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01/09/2019 10:00 -03

Toda a economia global é cúmplice da destruição da Amazônia

Centenas de empresas internacionais prometeram ajudar a limitar o desmatamento. Nenhuma delas está conseguindo.

Pense em qualquer restaurante de fast food, qualquer fabricante de produtos de cuidados pessoais ou de coisas para casa – é provável que eles tenham contribuído para o desmatamento da Amazônia. Agora pense num grande banco – qualquer um. Também é muito provável que ele tenha ajudado a financiar a destruição da Floresta Amazônica.

Empresas de móveis como Ikea e La-Z-Boy, e gigantes dos equipamentos esportivos como Nike, Adidas e New Balance são clientes de fábricas chinesas que compram couro de pecuaristas brasileiros. O óleo de palma, produzido no Brasil e em outros lugares do mundo, é usado em massa de pizza, sorvetes, batons e xampus. Produtos à base de soja, madeira e papel que vêm diretamente da Amazônia também são onipresentes.

Não é difícil apontar essa nossa sede insaciável por gado, soja, madeira, óleo de palma e outras commodities como o principal motivo para o desmatamento da Amazônia e para os incêndios registrados este ano que chamaram a atenção do planeta.

O que é difícil é saber o que fazer. Graças à escala da economia global e à complexidade das cadeias de suprimento e dos sistemas financeiros que a sustentam, praticamente toda empresa e instituição financeira do planeta é cúmplice da destruição da Amazônia e de outros ecossistemas florestais ao redor do mundo.

Apesar de centenas de empresas terem feito compromissos públicos de combate ao desmatamento, nenhuma delas faz o suficiente para de fato limitar – sem falar em acabar – essa prática.

“É muito desafiador passar um dia sem ter contato com o desflorestamento”, diz Stephen Donofrio, assessor sênior da Forest Trends, uma ONG de Washington que acompanha o desmatamento por parte das empresas.

O mundo perde em florestas o equivalente a 15 campos de futebol por minuto, mas em pouco lugares o problema é tão agudo quanto na Amazônia, uma floresta tropical que há décadas recebe atenção global e é alvo de esforços de proteção de autoridades brasileiras e grupos conservacionistas.

Ueslei Marcelino / Reuters
Vista aérea de região desmatada na Amazônia, nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia.

O presidente Jair Bolsonaro mudou o norte da política ambiental no País. Ele enfraqueceu as agências ambientais do País e está determinado a acabar com as proteções legais sobre a Amazônia e as terras demarcadas para populações indígenas. Mas ele não age sozinho: uma vasta rede de corporações americana e europeias, apoiadas por grandes instituições financeiras e companhias brasileiras de menor porte, agricultores e pecuaristas, também têm responsabilidade, como destaca a ONG Amazon Watch num relatório de abril.

A organização mencionou as maiores traders mundiais de soja – Archer-Daniels-Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, conhecidas como as ABCDs – além de outras empresas menores e menos conhecidas dos setores de madeira, carne e óleo de palma.

Em 2014, a Cargill foi uma das centenas de empresas globais que prometeram limitar seu impacto nas florestas, incluindo a Amazônia, se recusando a comprar commodities de fornecedores responsáveis por desmatamento. Este ano, a companhia promoveu uma iniciativa para ter “cadeias de suprimento livres de desmatamento” até 2030, afirmando que os fornecedores não-alinhados com essa diretriz serão abandonados.

Mas, em junho, a Cargill disse aos fazendeiros brasileiros que era contra uma moratória na produção de soja no cerrado – uma prioridade para grupos de defesa do meio ambiente que já tinham ajudado a estabelecer uma moratória semelhante na Amazônia, na década passada. A justificativa da Cargill foi que outras empresas e fornecedores continuariam produzindo soja e destruindo florestas; de fato, as outras gigantes da soja também resistem à ideia da moratória.

Em vez disso, a empresa se comprometeu a investir 30 milhões de dólares para financiar ideias que a ajudem a alcançar seu objetivo. Mas os ambientalistas criticaram a companhia por sua incapacidade de decidir entre os fornecedores envolvidos no desmatamento e seus objetivos de sustentabilidade – que a Cargill admite que não deve alcançar.

Soja e gado são responsáveis por quase 80% do desmatamento da Amazônia. O relatório de abril também apontou a responsabilidade da JBS, um dos três grades frigoríficos brasileiros responsáveis por cerca de 70% das exportações de carne brasileira para a Europa e os Estados Unidos.

A JBS recebeu multas de milhões de dólares em 2017 por comprar gado criado em áreas protegidas. Neste ano, ela foi uma das empresas brasileiras associadas a práticas similares de desmatamento, de acordo com uma investigação conjunta de The Guardian, Repórter Brasil e Bureau of Investigative Journalism.

As instituições que sustentam financeiramente essas empresas também são responsáveis.

O BlackRock, maior gestor de recursos do mundo, é um “financiador-chave dos gigantes do agronegócio mais envolvidos no desmatamento da Amazônia brasileira”, afirma o relatório, observando que a companhia detém mais de US$ 2,5 bilhões em ações das maiores empresas de agronegócio do País.

