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Desafio da rasteira: Como orientar os adolescentes sobre os perigos

"É importante que a família crie um ambiente de confiança, para que os jovens sintam-se confortáveis para falar sobre suas vidas", diz especialista.

O tema está sendo discutindo em todos os lugares. Circulam vídeos no WhatsApp, TikTok, Twitter, Facebook e Instagram. E o movimento, aos olhos de alguns jovens, parece ser o de apenas mais uma brincadeira ingênua.

No entanto, a modinha de passar a perna em um amigo enquanto ele está pulando com o intuito de derrubá-lo pode levar a consequências gravíssimas para a saúde. O desafio da rasteira, ou quebra crânio, viralizou nos últimos dias, e agora preocupa pais, familiares, professores e jovens.

O assunto se tornou um dos mais comentados na internet após o youtuber Robson Calabianqui provocar a queda da própria mãe. Fuinha, como é conhecido nas redes, publicou um vídeo na rede social em que mostrava a mulher sendo derrubada e chamou a atenção de seus seguidores.

De acordo com especialistas, uma queda como essa pode acarretar em lesões irreversíveis, traumatismo craniano e até a morte de alguma pessoa.

Diante da repercussão, Fuinha usou as suas redes para pedir desculpas por compartilhar o desafio.

“O vídeo, até certo ponto, parece engraçado, mas vocês sabiam que eu poderia ter perdido a minha mãe por causa desta brincadeira? Ela poderia ter batido a cabeça e sofrido um traumatismo craniano ou qualquer uma outra lesão irreversível para a vida dela. Por conta disso, estou muito arrependido por ter postado esse vídeo. Em nenhum momento eu pensei que ele seria um viral dessa proporção”, explica o influenciador.

Apesar de ter retirado o vídeo do ar, outras cenas e desafios similares continuam acontecendo dentro e fora da internet, em escolas, casas e reuniões de amigos. E isso não é novidade. Será que já esquecemos do desafio da Baleia Azul?

O “jogo”, que começou como uma fake news e ganhou popularidade em 2017, consistia em uma série de 50 “tarefas” ordenadas nas redes sociais por um “curador”, sendo a última delas o suicídio. Na época, a “moda” escancarou o abismo da solidão e da insegurança que muitos jovens atravessam durante a adolescência.

Desafios como esses, geralmente, chamam a atenção dos jovens que querem, de alguma forma, expressar que conseguem superar seus limites e que estão dispostos a cumprir qualquer coisa, desde que garantam o seu espaço e a admiração dos seus pares.

Afinal, todo mundo é amigo e não passa de uma brincadeira, certo? Errado.

A verdade é que a gente esquece do bom e velho clichê: amigo que é amigo não te derruba, mas te coloca para cima e te apoia quando você precisa. Nenhuma outra metáfora serviria tão bem nesta situação.

E foi pensando justamente nisso que alguns jovens fizeram uso da mesma estética de vídeo e das mesmas redes sociais para compartilhar uma outra mensagem, muito mais importante e poderosa: não aderir ao desafio.

“Deixa eu te falar uma coisa, essa é uma brincadeira de muito mau gosto que está rolando na internet e, aqui, essa brincadeira não rola. Muitas pessoas já se feriram gravemente. Nós nos importamos com o nosso colega e aqui não rola”, dizem os estudantes do Colégio Batista de Brasília, em um vídeo publicado nas redes sociais da instituição na última terça-feira (11).

Com a palavra, a especialista

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a psicóloga Camila Cury, presidente e fundadora da Escola da Inteligência, orienta pais, professores e jovens a reagirem ao desafio.

HuffPost Brasil: Quais são os perigos deste tipo de desafio?

Camila Cury: Os riscos dessa brincadeira são tanto físicos como emocionais. Na parte física, não há dúvidas do perigo, já que a queda pode ser violenta. Já na questão emocional, muitas vezes esses jovens participam para se sentirem aceitos no grupo - ou seja, mesmo com medo, participam apenas para autoafirmação e reconhecimento. Geralmente eles estão em uma fase em que vivem o antagonismo, sentem a necessidade de medir força com colegas e acabam se sujeitando a situações que podem fazer mal. Existe ainda o lado de quem não aceita participar e também acaba sofrendo bullying, é tomado como medroso e excluído do grupo. Nas duas situações, a brincadeira apresenta riscos que podem gerar sequelas para a vida toda.

Como as escolas podem orientar os alunos de forma eficiente e acolhedora?

O ideal é que as escolas trabalhem de forma preventiva, para evitar que brincadeiras arriscadas como essa aconteçam. Sabemos que outros episódios de brincadeiras violentas já foram presenciados antes, por isso esse trabalho de prevenção precisa ser contínuo. É preciso trabalhar a autocrítica com os estudantes, o respeito por si e pelo outro e sempre retomar o assunto. Em um momento em que a situação já está instalada, é importante chamar os envolvidos na brincadeira, as suas famílias e alertar todos os outros sobre os riscos. Um sistema de alerta e a parceria entre família e escola nesse momento é fundamental.

E os familiares?

É importante que a família crie um ambiente de confiança dentro de casa, para que as crianças e adolescentes sintam-se confortáveis para falar sobre o que acontece em suas vidas, sem esconder situações por medo ou vergonha. Esse ambiente pede cuidado com julgamentos, punições e falas enérgicas. E, nos momentos de diálogo, a família precisa apontar os riscos de todas as situações de forma acolhedora, mostrando amor e preocupação.

Caso um jovem não queira participar, mas se sinta pressionado, como ele pode responder ao desafio?

Não existe uma receita exata, uma resposta ensaiada, porque cada situação é diferente da outra, assim como cada criança terá um comportamento. Depois de toda a conscientização, dentro de casa e também na escola, esses jovens já estarão melhor preparados e mais confiantes para se negarem a participar desse desafio, entendendo que mais vale a sua proteção do que uma falsa aprovação pelos colegas.