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29/03/2020 07:37 -03 | Atualizado 29/03/2020 13:34 -03

Onda de desemprego pós-coronavírus assusta e medidas do governo são insuficientes

Contra todas as orientações sanitárias, Bolsonaro defende que Brasil não pare; Economistas dizem que governo deve reforçar ações para enfrentar crise durante isolamento.

“Se o Brasil parar vai ser o caos.” A posição defendida pelo presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias, de que as pessoas voltem a circular em meio à grave pandemia do novo coronavírus, vai contra todas as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde), de cientistas e epidemiologistas e de outras lideranças pelo mundo. O argumento de Bolsonaro é que o impacto da crise econômica que as medidas restritivas vão causar será pior do que a pandemia em si.

O Brasil não é, de longe, o único país que tem que lidar com o equilíbrio complicado entre adotar medidas que evitem a propagação rápida do vírus que já matou mais de 26 mil pessoas em todo o mundo e preservar milhões de empregos - o que pode desencadear, de fato, uma crise sem precedentes.

Mesmo diante deste dilema, economistas e especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil são unânimes em não questionar as orientações sanitárias de isolamento. A grande questão é o que o governo pode fazer a partir desse novo panorama. Medidas anunciadas nos últimos dias de apoio a pequenas e médias empresas e a trabalhadores informais são consideradas positivas, mas ainda insuficientes.

Uma das projeções mais preocupantes foi feita pela XP Investimentos: de que o número de desempregados pode saltar de quase 12 milhões para 40 milhões de brasileiros. 

O cenário, como o presidente da XP, Guilherme Benchimol, definiu, é “assustador”. Além de o emprego cair, em vez de o País crescer como estava previsto, a expectativa é de retração. Embora o Ministério da Economia tenha previsto um crescimento do PIB de 0,02% (antes era 2,1%), o número é questionado por especialistas. Estudo da FGV indica recuo de 4,4%, o maior já registrado em sua série histórica, iniciada em 1962. 

Neste sábado (28), o próprio secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou em live promovida pelo BTG Pactual que “teremos déficit perto de 3 a 4% do PIB, eventualmente pode ser maior”.

Coordenador do Centro de Macroeconomia da FGV, Emerson Marçal lembra que a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, com duração de 10 dias, teve impactos por meses nas contas do País. “O que vai acontecer dependerá da duração (da pandemia). Quanto mais longo for no tempo, mais tempo vai demorar para a economia se recuperar. Se isso durar muito, esse número (-4,4%) será conservador”, diz.

De maneira bem resumida, a matemática que explica essa projeção é baseada na demanda e na capacidade de produção. De acordo com a especialista em macroeconomia da UFRJ Margarida Gutierrez, a crise começou com um choque de oferta, “por causa do isolamento social, que paralisou o processo de produção”. “As pessoas estão perdendo seus empregos, elas não têm renda, não saem para comprar. As empresas estão sendo limadas, não têm fluxo de caixa”, disse ao HuffPost Brasil.

As pessoas estão perdendo seus empregos, elas não têm renda, não saem para comprar. As empresas estão sendo limadas, não têm fluxo de caixaMargarida Gutierrez, especialista em macroeconomia do Coppead/UFRJ

“Há uma espécie de trava na produção, na oferta e no consumo. Essa situação antecipa um quadro muito pior do que se imaginava para o Brasil em 2020”, afirma o ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Marcio Pochmann. Ao HuffPost Brasil, ele ressaltou que o Brasil já vinha em situação econômica delicada. “No início deste ano, a renda média dos brasileiros ainda continuava sendo 7% abaixo do que era em 2014”, destaca.

Até pouco tempo atrás, o governo apostava nas reformas para combater os impactos da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. “Com R$ 5 bilhões a gente aniquila o coronavírus”, afirmou o ministro da Economia, Paulo Guedes, no início de março.

O governo, contudo, teve que mudar de direção por causa do tamanho do impacto da pandemia. O mesmo aconteceu com o setor privado. Empresas do setor aéreo que previam crescimento estão fazendo o possível para enxugar gastos. A Gol, por exemplo, reduziu salários e a jornada em até 40% para evitar demissões.

A produção de veículos e motores também foi congelada. Quase todas as montadoras anunciaram fechamento temporário e mais de 100 funcionários de ao menos 35 unidades de 14 marcas foram colocados em férias forçadas ou banco de horas. Há ainda funcionários que tiveram contratos de trabalho suspensos, como as da fábrica de Jacareí (SP) da Caoa Chery.

Amanda Perobelli / Reuters
“Há uma espécie de trava na produção, na oferta e no consumo. Essa situação antecipa um quadro muito pior do que se imaginava pra o Brasil em 2020”, afirma o ex-presidente do Ipea Marcio Pochmann.

