COMPORTAMENTO
05/06/2019 01:37 -03

O desodorante natural é melhor que o antitranspirante tradicional?

Perguntamos a dermatologistas se o alumínio do antitranspirante tradicional nos prejudica tanto assim.

Os desodorantes naturais estão na moda hoje em dia – especialmente por conta da ideia de que o alumínio, o ingrediente ativo na maioria dos antitranspirantes comuns, possa elevar o risco de câncer ou esteja ligado ao mal de Alzheimer.

Mas já experimentei toneladas de desodorantes naturais e nunca encontrei um que seja um bom substituto do desodorante que normalmente compro na farmácia. E não sou a única a dizer isso.

O fato é: se um desodorante natural não possui propriedades antibacterianas, pode não ser eficaz (mais adiante nos aprofundaremos nessa ligação entre o suor e os ingredientes antibacterianos).

Stockbyte via Getty Images
É hora de começarmos todos a usar desodorante natural? 

Às vezes penso em voltar a usar os velhos antitranspirantes comuns à base de alumínio, mas então desisto, achando que isso não fará bem a minha saúde no longo prazo.

Depois de um papo recente entre colegas, ficaram algumas dúvidas no ar: o alumínio em nosso antitranspirante é realmente nocivo? Deveríamos todos abrir mão dele definitivamente? O HuffPost consultou dermatologistas para que nos dessem a resposta de uma vez por todas. 

 

Para começar, há uma diferença entre desodorante e antitranspirante. 

Embora muitas pessoas usem os termos desodorante e antitranspirante como sinônimos, os dois produtos não são iguais.

O desodorante ajuda a bloquear o odor corporal, mas não impede quem o usa de transpirar. Os antitranspirantes geralmente contêm alumínio, que bloqueia as glândulas sudoríparas (que produzem o suor), com isso reduzindo a liberação de suor. Quem explicou foi a dermatologista Forum Patel, da Union Square Laser Dermatology, em Nova York.

Os profissionais da empresa Thomson Tee, que produz camisetas à prova de suor, chamaram a atenção para um detalhe interessante: a Food and Drug Administration (FDA – a agência dos EUA que regula alimentos e medicamentos) classifica os antitranspirantes como medicamentos, já que eles impedem a liberação da transpiração, que é uma função natural do corpo.

O desodorante, por outro lado, geralmente não contém alumínio. Normalmente o que ele faz é mascarar o odor da transpiração com fragrâncias ou usando propriedades para combater as bactérias que decompõem o suor.

“O suor digere a camada superficial de nossa pele, e as bactérias consomem essas células mortas da pele”, explicou Patel. É essa ação que causa o odor corporal.

“Quando as pessoas usam desodorantes com base em alumínio e ficam com menos cheiro de suor, isso ocorre basicamente porque o desodorante bloqueia as glândulas sudoríparas, de modo que as bactérias na superfície de sua pele não entram em contato com o suor. Assim, o odor não chega a ser criado”, explica a dermatologista.

Veja por que os desodorantes naturais podem, sim, ajudar a combater o odor: muitos deles contêm óleos essenciais, alguns dos quais possuem propriedades antibacterianas. É o caso do óleo de melaleuca, por exemplo.

A Dra. Charisse Dolitsky, dermatologista da Schweiger Dermatology, em Nova York, disse ao HuffPost que as propriedades antibacterianas de determinados óleos essenciais podem, de fato, ajudar a combater o odor.

Para explicar em poucas palavras: o antitranspirante bloqueia o suor, enquanto o desodorante combate o odor. 

 

Então qual é a preocupação principal aqui? 

De modo geral, a maior preocupação é o alumínio presente nos antitranspirantes.

Segundo Patel, existem duas principais “associações negativas” ligadas ao alumínio. A primeira tem a ver com uma velha teoria segundo a qual o alumínio estaria ligado de alguma maneira ao mal de Alzheimer. A teoria surgiu em 1965, quando cientistas descobriram que coelhos que receberam injeções com altas doses de alumínio desenvolveram os mesmos emaranhados no cérebro – novelos de proteínas tau que se acumulam nas células – que levam ao Alzheimer.

A segunda associação negativa com o alumínio, especialmente nos antitranspirantes, sugere que ele possa estar ligado a um risco aumentado de câncer de mama. Porém, segundo o Instituto Nacional do Câncer, “não existem evidências científicas que vinculem o uso desses produtos ao surgimento do câncer de mama”.

“A teoria surgiu porque, quando se pensa em onde aplicamos o desodorante, a área mais próxima do seio é o quadrante superior direito. E o que os pesquisadores constataram foi que a maioria dos cânceres de mama começava no quadrante superior direito”, disse Patel.

Assim surgiu a hipótese de que os desodorantes à base de alumínio poderiam ser responsáveis por causar câncer. Pensava-se que eles penetrassem no fluxo sanguíneo e tivessem efeito nocivo sobre as células mamárias, com o tempo levando ao surgimento de tumores.

 

Então deveríamos abandonar de vez o antitranspirante à base de alumínio? 

A resposta curta é “não”. As médicas com quem conversamos disseram que não há evidências conclusivas que comprovem o vínculo entre alumínio e Alzheimer ou entre alumínio e câncer. Portanto, se você é alguém que não abre mão de seu antitranspirante à base de alumínio, pode ficar mais tranquilo.

“Todo o mundo tem um pouco de alumínio no corpo”, explicou Dolitsky. “Há alumínio na água, nos alimentos, em panelas e utensílios de cozinha, em cosméticos. Mas as evidências não indicam que possamos absorver de desodorantes e antitranspirantes a quantidade que seria necessária [para causar esses problemas].”

Especificamente em relação ao câncer, Dolitsky diz que “não há evidências conclusivas de que o desodorante à base de alumínio cause câncer de mama, mesmo que você use um desodorante à base de alumínio mais forte e mesmo que alguém tivesse acabado de se depilar e aplicasse o desodorante.”

“A quantidade absorvida é desprezível”, ela explica.

Mas Dolitsky acrescenta que produtos à base de alumínio podem ressecar ou causar irritação em pessoas com pele mais sensível.

 

Resumindo: use o que funciona melhor para você. 

O Dr. Samer Jaber, dermatologista da Washington Square Dermatology, em Nova York, disse que sua recomendação é “use o que for melhor para você”.

“Os dados científicos indicando que o alumínio é prejudicial são limitados”, observa, informando ainda que ele próprio usa um produto com alumínio.

Se você procura um desodorante natural, Patel faz uma ressalva: “Acho que o grande equívoco aqui é que muitas dessas empresas promovem seus produtos como sendo inteiramente naturais, mas, mesmo as coisas mais naturais, às vezes podem provocar reações graves.”

Ela deu o exemplo do sumagre venenoso, algo natural mas que, é claro, você não quereria usar sobre a pele.

“O simples fato de algo ser natural não significa necessariamente que se possa usá-lo livremente”, diz Patel. “Não estou dizendo que esses desodorantes sejam ruins, mas acho que os consumidores têm a visão equivocada de que todos os produtos naturais são benéficos e todos os produtos que contêm substâncias químicas são prejudiciais.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.