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01/09/2019 09:30 -03

Como sua alimentação no dia a dia contribui com o desmatamento da Amazônia

Pecuária lidera o desmate ilegal da Amazônia e há muita desinformação em supermercados e nos rótulos. O que fazer, então?

JOAO LAET via Getty Images

O dia que virou noite em São Paulo foi o presságio da crise que se instalou no País em relação aos incêndios e desmatamentos na Amazônia para o governo, diplomacia brasileira e agronegócio nacional. 

Os constantes focos de incêndios, denúncias de desmate e imagens de satélite da Nasa que comprovaram a ação humana no fogaréu incessante das últimas semanas ― que culminaram, em parte, com o breu na tarde do último dia 19 na capital paulista ― reacenderam uma discussão sobre como nossa alimentação acaba ajudando, mesmo que indiretamente, o desmatamento ilegal na Amazônia e em outras regiões brasileiras que deveriam ser preservadas pelo homem. 

Antes de tudo, é preciso entender quem mais desmata ilegalmente na Amazônia. De acordo com dados do IPAM Amazônia (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de vegetação natural entre 1985 e 2018, uma área que equivale ao Estado do Mato Grosso. 

No caso específico da Amazônia, a perda foi de 47 milhões de hectares nestes 34 anos, mais da metade do total registrado em todo o País. 

Nesse mesmo período, emendou a ONG, a agropecuária avançou de 174 milhões de hectares em todo o território nacional para 260 milhões. Segundo institutos ambientais, é possível fazer uma relação entre dois dados.

“O fogo é uma das etapas do processo de abertura de pastagens, que tem início na derrubada da floresta com tratores e correntes, passa pela secagem e pelas chamas e termina no plantio de capim para alimentar os animais”, disse Erika Berenguer, pesquisadora sênior do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford, à ONG Repórter Brasil.

Uma reportagem da ONG revelou que o desmate da Floresta Amazônica foi acompanhado pelo avanço do rebanho na região. Quase 40% de 215 milhões de bois no Brasil pastam em áreas amazônicas.

Segundo um relatório da Procuradoria do Meio Ambiente do Ministério Público Federal de 2015, a atividade pecuária ocupa 80% da área de desflorestamento consolidado na Amazônia. Além da pecuária, outros setores que ajudam a desmatar a floresta são o comércio ilegal de madeira e a produção de soja. 

‘Comer é um ato político’ 

“A alimentação dos brasileiros é tremendamente importante para a atual produção de alimentos no País, para o bem e para o mal. Comer é um ato político”, explica ao HuffPost a ativista Adriana Charoux, que faz parte da campanha de Amazônia do Greenpeace. 

Mesmo o consumidor que está longe dos estados que compõem a Amazônia pode estar incentivando, mesmo sem saber, o desmate ilegal

Zhang Peng via Getty Images
Mercados têm dificuldade de rastrear origem a carne nas gôndolas.

A pecuária ente, está no olho do furação por ser uma atividade que mais desmata diretamente. Porém, difícil mesmo é rastrear de onde vem a carne colocada nas gôndolas dos supermercados. “Até hoje mercados não sabem ao certo dizer se os produtos vêm de áreas de desmatamento ilegal”, conta Charoux. 

Em 2015, por exemplo, o Greenpeace questionou as principais redes de supermercados do Brasil sobre a origem da carne bovina que era vendida a seus clientes, assim como se o alimento era produzido seguindo regras de respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos. Das sete grandes redes, apenas quatro souberam fornecer as informações de forma precisa. 

Além disso, se você observar bem a maioria das embalagens, vai perceber que não há informações claras ou números de rastreamento das fazendas e frigoríficos. Juntando isso ao fato de que cerca de 80% da carne bovina fica no mercado interno, é quase impossível saber se o que você põe no prato vem ou não do desmatamento ilegal da Amazônia ― ou de outras vegetações do Brasil. 

Mas, na visão da ativista do Greenpeace, o brasileiro tem um trunfo chamado poder de compra. “É a politização do consumo. Quem consome precisa questionar: de onde vem? Quem são seus fornecedores? Se o mercado garante que essa carne não vem do desmatamento ou de trabalho escravo. Cada um tem que fazer sua parte”, recomenda Charoux.

Segundo a ativista, os três maiores frigoríficos do Brasil ― JBS, Minerva e Marfrig ― assinaram em 2009 um compromisso junto ao Ministério Público Federal que garante fiscalizar e não comprar carne bovina de fazendas que desmatam para criar gado. Porém, na prática, algumas empresas não vêm cumprindo o acordo. 

Uma reportagem da ONG Brasil Repórter revelou que a JBS, dona das marcas Friboi e Seara, continua comprando bovinos de uma companhia que produz em áreas de desmatamento ilegal. À reportagem, a JBS negou a ação e diz que possui um sistema “robusto de monitoramento dos fornecedores de gado”. 

Se não é possível confiar 100% nas grandes empresas e redes de supermercados, Adriana Charoux sugere que a melhor opção é buscar produtores locais de sua região ou priorizar produtos que têm um código de rastreamento. “Hoje existem algumas empresas que já disponibilizam o QR code que dá informações de sua origem.”

Menos carne bovina no prato é a solução?

Comprar carnes orgânicas e rastreáveis, de pequenos produtores ou de produtores locais, provavelmente significa pagar mais caro pela carne. Então, por que não reduzir o consumo?

“Acho válido reduzir o consumo de carne e sempre procurar saber de onde ela vem”, afirma Charoux, do Greenpeace. 

bit245 via Getty Images

Reduzir o consumo de carne pode ser benéfico para sua saúde e também para o planeta, de modo geral. Um estudo publicado na revista Nature alertou que uma grande redução no consumo de carne é necessária para evitarmos mudanças climáticas: precisaríamos diminuir em 90% a ingesta de carne, e substituir por mais grãos e leguminosas.

A produção de carne é considerada uma das principais causadoras do aumento da temperatura da terra; ela gera gera gases do efeito estufa, destrói florestas e ainda usa quantidades insustentáveis de água.

Além de todo o impacto ambiental, a carne vermelha e laticínios correspondem por apenas 18% de todas as calorias alimentares disponíveis e por cerca de um terço das proteínas. Ou seja: é possível ter uma dieta equilibrada abusando de fontes de proteínas vegetais, como grãos, verduras e leguminosas. 

Aqui entra, porém, uma outra questão, que é a soja. Enquanto a pecuária encabeça o desmatamento nos estados da Amazônia legal, as plantações de soja estão arrasando áreas de preservação do cerrado, informa o Greenpeace.

Adriana Charoux lembra que, apesar de parte da soja virar ração do gado, outra parte também chega ao consumidor final. “Companhias globais que compram soja de fornecedores não têm nenhum compromisso contra o desmatamento”, lembra. 

Diante disso, a ativista reitera que o único jeito de nos livramos de comidas originadas em áreas de desmatamento é cobrar órgãos públicos e privados

Cobre dos supermercados, vá à feira livre, conheça seus fornecedores, opte por produtos sazonais e proteínas de origem vegetal. Temos que cobrar: o mercado é, sim, responsável pelo que ele está te vendendo.Adriana Charoux, do Greenpeace