Se o drama de quem tem carteira assinada e corre risco de ser dispensado é grande, os informais também se sentem ameaçados por não ter direitos. Moradora de Brasília, a manicure Sandra Magalhães, 47 anos, viu sua renda praticamente zerar. “Vou juntando o que ganho para pagar as contas, mas estou sem trabalhar e sem perspectiva. Assim como eu, as clientes estão em casa.”

‘Efeito devastador’

É esse o contexto que tem alimentado o discurso de alguns empresários e de Bolsonaro, que defendem o retorno do País ao trabalho.

A declaração de que a “crise econômica pode matar bilhões”, do dono da rede de restaurantes Madero, Junior Durski, viralizou nas redes sociais. Embora tenha pedido desculpas por sido “mal interpretado”, ele depois reafirmou que “não podemos ser desproporcionais e não podemos não pensar nas consequências econômicas”.

No último dia 17, o próprio Bolsonaro declarou que “vai morrer muito mais gente fruto de uma economia que não anda do que do próprio coronavírus”. “O pânico é uma doença. O que vem com isso: a fome, o desespero. A segunda onda [do desemprego] já chegou”, afirmou o presidente na última quinta-feira (26). 

Nesta semana, a Secretaria de Comunicação da Presidência chegou a contratar, sem licitação, uma empresa para elaborar a campanha publicitária “O Brasil não pode parar”, que defende o fim do isolamento social, ao custo de R$ 4,8 milhões. Neste sábado, a Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou, em caráter liminar (provisório), que o governo não veicule a campanha.

Apoiadores de Bolsonaro também convocaram, para este domingo, carreatas em diversas cidades do país contra as medidas restritivas que evitam a rápida propagação do vírus.

A posição foi criticada pelo próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta: “Pedimos à sociedade. Que comporte-se. Prevaleça, primeiro, a lei, do bom senso. As carreatas, não é hora agora. Os mesmos que fizerem serão os mesmos que estarão em casa daqui duas semanas.”

Entre os empresários, no entanto, há exemplos de quem reconhece a importância do isolamento. 

“Não tem saúde ou economia. Tem que fazer tudo junto. Não tem é um ou outro”, disse o empresário Abílio Diniz em uma videoconferência com a XP Investimentos na última semana, segundo o Valor Econômico. “Tem que botar dinheiro de uma forma organizada para essa retomada. O que vamos fazer nesse período parado é vamos salvar o maior número de pessoas. Mas vamos programar a retomada, vamos botar dinheiro nisso. É fundamental.”

O dono da rede de restaurantes Giraffas, Carlos Guerra, afastou o filho Alexandre do conselho de administração da empresa depois de o rapaz ter dito, em um vídeo que viralizou, que o custo maior para a população não serão as pessoas mortas pelo vírus.

“Você já se deu conta de que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego? Será que sua empresa tem condições de segurar o seu salário por 60, 90 dias? Você já pensou nisso”, questionou Alexandre no Instagram.

Guerra desautorizou o filho e assegurou aos funcionários da rede que terão seus empregos após fim da quarentena. “Fiquem despreocupados”, disse.

Aprendendo com exemplos históricos

O argumento de que a economia reage com o retorno da população “à normalidade” ainda em meio à pandemia, como defende o presidente, esbarra em exemplos históricos. O estudo Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flupublicado no último dia 26 pelos economistas Sergio Correia (Federal Reserve System), Stephan Luck (Federal Reserve Bank) e Emil Verner (MIT), mostra que cidades norte-americanas que intervieram primeiro e de forma mais agressiva para combater a gripe espanhola em 1918 se recuperaram mais rápido depois que a pandemia passou.

“Nossos resultados indicam assim que as intervenções não farmacêuticas (NPIs - medidas de restrição e isolamento) não só reduzem a mortalidade, como também mitigam as consequências econômicas adversas de uma pandemia. (…) Nossas conclusões sugerem que as pandemias podem ter custos econômicos substanciais, e as NPIs podem ter méritos econômicos, para além de reduzirem a mortalidade”, diz o estudo.

Doutorando em economia na Universidade da Califórnia, o economista Carlos Góes acrescenta que grandes perdas humanas geram grandes perdas econômicas. “Seguir as recomendações dos epidemiologistas e fazer um esforço de desligar o motor da economia no curto prazo é capaz de conter as perdas humanas e econômicas de longo prazo. Nesse tempo, políticas econômicas devem suavizar o consumo e preservar capacidade produtiva”, diz ele.

Para o economista, uma das prioridades é preservar os vínculos de emprego. “Destruir um emprego é ruim pra empresa, que perde o treinamento e capacitação de trabalho experiente; para o trabalhador, que fica sem renda, e para o governo, que perde produto e tem que pagar seguro desemprego.”

Ajuda a empresas e a informais

Enquanto Bolsonaro segue defendendo o fim do isolamento, a equipe econômica do governo anunciou nesta semana medidas para tentar frear o impacto da queda da atividade econômica em meio à pandemia.  

