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03/05/2020 06:14 -03 | Atualizado 08/05/2020 01:27 -03

Como a pandemia transformou o sonho deste professor em uma desventura

Marcelo Gugliemi passou 3 anos juntando dinheiro para realizar o sonho de dar a volta ao mundo. O planejamento só não contou com o alastramento da covid-19.

O professor Marcelo Gugliemi, 28 anos, passou 3 anos juntando dinheiro e planejando a realização do sonho de dar a volta ao mundo. O que tornava o plano ainda mais especial era o fato de que ele terminaria o trajeto com uma uma viagem de navio a partir da Itália, onde tiraria a cidadania e voltaria ao Brasil como seus bisavós. “Eles vieram de navio, eu voltaria de navio. (...) Mas quis o destino que não fosse assim.”

Isso porque todo planejamento não contou com a possibilidade de ocorrer uma pandemia no meio do caminho. No período em que juntou dinheiro, Marcelo trabalhou como professor da rede pública e garçom, depois conseguiu emprego em um cruzeiro para alcançar o objetivo de financiar a viagem. 

Com tudo pronto, ele começou a viajar. No ano passado, Marcelo deixou São Paulo e iniciou a aventura pela Argentina, de lá seguiu para o Chile, foi para a África do Sul, depois para Cairo, capital do Egito. “Cruzei a África inteira, fiz alguns países do Oriente Médio, Índia e Tailândia. Na Tailândia, já estava sem dinheiro, mas como sempre tive o sonho de velejar, comecei a trabalhar como voluntário em veleiros. Apareceu um que ia para o Sri Lanka e me chamaram para fazer da equipe. Fui.”

Aparentemente, esta viagem de veleiro seria o maior perrengue que enfrentaria. “Fiz a primeira travessia em um veleiro pequeno, depois passei para um barco maior, que foi a maior furada. Embarquei, ficamos 15 dias fazendo manutenção. Quando estava pronto, o país já estava fechando as fronteiras, por causa da pandemia de coronavírus. Não dava mais para sair da marina, fizemos a provisão e fomos embora, mas no segundo dia, tinha muito vento, o motor quebrou e a gente ficou à deriva.”

Quando os tripulantes do navio finalmente conseguiram retornar ao Sri Lanka, a surpresa: não foram aceitos. Neste momento, a maioria dos países tinham apertado as regras no combate à pandemia. “A guarda costeira disse que o país estava fechado, mesmo com o protocolo que obriga a aceitar quando a embarcação fica à deriva, porque era dali que a gente tinha saído.”

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“O mais doido é que eu já tinha o sonho de velejar, estava indo para a Europa porque meus bisavós, quase todos, vieram da Itália", conta Marcelo Gugliemi.

Marcelo e a equipe da embarcação ficaram uma semana ancorados e negociando com o governo e embaixadas. “Conseguimos sair com a condição de evacuar. Quem pudesse ia voar e quem não pudesse ia ter que ir embora com o barco. Uma pessoa criou uma vaquinha para mim. Quando vi que estava crescendo, pedi para a mãe de um amigo comprar uma passagem de volta ao Brasil.”

A passagem comprada, no entanto, não foi suficiente. Veio mais uma barreira: o voo passaria pela França, e, mesmo após o país autorizar o trânsito de Marcelo, a companhia aérea negou. “Estava com tudo certo, mais de uma hora de telefone para negociar tudo e a Qatar [Airlines] negou. Tive que comprar outra passagem. Perdi essa de US$ 800, mais um trecho comprado por milhas e gastei mais US$ 2.500 na segunda passagem. Um total de quase R$ 15 mil, quando meu objetivo na vaquinha era R$ 9 mil. Tô fodido. Esse é o resumo da minha desventura.”

Foi assim que a pandemia interrompeu a realização de seu sonho. “O mais doido é que eu já tinha o sonho de velejar, estava indo para a Europa porque meus bisavós, quase todos, vieram da Itália. Eu ia tirar cidadania, super romântico, meus bisavós vieram de navio, eu voltaria de navio. Estava todo feliz. Ia ser um upgrade de vida. Mas quis o destino que não fosse assim.”

A história de Marcelo se junta à de mais de 16 mil brasileiros que ficaram “presos” fora do País e tiveram a ajuda da rede de embaixadas brasileiras pelo mundo para retornar, segundo o governo.

Marcelo teve a experiência do “combo completo”: foi impactado pelo fechamento das fronteiras, pelas medidas restritivas que proibiram o trânsito dentro dos países e por paralisações das companhias aéreas.