Laurence Fink, CEO do BlackRock, ganhou a reputação de “consciência de Wall Street” por posicionar publicamente sua empresa como defensora da sustentabilidade. Mas, ao mesmo tempo, ela é um dos “denominadores comuns do financiamento de alguns dos negócios mais destrutivos do planeta”, diz Christian Porier, diretor de programas da Amazon Watch e autor principal do estudo divulgado em abril. (A Amazon Watch lançou este ano uma campanha cobrando as responsabilidades do BlackRock.)

O BlackRock, segundo o relatório, financia Cargill e Bunge, ambas empresas multadas pelo governo brasileiro por comprar grãos ligados ao desmatamento ilegal. As duas companhias questionaram as multas e dizem cumprir as leis.

Procuradas, BlackRock e Cargill não responderam imediatamente aos pedidos de comentário do HuffPost.

Bancos como JPMorgan Chase e Barclay’s também financiam a JBS, segundo o relatório. Outras grandes instituições financeiras globais, como HSBC, Morgan Stanley, Bank of America e Crédit Suisse, trabalharam com Marfrig e Minerva, duas outras grandes produtoras de carne brasileiras, nos últimos cinco anos, afirma o relatório.

Nos últimos anos, muitos dos maiores bancos do mundo, especialmente os que têm sede na Europa e nos Estados Unidos, anunciaram planos de reduzir o financiamento oferecido a empresas ligadas ao desmatamento. Em 2017, por exemplo, o HSBC implementou uma política antidesmatamento em resposta a um relatório do Greenpeace que associava o banco a investimentos de mais de US$ 16 bilhões em companhas acusadas de desmatar ilegalmente. O Barclay’s e o Crédit Suisse fazem parte de um grupo de bancos em se comprometeram em 2014 com o desflorestamento líquido zero.

Enquanto isso, a Marfrig fala em respeitar práticas de conservação da Amazônia, mas a empresa é associada a pecuaristas que receberam multas por desmatar ilegalmente áreas da Amazônia.

Os esforços corporativos para limitar o impacto destrutivo das grandes empresas tem um problema: apesar de afirmar que respeitam a sustentabilidade, muitas vezes elas só têm como se certificar das práticas de seus parceiros imediatos. Não há responsabilidade sobre o que acontece nos outros elos da cadeia de produção.

Muitas empresas “conseguem demonstrar [o cumprimento das regras] quando se trata de fornecedores primários, mas a investigação das cadeias de suprimento para por aí”, diz Christian Porier, da Amazon Watch.

Nem sempre isso se deve a práticas desonestas. As empresas simplesmente não têm as informações e os dados necessários para proteger ecossistemas como a Amazônia, diz Michael Coe, cientista e diretor do programa amazônico do Woods Hole Research Center, em Massachusetts, nos EUA.

“Temos que considerar todos os atores e nos perguntar que mecanismos existem para reduzir as demandas sobre a floresta”, afirma ele.

Ecossistemas intactos são cada vez mais importantes. A ONU alertou em um relatório recente que o uso insustentável de terras ajuda a levar as concentrações de dióxido de carbono aos níveis mais altos da História humana. Antes mesmo desse alerta, a crise ambiental mundial tem jogado cada vez mais luz sobre a importância da sustentabilidade para consumidores e também para as empresas.

ASSOCIATED PRESS
Árvores destruídas pelo fogo na Floresta Nacional Jacunda, perto de Porto Velho, em Rondônia, parte da Amazônia.

 

Em 2014, centenas de empresas se comprometeram a eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos e portfólios financeiros até 2020. Porém, menos de seis meses antes do prazo limite, nenhuma delas está perto de atingir a meta, de acordo com o Global Canopy, ONG britânica que rastreia mais de 500 empresas e instituições financeiras que colocam florestas em risco por meio da dependência ou financiamento de cadeias de suprimentos ricas em commodities.

O Carbon Disclosure Project, outra ONG britânica, tentou convencer as empresas a serem mais transparentes em relação às práticas que destroem o meio ambiente, num esforço de melhorar as práticas delas.

Mas mais de 70% das 1.500 empresas que foram convidadas a divulgar informações sobre produção de madeira, óleo de palma, gado e soja em 2018 não compartilharam dados, e mais de 350 ― incluindo companhias como Dominos Pizza e Mondelez, responsável por marcas como Oreo, Nabisco e Kraft Foods ― não publicaram suas informações nos últimos três anos.

Quase 25% das empresas que compartilharam dados disseram que não tomaram nenhuma medida para limitar o desmatamento, ou que apenas fizeram algo somente em um dos quatro grupos de commodities. A pesquisa também mostrou que um terço das empresas ainda não havia começado a trabalhar com seus fornecedores para limitar o desmatamento.

Mais da metade das 865 empresas que têm exposição aos riscos do desflorestamento, segundo a ONG Forest Trends, se comprometeram a depender de commodities sustentáveis, informou um estudo divulgado pelo grupo em junho. Mas menos de 10% delas se comprometeram com um desmatamento líquido zero; menos de um terço deles relatou progressos substanciais.

“Apesar dos compromissos assumidos”, diz a Global Canopy em seu relatório anual “Forest 500”, “as evidências mostram que as taxas de desmatamento ligadas a commodities não diminuíram”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.