Na sexta (27), foi anunciada a abertura de uma linha de crédito de R$ 40 bilhões para pequenas e médias empresas financiarem a folha de pagamento de seus funcionários. O valor só dessa medida representa 8 vezes mais do que previu Paulo Guedes para aniquilar o vírus.

Com potencial de contemplar 1,4 milhão de empresas e cerca de 12 milhões de pessoas, o programa vai depositar o valor do salário (limitado até dois salários mínimos) direto na conta do empregado. “Se o funcionário for demitido, a empresa terá de arcar com os custos e não receberá o recurso”, explica o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Andressa Anholete via Getty Images
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou na sexta-feira (27) linha de crédito para custear a folha de pagamento de micro e pequenas empresas.

O governo também propôs auxílio emergencial para trabalhadores informais. O valor inicial era de R$ 200, mas ao longo da tramitação na Câmara dos Deputados foi elevado para R$ 600. Falta ainda aprovação do Senado para a medida entrar em vigor. Mães que são chefe de família poderão receber o auxílio em dobro, R$ 1,2 mil.

A economista Margarida Gutierrez endossa as decisões do governo em tentar reduzir os efeitos da crise. “Tem que concentrar em reduzir impacto de inadimplência das empresas nos bancos, melhorar o caixa das empresas, aliviando impostos, como o governo vem fazendo, e tentando preservar os empregos. A pessoa vai receber uma fatia menor do salário em vez de ficar desempregada”, diz.

Esforços tímidos

Os esforços do governo, no entanto, ainda são considerados tímidos. Marcio Pochmann relembra que antes de haver a contaminação de brasileiros aqui no Brasil já se sabia do que estava em curso com as informações desde o início de janeiro. “Isso já permitira que houvesse, por parte de quem tem responsabilidade no Brasil, um certo planejamento, porque era evidente que se tratava de uma epidemia com sinais de se transformar em uma pandemia.”

Na avaliação dele, é preciso investir na estrutura de saúde para que ela tenha capacidade de dar resposta. Por isso, o ex-presidente do Ipea ressalta que a questão de saúde pública é o principal ponto e que outros governos já têm mudado de posição na condução da economia. Os Estados Unidos, por exemplo, aprovaram um plano que injetará US$ 2 trilhões (equivalente a R$ 10,2 trilhões) na economia para aliviar os impactos do coronavírus — o valor é maior que todo o PIB do Brasil em valores correntes de 2019 (R$ 7,3 trilhões).

A maior fatia vai para empresas e pagamento de auxílio-desemprego. Famílias vão receber diretamente até US$ 3 mil. No Reino Unido, autônomos vão receber até 2,5 mil libras (cerca de R$15 mil). Tanto os EUA quanto o Reino Unido chegaram a ignorar medidas restritivas no combate ao coronavírus no início do surto, mas depois de ver aumento no número de casos e previsão de colapso no sistema de saúde decidiram mudar de postura.

A ideia de injetar mais dinheiro para as famílias afetadas no Brasil é defendida pela economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington. Segundo ela, é preciso uma renda básica que dure no mínimo seis meses para dar às pessoas a segurança que elas precisam.

Para a economista, não basta apenas cobrir os trabalhadores informais, como foi abordado no auxílio aprovado na Câmara dos Deputados, mas todos os trabalhadores do Cadastro Único (que contempla famílias com renda de até 3 salários mínimos), independentemente de a pessoa já receber outro benefício social.

A economista estima que seria necessário que o governo investisse cerca de 7% do PIB para reerguer a economia. “Isso não vai quebrar o País. Passado o momento emergencial, o que se tem que fazer é uma reforma para inverter a pirâmide tributária, taxar progressivamente a renda, taxar patrimônios e desonerar consumo e produção. Ao reverter, você consegue ter mais para frente os recursos para pagar uma parte dessa conta, que vai ser alta porque a crise é severa”, diz. 

“Ah, mas é muito dinheiro? É uma situação de guerra. (…) 7% do PIB para conter o que pode ser um estado de calamidade total que leve muita gente a morrer, que não morreria em outra circunstância, não é nada. A gente está falando de uma situação de vida ou não, não é um cenário de normalidade”, acrescenta.

Ainda segundo a pesquisadora, os investidores estão mais preocupados com os países que não farão nada do que com os países que estão fazendo alguma coisa. “Se um país cai em depressão econômica por não fazer nada, isso é muito pior para relação dívida-PIB do que se você lança mão de medidas extraordinárias em momentos extraordinários. Também tem efeito deletério sobre a dívida-PIB se você não fizer nada. (…) Medidas insuficientes nesse momento são o pior caminho.”

Pela estimativa dela, a economia mundial vai ficar, “na melhor das hipóteses” uns 8, 9 meses paralisada, com um período prolongado de normalização depois de a pandemia atingir o pico.

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