LGBT
08/05/2019 20:16 -03 | Atualizado 08/05/2019 20:35 -03

Diego Hypolito fala sobre homossexualidade e abusos que sofreu na ginástica olímpica

Em texto para o UOL Esporte, atleta fala sobre medo de perder patrocínios e afirma que quer dar exemplo a outras pessoas.

Lintao Zhang via Getty Images
Dono da medalha de prata dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, Hypolito contou em texto que aos 19 anos se entendeu como homem gay.
Nunca mais vou deixar de viver o que eu sou. Eu sou gay.Diego Hypolito, em texto para o UOL Esporte.

Foi o sonho de ser um medalhista olímpico que fez o atleta Diego Hypolito, de 32 anos, reprimir e esconder sua homossexualidade por 13 anos. “Eu tinha certeza que se um dia eu saísse do armário publicamente, perderia patrocínios e minha carreira seria prejudicada”, contou em depoimento para o UOL. 

“Quero que as pessoas saibam que eu sou gay e que eu não tenho vergonha disso. E não é porque eu sou que outras pessoas vão querer ser. Isso não tem nada a ver. Já vivi muitos anos pensando no julgamento que os outros fariam sobre mim. Hoje só aceito ser julgado por Deus”, afirmou.

Dono da medalha de prata dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, Hypolito contou em texto que aos 19 anos se entendeu como homem gay. Mas afirma que só conseguiu compartilhar isso com sua família aos 28 anos, quando estava prestes a competir no Mundial da China, em 2014.  

A reação da família

“Meu maior problema sempre foi como iria contar para a minha família. As pessoas não sabem, mas a gente tinha uma origem humilde, do interior e religiosa. Eles nunca entenderiam ( ...) a ficar meses sem energia elétrica. Como é que eu ia levar mais um problema para eles?”, desabafou.

Outra questão para esconder sua homossexualidade, segundo ele, também foi sua religião. Hypolito não só foi criado no catolicismo, como ostenta uma grande tatuagem de Jesus Cristo em um dos braços. Ele compartilhou que, para ele, no passado, ser gay era “coisa do demônio”.

“Quando eu tinha uns dez anos, um treinador foi dizer para a minha mãe que ela devia mudar minha educação para que eu não virasse gay. Ela veio falar comigo, preocupada. Eu era muito inocente, nem sabia o que era isso. Mas isso me marcou”, contou no texto batizado de “Quero contar uma coisa” no portal.

Abusos durante a carreira

“Essa coisa de ser um demônio não saía da minha cabeça”, disse. O atleta, que é dono de dois títulos e três medalhes em Mundiais, e de uma medalha de prata na Olimpíada do Rio em 2016, falou também sobre abusos que sofreu no meio da ginástica artística por meio de colegas e também de treinadores.

Ele descreve que, em determinada ocasião, foi preso em um equipamento de treino chamado coloquialmente de “caixão da morte”. Nele, outros colegas o o fizeram segurar uma pilha com o ânus. Em outro momento, já o deixaram nu com outros dois atletas, e escreveram “eu sou gay” em seu peitoral.

“Eu preciso falar sobre essas coisas para que elas nunca mais se repitam. Ninguém precisa passar pelo que eu passei para ser campeão”, escreveu. Em 2018, Hypolito já tinha falado sobre bullying, após as denúncias contra o técnico Fernando de Carvalho Lopes, banido do esporte no mesmo ano.

A liberdade de ser quem se é

O atleta chegou a usar disfarces para frequentar baladas e shows voltados ao público LGBT. Ele conta que ao lado de outro ginasta, Michel Conceição, foi “escondido” a uma boate. “Meus amigos livres, leves e soltos e eu lá, cheio de roupas, suando no calor, virando a cara quando alguém fixava o olhar”.

Só recentemente ele conseguiu ir a uma balada sem se esconder. Ele escreve que, há poucos dias, foi em uma festa chamada “Tokka”, em São Paulo, e que, pela primeira vez, “foi de cara limpa, sem disfarce, sem ter vergonha de ser quem eu sou, de viver o que eu quero viver. Para mim é uma libertação. Foi a primeira vez que realmente me diverti numa festa gay.”

A aceitação e a liberdade

Em seu texto, o atleta afirma que, com o tempo, a relação com sua família foi melhorando. Mas que, no início, houve estranhamento. “Eu amo meus pais e tudo o que eles fizeram para que eu, minha irmã e meu irmão chegássemos até aqui (...). Ser gay não é uma escolha. É simplesmente o que eu sou.”

“Sei que pode ter gente que vai deixar de gostar de mim depois de conhecer a minha história (...), sei que vir a público e falar tudo isso pode irritar algumas pessoas. Ninguém é obrigado a entender nada, mas é obrigado a respeitar. Nunca mais vou deixar de viver o que eu sou. Eu sou gay”, conclui.