de pedras no rim”, diz Kirkpatrick. “Também existem riscos de redução da densidade mineral óssea caso essa dieta seja seguida por mais de dois anos.”

Jonathan Valdez, proprietário da Genki Nutrition e porta-voz da New York State Academy of Nutrition and Dietetics, cita um estudo de 2013 sobre a eficácia e a segurança da dieta cetogênica entre crianças chinesas. O estudo indicou relatos frequentes de problemas gastrointestinais, recusa de comida e baixos níveis de proteína no sangue.

“Parece que, a menos que necessário para controle de convulsões, a dieta keto não é necessariamente a melhor para as crianças”, afirma Valdez.

Crescimento rápido, remodelação óssea, mudanças hormonais, metabolismo e várias outras diferenças significam que as crianças respondem à nutrição de maneira muito diferente em comparação com os adultos.Dr. Christopher F. Bolling

“As crianças devem comer carboidratos ricos em nutrientes, incluindo legumes, frutas, grãos integrais e leite e derivados para alcançar as quantidades necessárias de carboidratos”, diz Kirkpatrick. “Alimentos que têm menor valor nutricional e devem ser consumido com moderação incluem os que têm açúcar adicionado, bebidas doces e alimentos superprocessados ou que contenham carboidratos refinados.”

“As diretrizes de alimentação recomendam que as crianças tenham uma dieta variada, que forneça as quantidades corretas de todos os nutrientes (macro e micro) necessários para o desenvolvimento do corpo”, afirma Pike. “Isso inclui uma vasta gama de frutas, legumes, verduras e grãos – metade dos quais devem ser integrais – e leite e derivados. Muitos desses alimentos são proibidos ou muito limitados na dieta keto.

Pike menciona um estudo que descreve os problemas encontrados por crianças que fizeram dieta cetogênica para tratar a epilepsia. Eles incluíram efeitos colaterais como constipação, vômito e diarreia.

A menos que seja receitada por um médico, provavelmente não é boa ideia restringir a dieta das crianças

Se você faz uma dieta específica – como keto, paleo ou vegana ―, pode ser conveniente preparar as mesmas comidas para a família inteira, incluindo seus filhos – mas tenha cuidado.

“As crianças podem comer o mesmo que os pais, caso eles estejam fazendo alguma dieta”, diz Kirkpatrick. “Mas os pais têm de ensinar os filhos a se alimentar de forma balanceada e a ter uma relação saudável com a comida.”

Christopher Bolling, responsável pela área de obesidade da American Academy of Pediatrics, diz que existem importantes diferenças fisiológicas entre crianças, adolescentes e adultos.

“Crescimento rápido, remodelação óssea, mudanças hormonais, metabolismo e várias outras diferenças significam que as crianças respondem à nutrição de maneira muito diferente em comparação com os adultos”, afirma Bolling. “Apesar de serem mais resilientes que os adultos em vários aspectos, [as crianças] costumam ser as primeiras a exibir os efeitos de deficiências [nutricionais].” 

Bolling diz também que, no caso das crianças, existem questões comportamentais ligadas às dietas. 

“Uma coisa é um adulto decidir fazer uma dieta não-comprovada”, afirma ele. “Mas que escolha tem a criança? Ela pode ser coagida a fazer escolhas nada saudáveis, sem poder dizer não. Além disso, adolescentes são muito mais suscetíveis a problemas de saúde mental como ansiedade, depressão e transtornos alimentares. Equipá-los para que eles lidem com a comida de maneira saudável é importante para evitar comportamentos como dietas muito restritivas ou exercícios em excesso.”

Quando conversar com seus filhos sobre dietas restritivas, foque nos benefícios de saúde

“É importante que as crianças de todas as idades saibam que, apesar de alguns alimentos terem maior densidade nutricional que outros, isso não significa que devamos criar uma cultura de conversas negativas em relação à comida”, afirma Valdez. “Mais tarde, isso pode levar a transtornos alimentares e outros problemas.”

Pike recomenda que os pais procurem um profissional antes de conversar com os filhos sobre as dietas restritivas que estão seguindo, pois esses especialistas são treinados para oferecer aconselhamento sobre o tema.

“É importante saber que as crianças os observam e são influenciadas pela relação dos pais com a comida, incluindo linguagem negativa usada para certos alimentos”, diz Pike. “O tom dessas conversas pode afetar como as crianças veem esses alimentos. Existe uma linha tênue entre chamar uma comida de ‘boa’ ou ‘ruim’ e subsequentemente rotular-se da mesma maneira por comê-la.”

Kirkpatrick incentiva os pais a evitar linguagem negativa para falar de comida e do corpo. O foco deve ser no estilo de vida saudável.

“Crianças são muito impressionáveis. Focar demais em restrições ou hábitos alimentares em geral pode aumentar o risco de transtornos alimentares e transtorno dismórfico corporal, o que pode ter consequências na vida adulta”, acrescenta Kirkpatrick.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.